25 de outubro de 2021
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Araras

Araras vermelhas chegam na Capital anunciando normalidade após fogos

Especialistas ainda não sabem para onde aves vão após reveillon, mas confirmam retorno

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O céu de Campo Grande está mais colorido com a chegada das araras vermelhas. A presença dessa espécie  migratória mostra que as aves urbanas estão de volta à sua rotina normal após os fogos de artifícios soltados no Ano Novo.

A presidente do Instituto Arara Azul e Prof. Dra em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da Uniderp, Neiva Guedes, afirma que logo após o reveillon o monitoramento das araras canindé reduziu. “Normalmente avistamos 40 indivíduos no dia. Logo após só vimos seis. Dá uma diminuída após os fogos e aos poucos elas vão voltando.”

Nas últimas semanas as chuvas atrapalharam a contagem das aves pela equipe.  A bióloga do Instituto Arara Azul, Larissa Tinoco Barbosa, explica que o comportamento dos indivídus é alterado e isso impede de passar um censo totalmente correto.

“O que temos observado é que elas estão de volta. Mesmo não conseguindo fazer o censo todos os dias, observo muitas araras pela cidade neste momento, inclusive as araras vermelhas já podem ser vistas na cidade. Elas vem apenas agora em janeiro e vão embora da cidade em final de junho.”

Isso significa que o prognóstico é positivo apesar das dificuldades que enfrentaram na virada do ano. “Apesar delas terem voltado não podemos desconsiderar os problemas que fogos com barulho causam para a fauna silvestre, pets e para muitas  pessoas como idosos e autistas”, considerou.

MORTES

A responsável pelo Instituto Mamede de Pesquisa Ambiental e Ecoturismo, Simone Mamede, lamenta a cultura dos fogos. “A comunidade não está sensibilizada sobre o impacto dos fogos. Não só a vida humana, como idosos, autistas e tantos outros, a ave fauna é altamente impactada”.

Neste ano as equipes encontraram uma rolinha morta devido aos fogos. O instituto também recebeu a foto de um bem-te-vi encontrado morto por um campo-grandense. “Todos os anos temos dados de espécies com óbito ou transtorno. As araras é uma das várias espécies que são impactadas”.  

Ela afirma que ainda não se sabe para onde as aves vão após se assustarem com o estampido. “No caso das araras vimos que demoraram dez dias para retornarem na região do Parque Linear da Lagoa, onde são seus dormitórios. “

Mamede acredita que os animais tentam se adaptar com a vida urbana, mas ainda sofrem com essas intervenções. “As canindés sentem mais porque reproduzem aqui dentro. Isso pode causar morte dos filhotes, abandono de ninho, dos ovos e dos próprios filhos. Nesses dez dias, por exemplo, um predador pode vir e de alguma forma capturar o filhote. Eles ficam vulneráveis nesse período.”

Responsável por sensibilizar o prefeito Marcos Trad (PSD) que criou a lei que impede fogos com barulho em eventos do município, ela espera que a população siga o exemplo. “Esperamos que neste ano tenha menos ou nenhum fogo. Se nossa cultura está implicando no bem estar de outros indivíduos, causando malefícios de outras formas de vida ou causando morte, temos que mudar.”

ARARA CG

Apaixonado por aves desde pequeno, Vinicius Santana, tem um acervo com as belezas naturais que vivem na nossa cidade. “Comecei por hobie em 2012, depois que minha irmã comprou a máquina fotográfica de uma vizinha e não conseguiu pagar. Eu assumi a conta e comecei a tirar fotos.”  

Hoje ele trabalha como voluntário no Instituto Arara Azul e todas as imagens que são utilizadas na palestra de Neiva foram feitas por Santana. “Tenho registro de vídeo e fotos. Hoje monitoro nove filhotes híbridos que voam na cidade, além de outros três ninhos desta espécie”, conta.

As híbridas são a mistura das araras vermelhas com as canindés, sendo chamadas também de arara arlequim. “Faço um catálogo de alimentação, local, bairro e horário. É um trabalho de campo. Tenho registro que biólogos não têm.”

Com o tempo ele investiu em lentes apropriadas de longa distância e alta definição. Trabalha fotografando, dia sim e outro não. Ele se divide com o trabalho de vigilante de escolta e motorista de aplicativo.

Santana também criou os grupos GrupoararasdeCG e Grupoararavermelha no Facebook que possuem mais de 10 mil seguidores. Nesse tempo todo se camuflando entre os pássaros ele aprendeu muito, até sabe distinguir a vocalização de uma ave de outra.

“As araras ficaram assustadas com os fogos. Mas dois dias depois elas estavam de volta. A presença da vermelha agora é porque elas comem semente dos pés de sete copas. Monitoro 132 ninhos e o registro mais raro que fiz foi em 2014, quando duas canindés estavam cuidado de um ninho com uma arara híbrida.”