10 de agosto de 2020
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Morre, aos 94 anos, a escritora Doris Lessing

Doris Lessing chegava de viagem e, ao descer do táxi na porta de sua casa, no norte de Londres, demorou a entender o que aqueles fotógrafos, cinegrafistas e repórteres faziam ali. Foi um deles que lhe deu a notícia. Ela acabara de ganhar o Prêmio Nobel. Algum comentário? "Oh, Cristo... Eu realmente não me importo", disse, completando, em seguida: "Bem, eu não sei. O que vocês acham que eu deveria dizer?" Mais tarde, ela brincaria: "Estou com 88 anos e eles não podem dar o Nobel a alguém que morreu. Então acho que eles provavelmente acharam melhor me dar logo o prêmio antes que eu me vá".

Doris Lessing "se foi" na madrugada de hoje, aos 94 anos. Segundo seus editores, morreu em casa, tranquila. Ao longo da carreira, escreveu quase 60 livros - contos, memórias, romances e até incursões pela ficção científica. Em todos eles, elegeu como temas a crítica ao poder, o preconceito racial, os direitos das mulheres e uma investigação profunda da psique humana. Ao justificar sua escolha, a Academia Sueca disse que sua escrita foi marcada "pelo ceticismo e pelo poder visionário", além do modo contundente como lidava com as questões que abordava. Contundência que, ao longo da vida, também lhe renderia polêmicas, seja nas críticas ao preconceito racial na África, nos anos 50 e 60, seja em comentários a episódios recentes, como os ataques de 11 de setembro, que ela classificou como "não tão terríveis".

A escritora nasceu na Pérsia, hoje Irã, mas foi criada na Rodésia do Sul, hoje Zimbábue. Após uma infância povoada pela leitura de autores como Charles Dickens e Rudyard Kipling, casou-se com 19 anos. Mas, pouco depois, deixaria o primeiro marido e iniciaria um romance com Gottfried Lessing, que conheceu no âmbito do Left Book Club, grupo de comunistas e socialistas ligados à literatura. Ao completar 30 anos, no entanto, e perceber-se desiludida com o movimento comunista, mudou-se para a Inglaterra com o filho mais velho. E foi já em Londres que iniciou sua carreira literária.

Em 1949, lançou A Canção da Relva, livro, de caráter autobiográfico em que fala de seus pais, fazendeiros na África (a obra mais tarde seria adaptada para o cinema por Claire Denis em Minha África. Foi com seu quarto livro, no entanto, que definiria o tom ácido e seco de sua escrita - O Carnê Dourado, ao narrar a história de Anna Wulf, tocava não apenas na condição das mulheres como fazia críticas ao partido comunista britânico. "Lessing quebrou as convenções sociais em que foi educada para retratar uma espécie de crise nervosa de uma geração cuja marca seria uma espécie de experiência da desintegração", disse hoje a acadêmica inglesa Lorna Sage à Reuters.

Em uma entrevista concedida pouco depois de ganhar o Nobel, Lessing relembrou o momento em que resolveu mudar-se para a Inglaterra - e respondeu as críticas, que a acompanharam a vida toda, por ter deixado os dois primeiros filhos para trás. "Eu não me sinto culpada, essa é a coisa difícil. Porque se eu não tivesse saído, sei o que teria me acontecido. Teria sofrido um tremendo um colapso nervoso e me tornaria alcoólatra. Embora tenha sido uma coisa terrível de fazer, foi a coisa certa. Mas, veja, meus dois primeiros filhos foram criados pelo pai e uma segunda esposa. Eles não foram exatamente abandonados numa porta como alguns fazem parecer."

Nos anos 70, ela iniciou a publicação da série de ficção científica Canopus, que classificava, na verdade, como "ficção social", ou seja, que tinha o objetivo de, ao falar de outros mundos, refletir sobre a condição do nosso tempo. A série é composta de quatro livros que estão entre seus mais célebres e vendidos - ainda que muitos críticos não compartilhem a opinião dos leitores. Harold Bloom, por exemplo, ao comentar sua escolha para o Nobel, disse que se tratava apenas de "correção política". "Se, no início de sua carreira, ela tinha algumas qualidades admiráveis, sua obra posterior é ilegível: ficção científica de quarta categoria", disse o americano. Questionada sobre sua posição, ela foi implacável, como de costume: "Harold quem? Bloom? O que ele quis dizer com ‘correção política’? Talvez que era hora de eles premiarem uma mulher?"

Nos anos 80, de qualquer forma, em livros como The Good TerroristThe Wind Blows Away e The Fifth Child, ela voltaria a temas como o ativismo político, a indiferença da sociedade aos horrores da guerra e a desintegração nas relações sociais. Obras polêmicas seriam a tônica em anos seguintes. Em Sonho Mais Doce, publicado nos anos 90, ela faria críticas à esquerda e ao movimento feminista, além de atacar o comportamento de pacifistas e organizações humanitárias.

Ela se ressentia do uso que, dizia, as pessoas faziam de sua obra, "retalhada e frequentemente tirada de contexto". "O feminismo sempre foi dirigido por mulheres e para mulheres. Os homens sempre diziam: muito bem, prossigam e lutem por suas coisas. E as mulheres continuam a fazê-lo, voluntariamente. Mas o movimento perdeu uma grande oportunidade por ser tão estreito", disse em 1987, quando esteve no Brasil para participar de um debate promovido pelo Estado. Ao mesmo tempo, se dizia contente em saber do papel que seus livros tinham na vida das pessoas. "É maravilhoso. Conheci garotas que dizem ‘Minha mãe me disse para ler você, e minha avó também’. Isso é uma coisa e tanto, não é?"

Ao longo dos anos 2000, as posições polêmicas de Lessing não se limitaram a seus livros. Sobre os ataques de 11 de Setembro, em Nova York, disse que "não foram tão terríveis ou extraordinários". "Alguns americanos vão pensar que sou maluca. Mas eles são um povo muito ingênuo, ou fingem que são." Para ela, o ex-presidente George W. Bush era "uma calamidade mundial". "Todos estão cansados desse homem. Ele é ou muito estúpido ou muito inteligente", disse, acrescentando que nunca "gostei de Tony Blair, desde o início". Após a cerimônia em que ganhou o Nobel, voltou a falar de política americana. "Talvez seja melhor que Hillary Clinton vença a corrida democrata, em vez de Barack Obama", disse. "Além do mais, ele provavelmente não duraria muito, sendo negro e presidente dos EUA. Eles o matariam."

Agência Estado