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domingo, 21 de julho de 2019

PAVIO CURTO

Irã ameaça violar acordo nuclear se Europa não frear Trump

Anúncio vem após EUA acusarem Teerã de ter causado explosões em petroleiros no Golfo de Omã

Por: DUBAI e SÃO PAULO | REUTERS17/06/2019 às 09:05
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Vista da planta nuclear de Arak, sudoeste do IrãVista da planta nuclear de Arak, sudoeste do IrãFoto: Hamid Foroutan/AFP

O Irã anunciou nesta segunda-feira (17) que vai aumentar seu estoque de urânio pouco enriquecido — um tipo de combustível usado em reatores nucleares—  nos próximos dez dias, em uma violação do acordo nuclear firmado com outras potências em 2015 e do qual os EUA se retiraram no ano passado. 

Mas o Irã disse também que pode manter a expansão de seu programa nuclear dentro dos limites do pacto caso países da Europa ajudem o país a compensar perdas financeiras advindas de sanções impostas por Washington. 

O anúncio de Teerã vem em um momento de alta tensão nas relações do país com os Estados Unidos. O governo Trump acusa o Irã de ter atacado dois navios petroleiros no Golfo de Omã na quinta (13), mas o Irã nega. Pelo Golfo de Omã passam 20% de todo o petróleo consumido no mundo."Nós quadruplicamos a taxa de enriquecimento de urânio e ainda a aumentamos mais recentemente, então em dez dias vamos ultrapassar o limite [estabelecido pelo acordo] de 300 kg", disse Behrouz Kamalvandi, porta-voz da agência iraniana para Energia Atômica. 

O urânio pouco enriquecido pode ser usado em usinas nucleares, mas não em bombas atômicas. 

O aumento do estoque do combustível seria uma resposta do país ao fato de os EUA terem se retirado do acordo unilateralmente em 2018, e, em seguida, imposto sanções econômicas ao país, entre as quais proibir aliados de importar petróleo iraniano —a exportação da commodity é a principal fonte de renda do Irã.

Em paralelo, em uma entrevista para a imprensa na usina nuclear de Arak, no sudoeste do país, nesta segunda, Kamalvandi disse que o Irã pode voltar a produzir plutônio, um combustível usado em ogivas nucleares.

Mas Teerã acrescentou que vai cumprir os pontos do acordo se Inglaterra, França, Alemanha e a União Europeia —todos signatários— derem ao país acesso ao sistema financeiro internacional, burlando as sanções impostas pelos EUA, além de compensarem as perdas causadas pelas diminuições das exportações de petróleo. 

"Ainda há tempo [de salvar o acordo] se os países europeus agirem", completou Kamalvandi.

"É um momento crucial, e a França ainda pode trabalhar com outros signatários do acordo e ter papel histórico em salvar o pacto em um curto período de tempo", acrescentou o presidente do Irã, Hassan Rouhani. Ele afirmou que o colapso do pacto não é do interesse da região e do mundo.

O acordo assinado em 2015 fixava limites para o enriquecimento de urânio, o que impediria o desenvolvimento de uma bomba nuclear pelo Irã. Em troca, sanções econômicas contra o país seriam afrouxadas. 

Também nesta segunda, o Irã afirmou tmbém que, se decidir bloquear o estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, tomaria tal atitude publicamente. O chefe das Forças Armadas do país, major general Mohammad Baqeri, disse que o país é "militarmente forte para bloquear o estreito integral e publicamente", de acordo com a agência de notícias iranianas Fars.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, disse no domingo (16) que os EUA não querem entrar em guerra com o Irã, e que tomariam todas as medidas necessárias para garantir uma navegação segura pelas rotas marítimas do Oriente Médio.

A Agência Internacional de Energia Atômica, o órgão nuclear da ONU, se recusou a comentar. Seu chefe Yukiya Amano afirmou na semana passada que estava preocupado com o aumento das tensões em torno do programa nuclear iraniano e que esperava que elas pudessem ser resolvidas por meio do diálogo.

O ministro holandês das Relações Exteriores, Stef Blok comentou que a União Européia quer manter o acordo nuclear com o Irã, mas que o Irã precisava fazer o mesmo.

ENTENDA O QUE ESTÁ EM JOGO

O que significam as explosões nos petroleiros?

Um aumento de tensões na região. Há uma “Guerra Fria” entre a Arábia Saudita, a maior exportadora de petróleo do mundo, apoiada pelos EUA, e o Irã, rival dos americanos há 40 anos e que luta pela supremacia da região com os sauditas.

Quando tudo começou?

Os primeiros ataques a petroleiros foram em 12 de maio, na costa dos Emirados Árabes.

?Quem está por trás dos ataques de maio e de junho?

Nos dois casos, não se sabe. Os EUA e a Arábia Saudita culpam o Irã, que nega.

O que o Irã ganharia atacando petroleiros?

O Irã pode ter conduzido os ataques numa tentativa de alavancar seu poder de negociação e fazer aumentar a pressão global para o retorno de conversas com os EUA, com quem é rompido. Além disso, as explosões seriam uma demonstração de que o Irã é capaz de afetar o comércio mundial de petróleo. Contudo, não há confirmação de que os ataques partiram do Irã.

Qual o papel do Irã na região?

O Irã era o maior aliado americano no Golfo Pérsico até 1979. Depois da Revolução Islâmica daquele ano e da invasão da embaixada americana em Teerã, a relação dos países foi rompida e os EUA passaram a apoiar a Arábia Saudita, que se tornaria a maior potência regional nas décadas seguintes.

O Irã volta a ter influência com a eleição de Mahmoud Ahmadinejad, em 2005. Também aumentou seu poder político com a queda de Saddam Hussein. Em paralelo, o Irã detém certo controle do Estreito de Hormuz, por possuir mísseis supersônicos capazes de atingir navios comerciais (petroleiros) e militares. O petróleo é a principal fonte de renda do país.

E o papel da Arábia Saudita?

O país é forte aliado americano —a Arábia Saudita foi a primeira nação visitada por Trump depois de assumir como presidente. Trump apoia os sauditas contra a influência do Irã na região.

O que os EUA querem?

EUA querem estrangular a economia do Irã, impedindo que o país exporte petróleo. O suprimento seria fornecido por outros países, entre eles a Arábia Saudita (que tem petróleo de altíssima qualidade, melhor que o do Irã e um pouco mais caro) e os Emirados Árabes.

O que os EUA vêm fazendo para bloquear o Irã?

O país se retirou, em 2018, de um acordo nuclear assinado em 2015 com o Irã e outras potências. No final do ano passado, impôs sanções econômicas ao país. Em 2019, proibiu aliados de importarem petróleo iraniano --o Japão obedeceu imediatamente.

Como o Irã está sendo afetado?

Com as sanções impostas pelos EUA, as exportações caíram de 2,5 milhões de barris/dia em abril de 2018 para 400 mil barris/dia em maio de 2019.

Como o Irã responde?

O país ameaça fechar o Estreito de Hormuz. Para isso, tem mísseis supersônicos capazes de atingir navios comerciais (petroleiros) e militares. Também ameaça expandir o enriquecimento de urânio, usado em reatores nucleares, e de plutônio, utilizado em ogivas nucleares. 

Como os ataques influenciam o preço do petróleo?

Ataques a petroleiros fazem o preço da commodity subir. Antes das explosões do dia 13 de junho, o barril valia U$ 59,97; no dia dos ataques, fechou em US$ 61,31; um dia depois, era vendido a US$ 62,08. Um confronto na região afetaria o escoamento para países do Ocidente, fazendo o preço disparar.

Fontes: Reuters, NY Times e Gunther Rudzit (coordenador do Núcleo de Estudos em Negócios do Oriente Médio da ESPM e doutor em Ciência Política pela USP). 

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