26 de outubro de 2021
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"TARZAN"

Desaparecido há 9 anos, homem que "morava" em árvore é encontrado em MS

Família de Edson 'Birigui', procurava o homem desde que ele desapareceu ainda jovem

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Familiares de Edson Cassio da Silva, de 37 anos, homem que teve a casa incendiada e foi morar em uma árvore no bairro Jóquei Clube, em Campo Grande e acabou 'virando' notícia em Mato Grosso do Sul, ao sair no Lado B do Campo Grande News, em dezembro do ano passado, estavam a procura do homem, que não fazia contato com a família há cerca de 9 anos. Nesta manhã de 5ª-feira (16.julho.2020), Bruno Bortoli Roque, também de 37 anos, morador de Cianorte, no Paraná, entrou em contato com o MS Notícias solicitando ajuda para localizar Edson, que segundo ele, é seu primo e estava desaparecido há muito tempo. O jornalista do site, seguiu os passos de Edson desde o seu sumiço da árvore em que morou por 5 meses, em um bairro da Capital e acabou encontrando o homem nesta 5ª-feira.  

Antes de ir em busca de Edson, a reportagem tentou entender quem era o "Edson" para o primo. Isso é, o que ele não contou ao Lado B, que valia mencionar. O primo então, traçou uma espécie de linha do tempo.   

“A história dele é longa, mas vou dar uma resumida”, iniciou o primo. 

De acordo com ele, Edson tem mãe e pai separados. Ele chegou a morar com a mãe, em Santa Catarina, que posteriormente pediu aos tios para cuidar de Edson, já que ela não tinha condições de manter a criança. “O pai dele vive no interior de São Paulo. Ele ficou aqui em casa dos 7 anos até os 15. Com 15 anos, já adolescente, dava muito trabalho. E foi morar com pai, mas ficou pouco tempo lá”, relatou o primo.

Esse é Edson no final do ano de 2019, em entrevista ao Lado B, do Campo Grande News. Foto: Alana Portela 

Ainda segundo Bruno, depois de sair da casa do pai, Edson voltou a morar com a mãe, só que acabou se envolvendo com criminosos, o que trouxe grandes problemas para ele. “Teve um roubo de bicicleta na cidade da mãe [Santa Catarina] e diz que deram a bicicleta para ele trocar em drogas. A bicicleta era do irmão do dono da boca de fumo, quase mataram ele”, contou o primo, ao descrever que Edson sofreu grande agressão dos criminosos e acabou indo parar no hospital, internado, tentaram pegar ele. Só que Edson conseguiu fugir. 

Depois disso, o jovem voltou à Cianorte, 6 ou 7 anos depois. Na sequência desapareceu para os familiares, até notarem que ele ainda estava vivo, ao lerem a reportagem do Lado B, que relatava que Edson estaria vivendo em condição de rua. 

O primo pediu ajuda para localizar Edson e disse que a irmã dele quer levá-lo para morar com ela em Assis, no interior de São Paulo. A jornalista que escreveu a reportagem sobre Edson "estar morando em uma árvore", Alana Portela, disse ao MS Notícias, que o homem contou à época, que "iria para outro estado [Birigui (SP)]", e que já tinha o dinheiro da passagem. Ela ainda relembrou que poucas pessoas sabiam que Edson vivia na árvore.  

Próximo da árvore onde viveu Edson, as pessoas tinham várias histórias sobre um possível desfecho à situação. "Acho que ele estava envolvido em roubos aqui no bairro. Até uma padaria alí disse que ele tinha entrado lá", relatou um morador que preferiu não se identificar. Outro morador já relatou que Edson teria se mudado para o interior de São Paulo, após a desilusão amorosa relatada pelo Lado B. Um dos moradores disse ter visto a PM no local expulsando Edson da árvore onde morava. 

ENCONTRO 

No topo da primeira árvore da esquerda para a direita é onde Edson morou por 5 meses.  Foto: Tero Queiroz 

Com as informações passadas pelo primo, o jornalista do MS Notícias iniciou nesta manhã a procura por Edson, refazendo seus passos desde sua saída até ir morar na "árvore", de onde acabou sendo expulso pela Polícia Militar duas semanas após a publicação da reportagem do Lado B, datada em 13 de dezembro de 2019, até encontrar amigos, que viveram com Edson no bairro.  

Após ouvir muitas histórias, o jornalista encontrou, em um abrigo de pessoas em situação de rua, um amigo de Edson, que de início disse não saber de nada. No entanto, ao ver a foto do homem mudou o tom. "O Birigui! Ninguém chama ele de Edson aqui não, ele é conhecido como 'Birigui', é... ele se mudou daqui, já faz um tempo", disse Junior, que lembra que é amigo de "Birigui", há muito tempo. "Já faz bem uns 6 anos, desde que a gente morava perto da ponte", reforçou.

Junior revelou para o jornalista que o amigo teria voltado para o Bairro Balsamo, onde vivia antes. "Ele voltou para lá, onde ele morava com a ex-mulher. É facil de chegar, eu te ensino aqui", ajoelhou-se e passou a desenhar o trajeto que o jornalista deveria seguir em um "mapa" feito com linhas no chão de terra.  

Entrada da Comunidade "Só Por Deus", localizada no Bairro Bálsamo em Campo Grande. Foto: Tero Queiroz

Indo ao local indicado pelo o amigo de 'Birigui', o jornalista verificou que tratava-se de uma área de ocupação. Na ocasião, procurou em um bar, não mais pelo nome, mas sim por dois apelidos que foram relacionados a Edson no decorrer das apurações. Ele também era conhecido como 'Gordinho', em referência ao fato de que, segundo os amigos, no passado ele não era magro.   

Ainda na entrada da comunidade, que leva o nome de "Só Por Deus", o jornalista localizou uma amiga de 'Birigui'. "Ele está ali, mora ali, a gente trabalha naquela casa", apontou para uma casa há aproximados 15 metros de distância do bar.

Na casa, 'Birigui' de joelhos, manipulava uma serra mármore (equipamento de cortar piso), e ao notar a presença da reportagem, de início, indicou pela expressão facial estar assustado, mas ao saber que tratava-se informações sobre seus familiares ele soltou a ferramenta e ficou surpreso, pois segundo ele, um dia antes fazia pedido aos amigos para acessar internet para conseguir falar com seus parentes. "[sic] Meu senhor do céu, pai, eu tava falando ontem sobre isso aí. Nossa senhora, que o meu coração tá até acelerado, que loucura", reagiu o homem. Ele demonstrou estar tremendo, mostrando as mãos sujas e calejadas.  

Edson nos recebeu na residência em que estava trabalhando. Ele disse estar também vivendo no local. Foto: Tero Queiroz. 

Argumentando estar bastante sujo e com cabelos longos. Ele foi perguntado como preferia ser chamado. Na ocasião, optou por 'Edson' e preferiu colocar um boné para gravar uma mensagem para os familiares.  

Ele segurou a emoção, mas não escondeu a euforia por estar, segundo ele, 'sendo atendido por Deus'. Foto: Tero Queiroz.  

Ele ainda desmentiu boatos de que ele teria praticado furtos quando morou no Jardim Jóquei Clube. "Eu não, a polícia chegou a me abordar uma vez, falando que eu tinha praticado não sei o que... Mas não, eu sou trabalhador. Já declarei condição de rua uma vez, mas isso não tem nada a ver, eu não pego as coisas dos outros", garantiu.  

O primo de Edson e a irmã dele podem conferir agora uma mensagem diretamente feita à eles. Além de contar como está. Edson fez questão de mostrar o lugar em que está vivendo. Veja a mensagem: