27 de outubro de 2020
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Ex-menino de rua volta à praça onde viveu para lançar livro

As perspectivas de futuro de uma criança que dorme nos bancos de uma praça não são as melhores. Mas isso não significa que seu futuro já está escrito. Jorge Luis Martins é a prova viva disso, e nesta semana volta à praça da Alfândega, onde viveu durante a infância, para lançar sua terceira obra O Menino e Seu Segredo durante a Feira do Livro. Martins passou seis anos nas ruas mas conseguiu superar o que parecia insuperável. Hoje é bacharel em administração com pós-graduação em psicopedagogia, corretor, além de escrever e atuar. Um longa-metragem sobre sua história está em fase de pré-produção, segundo ele mesmo relata. "Fui ensejado pelos amigos, pelas pessoas que passaram a me encontrar, que achavam que eu estava morto vendo tudo que eu tinha passado... Todo mundo dizia que eu tinha que escrever, que eu era um exemplo de vida para os jovens... E fiquei com isso na cabeça, na época eu estava gravando, também sou ator, e pensei para mim mesmo que só ia escrever se tivesse um texto transformador e que talvez mudasse paradigmas... Se ele salvar um jovem, uma criança, já valeu a pena ter escrito", afirma.Martins tem uma história de vida muito densa. Tanto que cada frase sua condensa experiência e relatos de vida de uma pessoa que desde pequena teve que se virar para sobreviver, coisas que ele procura passar para as próximas gerações através de seus livros e palestras. "O foco é unir. Eu trago a singeleza de um ratinho, em um relacionamento, em uma amizade de um ratinho com um menino, porque através do texto quero trazer e envolver a parte cognitiva, afetiva e social da criança. Mostrar o verdadeiro relacionamento, a verdadeira força de uma amizade. Que é o que nós devemos valorizar, evitando o preconceito e a discriminação que eu sofri muito", diz ao falar sobre sua nova obra. Dos 10 aos 16 anos Martins viveu nas ruas, dormia em cemitérios e veículos abandonados. Com 13 anos, foi trazido de Novo Hamburgo para Porto Alegre por um homem que lhe ofereceu trabalho, mas que, nas verdade, queria explorá-lo sexualmente. "Fui muito assediado por traficantes, e como era mais seguro, eu dormia no cemitério, e quando chovia eu dormia dentro de carros abandonados", conta, lembrando que sua primeira profissão foi como catador de papel. Até seu nascimento foi complicado, Martins nasceu de sete meses, sua mãe era doente mental, e também perambulava pela rua. Seu pai era presidiário, restando-lhe apenas a avó, de quem guarda boas lembranças. "As pessoas ficam incrédulas porque elas acham que era quase impossível, enquanto todos fazem o caminho em uma direção, eu fiz o caminho inverso. Talvez eu tenha ficado aqui nesse mundo porque quando a parteira fez o meu parto não cobrou nada da minha avó, porque eu nasci de 7 meses. Me olhou e disse que só um milagre... E talvez minha avó tenha rezado muito, era devota, e por isso estou aqui hoje", conta. Hoje, com 54 anos, Martins dedica seu tempo a propagar sua história como lição de vida para os mais jovens, "para que eles deem valor para o que têm, para a comida, para a cama... Estou procurando resgatar isso através de meus textos e meus livros", diz, completando que "o que difere um ser humano do outro não é a cor, não é posição social, não é o poder aquisitivo, mas sim a vontade". (Portal Terra)