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sbado, 14 de dezembro de 2019

PARAISÓPOLIS

PMs do pisoteamento na favela divergem em depoimento sobre ação com 9 mortes

Versões atravessadas levantam suspeitas sobre verdadeira causa do tumulto em baile funk que resultou em mortes

Por: TERO QUEIROZ03/12/2019 às 13:33
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Foto: Reprodução/vídeo de moradores

Documento divulgado nesta manhã traz divergências nos depoimentos dos policiais envolvidos em ação na favela de Paraisópolis em São Paulo, que acabou com 9 pessoas mortas pisoteadas e ao menos 12 feridas. Ao todo seis policias policiais atuaram na noite de domingo (1º de dezembro), no baile do Pacadão, ou ‘Baile da 17’ que acontecia reunindo aproximadamente 5 mil pessoas, quando foram surpreendidas pelos PMs, que se utilizando de armas de efeito moral, gás-lacrimogênio e cassetete, causaram o ‘terror’ naquela noite. Os PMs dizem que procuravam por criminosos que entraram em uma moto na comunidade e seguiram em direção ao baile. Moradores filmaram os momentos de terror. 

Os depoimentos feitos pelos seis PMs, colocam em dúvida se a tragédia ocorreu em razão da suposta confusão provocada por disparos de criminosos, ou, em um segundo momento, por policiais militares que tentaram dispersar a multidão com uso de munição não letal.

A Folha de São Paulo, obteve o documento nessa manhã (03), quando reportou que integrantes da cúpula da PM admitem não saber em que momento que ocorreu o ‘pisotemento’. “Somente ao término das investigações, com ajuda de exames periciais, será possível saber com certeza a cronologia do caso”, explica o documento. 

O governo de São Paulo sustenta que no domingo, os PMs da Rocam, que usam motocicletas, iniciaram a perseguição de um moto preta, modelo XT 660, próximo ao baile. Os suspeitos teriam cruzado o comboio da PM e realizaram disparo contra os militares, segundo depoimento dos próprios PMs.  O incidente terminou na rua onde ocorria um baile funk.  

Ainda segundo relatou os PMs, os supostos suspeitos, teriam entrado no baile atirando contra os PMs, o que gerou “pânico” que culminou nos pisoteamentos. Reforçando essa mesma versão, os policiais da Rocam disseram terem sido atacados pelos participantes do baile e precisaram ser resgatados por PMs da força tática, que segundo relato, tiveram que usar bombas de efeito moral, balas de borracha para conseguirem deixar a favela. No depoimento, os policiais argumentaram que o uso da força foi em defesa dos policiais.   

No entanto, o grupo em questão, especializado em ações ostensivas, é o mesmo o qual pertencia um policial assassinado há mês em Paraisópolis. 

Desde então, os policias teriam intensificado as operações na área, o que também provocou reclamações por parte de moradores.

Parte dos depoimentos dos policiais aponta que, após os frequentadores do baile funk começarem a atirar objetos contra os PMs de moto, estes conseguiram deixar a favela sem maior confronto. Nesses depoimentos, não há a citação da necessidade da força tática para resgatá-los. Momento em que divergem. 

Ainda por essa versão de parte dos PMs, já do lado de fora da favela eles afirmam ter relatado o ocorrido a um comandante, que repassou informações a outro comandante, quando decidiram retornar à favela. Foi neste momento que se depararam com duas viaturas de força tática apedrejadas e danificadas. Nesse momento, segundo eles, “havia um grande número de pessoas descontroladas” e houve o uso de cassetete e munição química para dispersar a multidão.

“Em seguida receberam a informação de que havia nove pessoas desacordadas em uma viela da rua Ernest Renan”, disse o policial militar João Paulo Vecchi Alves Batista, que assina como o condutor da ocorrência (responsável pela versão oficial dos fatos).

No mesmo registro, há PMs que afirmam que o momento exato dos pisoteamentos se deu após tumulto provocado pelos disparos dos bandidos.

Há, porém, um PM ouvido na investigação que não chega nem a mencionar ter havido confusão generalizada após os disparos dos criminosos quando chegaram o baile funk.

Ele cita os disparos e, na sequência, “que pessoas que estavam no pancadão passaram a atirar pedras e garrafas na direção das equipes policiais”. Há, assim, uma outra versão.

Segundo moradores, os policiais fecharam ambos os lados da rua Ernest Renan. Ao disparar munição não letal e dar golpes de cassetete, teriam induzido a multidão a ir para duas vielas estreitas. Em uma delas aconteceu o pisoteamento. 

Os moradores afirmam não ter visto nenhuma perseguição. Segundo a polícia, os suspeitos não foram presos nem tiveram a moto apreendida — munições suspeitas, porém, teriam sido recolhidas. 

O porta-voz da PM, tenente-coronel Emerson Massera, disse que as investigações sobre o caso estão em andamento e, por ora, não é possível precisar o momento exato das mortes.

“Para sabermos o momento exato que as mortes ocorreram vai depender da investigação, mas a hipótese principal é que os fatos que levaram às mortes dessas pessoas se iniciaram com a confusão gerada pelos criminosos que entraram atirando na comunidade”, disse.

Conforme o oficial, se houve uma tentativa de dispersão do público do pancadão” por parte dos policiais, houve um erro de procedimento com a quebra das normas adotadas pela corporação.

“O que os policiais nos relataram, contudo, é que não atuaram nessa dispersão. Atuaram na perseguição dos criminosos, cessaram essa perseguição quando entraram na comunidade, houve os atos de hostilidade, com arremesso de objetos, com pedras, paus, garrafas; aí, por conta da agressão que os policiais sofreram, houve a necessidade de emprego de quatro granadas de munição química e oito de elastômero, para que os policiais pudessem realmente sair dali”, disse Massera.

O tenente-coronel disse que será apurada a versão de que as motos da Rocam saíram no local (sem ajuda da força tática) e depois retornaram.

Os policiais foram tirados da atividade de policiamento. Massera evita usar o termo afastamento porque “não há indícios de que os policiais cometeram algum crime, algum erro, por isso estão sendo preservados. ” 

O ouvidor da Polícia, Benedito Mariano, disse que é necessária uma rigorosa investigação do caso porque não é aceitável ocorrer mortes em uma ação policial.

“Não dá para uma perseguição de dois supostos suspeitos terminar em uma ação de controle de distúrbios, precipitada, sem planejamento, inadequada, quando a intervenção policial se dá quando o baile já em andamento. ”

Fonte: Folha de São Paulo.  

 

 

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