22 de abril de 2021
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#LUTO | COMUNICAÇÃO

A matéria de capa que se escreve com a tinta da saudade

Guilherme Filho. Jornalista. Garimpeiro de entendimentos e soluções. Reflexivo catador de ciscos raros nos olhos da vizinhança

Fins de 1975. Estava recém-cooptado pelo vinho do jornalismo. Em plena embriaguez, até hoje não-curada, embarquei em Corumbá num trem da NOB para desembarcar na estação de Campo Grande. Aboletei-me numa charrete. Ansioso. O destino: Associação Comercial de Campo Grande. Iria participar do meu primeiro encontro classista, convocado para organizar a Associação dos Jornalistas de Mato Grosso e discutir como seriam feitos os processos de habilitação ao exercício da profissão. O Estado não tinha curso superior de jornalismo e quase 100% da categoria eram diplomados pela prática.

Na reunião, conduzida por Rui Santana, Juvenal de Brito e José Eduardo do Espírito Santo, conheci muitos colegas e fiz amizades que me seriam nutrientes profissionais. Entre esses amigos estava Guilherme Filho, do Diário da Serra. Nos debates, eu e ele fomos recíprocos em várias questões de encaminhamento. Cabelos longos, carteira de cigarros Minister enfiada na manga dobrada da camisa, calça jeans justa no corpo, sorrisão ora divertido, ora desafiador, estava sempre com uma resposta, uma ideia ou uma observação na ponta da língua, usada sabiamente conforme a necessidade.

Amigos e Guilherme Filho Maurício Hugo, Guilherme Filho, Arlindo Florentino, Lizoel Costa e Kiko Ribeiro., no final dos anos 80. Foto: Arquivo pessoal 

Voltei para outras reuniões e estreitei laços com Guilherme e outros profissionais: Sílvio Andrade, Roberto Higa, Pierre Adri, Sílvio Martinez...Em 1978, passei a morar em Campo Grande, contratado para trabalhar no jornal diário "A Tribuna" e fazer assessoria de imprensa a um de seus sócios, o deputado Sérgio Cruz. As pautas políticas eram nosso pretexto afetivo. E, modéstia às favas, aprendíamos um com o outro, respeitávamo-nos, crescíamos juntos, embora cada um no seu quadrado, mas afetivamente identificados. Guilherme era um democrata - e isso nos bastava.

Seguimos caminhos semelhantes, embora quase sempre em trincheiras diferentes nas redações, assessorias públicas de comunicação, de políticos e campanhas eleitorais. De comum tivemos um espaço único de atuação, quando em 1985-86 Guilherme foi me fazer companhia no semanário "Edição Extra", de Pio Lopes e Sílvio Martinez, a quem o Gui chamava de "Marti Cruz", apelido dado pelo Wilson Aquino. Era uma sessão especial na redação quando nós três - Guilherme, Martinez e eu - sentávamos para discutir o tema político da semana. A sede do jornal era na Avenida Mato Grosso, em frente ao Tragolongo, bar da moda que nos acolhia para o fecho da tratativa editorial, sempre sóbria.  

Chamava o Guilherme de "seu Gui". Ele tinha um olhar democrático bem antenado e mesmo não sendo um militante "fardado" da causa estava sempre a postos para defender a liberdade de expressão e os amigos e colegas que sofriam incômodos no regime de exceção, sobretudo entre meados de 1970 e de 1980. Mesmo agonizante, a ditadura aprontava suas ignomínias por aqui. Em 1985, quando o PCB (Partido Comunista Brasileiro) finalmente saiu da clandestinidade e teve sua existência reconhecida oficialmente, Guilherme foi um dos primeiros a me saudar: "Aí, agora é claridade, pode brincar na luz"! Fiz nesse dia um poema: "PCB: Enfim, à Luz!". O artista plástico Jacyntho desenhou uma gravura aplicando o poema sobre ela e as jornalistas Maria Helena Brancher e Margarida Marques mandaram imprimir cerca de 100 desses cartazes, distribuídos durante concorrida reunião na Câmara Municipal para celebrar a legalidade, com a presença de figuras de proa do partidão, entre as quais Acelino Granja, Armando Valadares e Fausto Matto Grosso. É uma passagem que teve o dedo sinalizador e clareador do Guilherme, democrata por excelência.

Em 1998, recém-iniciada a campanha estadual, havia dois grandes favoritos: Ricardo Bacha (PSDB), lançado pelo governador Wilson Martins (PMDB), e Pedro Pedrossian. Eram duas místicas de fortíssimo apelo popular: o wilsismo, com os acenos renovadores de Bacha, e o pedrossianismo, reprisando a antiga e bem-sucedida convicção visionária do "futuro agora". E havia um azarão: José Orcírio Miranda dos Santos. Era o Zeca do PT. Um "quase-ninguém" nesse teatro de gigantes.

Fiz e publiquei no "Edição Extra" uma entrevista com Vander Loubet, primo de Zeca e coordenador-pensador de sua campanha. Ao reconhecer a realidade de uma disputa já polarizada por dois gigantes e outros dois candidatos com quase zero de chances (Zeca e Heitor Pereira, do Prona), perguntei a Vander se o PT não teria um discurso de tercius (terceira via) como remédio para aliviar as feridas do duelista que saísse ferido daquele choque estrondoso e avassalador. Enfim, um discurso chamando o segundo turno. Foi o que Vander respondeu. Foi o que aconteceu. Pedrossian ficou fora, Zeca avançou e levou a eleição com apoio dos eleitores pedrossianistas.

Um dia após a publicação da entrevista, o Guilherme Filho - que era comunicador, marqueteiro e estrategista do PMDB - confidenciou-me que aquela entrevista acenderia a luz amarela na Governadoria e poucos notariam. Disse que os governistas precisariam considerar a hipótese de um segundo turno e ter um discurso para cativar e atrair quem ficasse de fora. Isso não foi feito e Bacha perdeu, para os pedrossianistas e para quem queria mudanças fora daquela polarização. O mais interessante: era o primeiro turno e o Guilherme atiçou-me nas conjecturas a presença de um azarão no segundo turno. E não era o Heitor Pereira.

Guilherme Filho. Jornalista. Garimpeiro de entendimentos e soluções. Reflexivo catador de ciscos raros nos olhos da vizinhança. Talvez ao chegar na nova redação que está assumindo agora estivesse à sua espera um imenso exército de confrades. Nicanor Coelho, por exemplo, caneta em punho, para escrever sobre futuros. Luiz Gonzaga Bezerra, à mineira, degustando cirandices na roda com Sá Maia, Luca Maribondo, Jorge Franco, Jorge Góes, Moacyr de Castro Jorge, Margarida Marques, Levindo Barros, Joanice Pierini, Luca Miranda, e outras quinhentas identidades de primeira página!

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