19 de outubro de 2020
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A Desolação de Smaug acelera a trama (e coloca um dragão) no novo Hobbit

O trabalho de Peter Jackson com o universo criado por Tolkien não é fácil. Se ele enxuga a coisa, os fãs mais ardorosos enchem o saco porque a ponta da flecha de algum personagem não corresponde ao design do livro; se ele esvazia as referência e joga até a pia da cozinha nos filmes, a reclamação é que Jackson é prolixo, é exagerado, é, por fim, um chato. O Hobbit: A Desolação de Smaug, consegue o feito de equilibrar os dois mundos. Trabalhando em cima do livro que Tolkien que antecedeu a saga O Senhor dos Anéis, Jackson esticou a trama em uma trilogia colocando muito material adicional, escrevendo passagens inéditas e dando aos fãs o máximo por sua grana. Ao mesmo tempo, os problemas de narrativa que ameaçaram emperrar o filme anterior, Uma Jornada Inesperada, parecem ausentes. Em 161 minutos de aventura (oito a menos que seu antecessor), este Hobbit é mais satisfatório e mais redondinho, mesmo que demore um tanto para engatar a segunda. E “um tanto”, em um capítulo de O Senhor dos Anéis, nunca é coisa rápida.

Com um prólogo que mostra Gandalf (Ian McKeller) e Thorin (Richard Armitage) antes de eles convocarem Bilbo Baggins (Martin Freeman) em sua jornada para libertar a Montanha Solitária (e o reino dos anões), o filme dá o tom da urgência da missão: não é apenas a libertação de um reino, conta Gandalf, mas eliminar um mal que ameaça contaminar toda a Terra Média. Daí cortamos o “presente”, com Bilbo e os anões fugindo de orcs assassinos e decidindo qual o pior dos males à sua frente. Todo o primeiro ato de A Desolação de Smaug mostra o grupo caminhando um monte pra lá, com panorâmicas majestosas das paisagens mezzo digitais da Terra Média, e caminhando de novo para cá, com mais panorâmicas e mais música triunfal. Ao fugir do reino dos elfos da floresta, porém, o grupo parece reencontrar seu foco, e o filme acompanha. Alguns rostos familiares (especificamente Legolas, defendido de novo por Orlando Bloom) juntam-se a outros que só existem no cinema (a elfa Tauriel, defendida com graça e beleza por Evangeline Lilly) e este segundo Hobbit encontra seu caminho. Quando o faz, não solta mais!

Claro que tudo pode ser colocado na conta de Smaug, o gigantesco dragão assassino que expulsou os anões da Montanha Solitária e transformou a outrora próspera Cidade no Lago, que faz fronteira com o reino chamado Erebor, em um lugar miserável. Com a voz de barítono de Benedict Cumberbatch, Smaug não é uma fera irracional, e sim um personagem rico, que traz em sua ganância, e em sua vontade de perpetuar a miséria na Terra Média, o contraponto perfeito para Bilbo. Encarregado de roubar a pedra que determina quem é o rei de Erebor para Thorin, o hobbit tenta convencer Smaug de suas boas intenções e termina reacendendo o desejo destrutivo de uma criatura espetacular. E, convenhamos, todo filme fica mais bacana quando tem um dragão em jogo!

O Hobbit: A Desolação de Smaug também sugere que forças sombrias estão colocando suas engrenagens em movimento, o que é a parte da jornada particular de Gandalf para descobrir quem é o misterioso Necromante que está juntando as forças malignas da Terra Média na fortaleza de Dol Guldur. Embora pareça gordura, o sub plot é essencial para amarrar o filme não só com a terceira parte, que sai ano que vem, mas também com a trilogia O Senhor dos Anéis do começo do século. Com a narrativa melhor alinhavada, A Desolacão de Smaug prova que um filme longo não precisa ser um filme lento (pecado cometido por Uma Jornada Inesperada), e a opção em usar a narrativa e a longa caminhada do grupo para apresentar novos personagens se mostra a mais acertada. Assim, outros habitantes da Terra Média como o transmorfo Beorn (Mikael Persbrandt), capaz de se transformar em um imenso urso negro, o arqueiro Bard (Luke Evans), herdeiro de Girion e inimigo natural de Smaug (você vai entender quando ver o filme), e Stephen Fry, sensacional como o Mestre da Cidade no Lago, ganham espaço sem parecer impostos.

Uma coisa, enfim, precisa ficar clara. O Hobbit: A Desolação de Smaug não é exatamente um filme, e sim um episódio. Ao contrário de O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, um “filme do meio” que tinha um centro narrativo com começo, meio, fim e consequências – a batalha de Helm's Deep que reafirmava a posição de Aragorn como rei da Terra Média –, a nova aventura comandada por Peter Jackson é muito esperta em deixar todas as peças em movimento mas não tem  preocupação em fechar nenhuma trama. Se isso pode ser frustrante para quem espera entrar no cinema e sair com uma experiência completa, por outro lado é o modus operandi do cinemão pop, em que cada filme (de cada “universo”) está conectado a outro. ComoHarry Potter, ou Jogos Vorazes, qualquer um da Marvel – e com os próximos Star Wars. O final de A Desolação de Smaug é espetacular, talvez o melhor de toda a saga de Tolkien no cinema. Esperar mais um ano será agonizante para quem gosta de fantasia e aventura. Mas é a natureza da fera. Assim como o grandioso Smaug, é um desafio que vale a pena encarar.

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