26 de novembro de 2020
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DIA DA

Baiana vem para MS fugindo da violência, encontra amor, mas se depara com o racismo dos sogros

Ela era maltratada pelos pais e aos 18 anos deixou seu estado em busca de um amor que conheceu pela internet; hoje com o esposo vende pastel em frente ao Aeroporto e impressionam com essa história

Emili Alexandra, de 19 anos, conheceu Hendrick Venino, de 23, há anos pela internet. Eles sempre flertavam quando ela fez 18 anos, Venino fez uma proposta ousada para a baiana da Capital. “Eu disse, vem para cá que eu vou cuidar de você e nós vamos ficar juntos, quero me casar com você...”. O casal sofre dificuldades financeiras, mas para eles a maior dificuldade poderia ser evitada que é o mal estar com os familiares que praticam racismo contra Emili. Nesta 6ª-feira (20.nov.2020) é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra, data criada em 2003 como efeméride incluída no calendário escolar para lembrar o que todos deveriam saber: "Racismo é crime, é desumano". 

A Baiana sorridente vende salgados junto com o esposo em frente ao Aeroporto Internacional de Campo Grande. Para convencer as pessoas a adquirir o produto o casal resolveu contar a história de amor que vivem e o que almejam: conquistar estabilidade financeira para que Venino conclua a faculdade. “É o que mais quero... Que ele concluindo eu também quero muito entrar na faculdade. Lá na Bahia eu não tinha esperança, mas aqui com ele eu recuperei esse sonho”, explicou Emili. 

Durante a venda de salgados o casal encontrou-se com um repórter do MS Notícias, que perguntou à eles se gostariam de contar sua história para os leitores do site. Imediatamente eles aceitaram. 

Poucos dias depois o casal recebeu a reportagem em uma quitinete em que vivem juntos na Vila Sobrinho, bairro próximo ao Aeroporto de Campo Grande.  É claro, durante a reportagem preparam o pastel com tempero especial feito por Emili. "Esse tempero, todo mundo como e quer mais", diz orgulhosa a baiana.  

Pasteis feitos por Emili, quando recebeu a reportagem em sua casa, na Vila Sobrinho Pasteis feitos por Emili, quando recebeu a reportagem em sua casa, na Vila Sobrinho. Foto: Tero Queiroz | MS Notícias

Num bate-papo, Venino ressaltou o sabor do tempero no recheio produzido pela esposa. Ele disse tratar-se de um tempero incomparável com os pastéis que já comeu em MS. "É incomparável, esse pastel quando vendemos lá no Aeroporto as pessoas chamam pedindo mais... O tempero dela é incrível", adjetiva.   

Esses são Emili e Venino Esses são Emili e Venino. Foto: Tero Queiroz | MS Notícias 

No preparo do produto o casal se divide, Emili é quem sabe a receita, que ela preferiu manter secreta, por isso, o esposo é quem frita os pastéis.

Venino fritando pastéis Venino fritando pastéis. Foto: Tero Queiro | MS Notícias 

PARTIDA 

Emili iniciou a conversa revelando que está há pouco mais de 1 ano casada com Venino e que deixou a Bahia aos 18 anos, pois era maltratada pelos pais. “Meu pai me batia do nada, sofria muito lá... Eu amo meus pais, mas eu estava largada à sorte lá. Quando conheci o ‘Baby’ (apelido dado ao esposo), por meio da internet e ele me fez o convite eu contava os dias para fazer 18 anos. Até quando eu vim para cá, senti que meus pais ficaram aliviados”, contou.

A salgadeira explicou que as violências aumentaram após o pai separar-se da mãe. “Vivia normal, aí eles se separaram e tudo virou um terror... Parece que meu pai descontava a frustração do casamento rompido em mim, dizia que eu não seria nada na vida e que eu teria uma esposo que iria me espancar todos os dias”, lembrou. 

Venino prova o recheio de pastel preparado pela esposaVenino prova o recheio de pastel preparado pela esposa. Foto: Tero Queiroz | MS Notícias.

Ao completar os 18 anos Emili se viu embarcando em um ônibus e encontrou-se com esposo na Rodoviária da Capital de MS. “Eu vi ele e pensei: hum... é lindo, mas é baixinho... (brincou)... Mas sério, ele é tão incrível quanto eu quis sempre”, avaliou. 

Ela contou como e devido a quais ocasiões começou a fazer o pastel. Veja no vídeo abaixo: 

A decisão de deixar a casa dos pais e vir par Mato Grosso do Sul foi tomada, quando o pai separou-se da mãe e Emili passou a enfrentar dificuldade na convivência com o pai violento que a deixou até passar fome. Com a crescente violência a convivência piorou até que o pai decidiu mandar Emili para casa da mãe, onde a violência foi substituída pelo abandono total. "Ela deixava coisas em casa vencidas, nem tinha como fazer nada para comer... Minha mãe até me arrumou um emprego, um cara amigo dela que me chantageava para fazer coisas que ele queria", disse. 

"Eu já fui estuprada quando era menor, contei para meus pais e eles nunca acreditaram. Recentemente, antes de eu vir para cá, um cara invadiu a casa que eu morava lá, eu só consegui fugir porque mordi o dedo dele, arranquei um pedaço e saí correndo gritando na rua... A única pessoas que confiou em mim foi meu esposo. Ele me escutou e me apoiou quando eu disse essas coisas à ele", relembrou a jovem. 

Em vídeo de pouco mais de 6 minutos a jovem narra sem meias palavras a extrema e violenta situação vivida por ela. Veja abaixo:

OS SOGROS 

Casal passou a enfrentar racismo vindo dos próprios pais de Venino Casal passou a enfrentar racismo vindo dos próprios pais de Venino. Foto: Tero Queiroz | MS Notícias.  

Três meses após chegar em MS, Emili já estava casada e passou a enfrentar o racismo vindo do próprios sogros. Tanto ela como o esposo classificam os pais de Venino como: “pessoas boas, que nem percebem que estão sendo racistas”. “Mas ele são racistas, são racistas e por isso disse para eles, se eles não respeitam minha esposa também não me respeitam”, disse Venino.

Emili lamentou como os sogros à trata apenas por ela ser negra e falou sobre expectativas que ela tinha quando deixou a Bahia.  Veja no vídeo abaixo:

O CASAL 

Apesar dos perrengues enfrentados com a chegada da pandemia o casal segue trabalhando para atingir os objetivos: concluir a faculdade de Venino e buscar um curso para Emili fazer. "Eu quero muito voltar a estudar, concluí o médio e gostaria de aqui fazer a faculdade", anotou Emili.  

Venino falou sobre o encontro e os primeiros dias de relacionamento com a jovem, até o casório rápido. Veja: 

Já Emili lembrou que o pai de Venino obrigou que os jovens casassem as pressas, depois de tentar devolvê-la a Bahia. Ela disse que não iria retornar. "Eu cheguei na 4ª-feira e ele queria nos casar na 5ª, eu fiquei assustada", disse jovem. 

Ela lembrou que gostaria de passar mais tempo com Venino para descobrir a sua personalidade, porém o pai de Venino pedia o casamento urgente, levando o casal até o itinerante. "Lembro que no dia uma coisa não deu certo aí ela comemorou... Eu até me irritei e perguntei se ela não queria casar comigo, ela disse que sim, só que estava muito cedo... Eu pensei um pouco e notei que estava cedo mesmo", recordou o esposo.  

VIOLÊNCIA

De Salvador a MS o trajeto feito é de 2.428,7 km até chegar a Capital sul-mato-grossens. Com muitos sonhos e um desejo, finalmente receber amor, Emili deixou para trás sua terra, mas reforça que não abandonou a paixão pela sua cultura.

Apesar de não ter boas lembranças de Salvador, Emili reforçou novamente que não gosta que falem mal de onde ela vem. Ela lamentou que a Capital baiana tenha uma polícia tão violenta e parabenizou os policiais de MS pelo modo como tratam os populares. "A polícia daqui [MS], a polícia daqui sim eu respeito", disse. Veja: 

ARTE SALVA 

Com toda violência sofrida ainda muito jovem, Emili diz ter suportado tudo para chegar até aqui garças a ajuda da arte, promovida por uma Organização Não Governatemental (ONG), que ajuda crinças na Capital da Bahia. Segundo a jovem, graças aos projetos dessa ONG ela se sentia bem e protegida, não tendo que entrega-se ao crime. 

Na ONG, Emili aprendeu que nem tudo na vida é só dor e aprendeu a sentir o prazer por meio da música. Veja:  

FUTURO 

Casal prepara o pastel, que garantem ter recheio exclusivo na Capital

O casal de jovens que se uniu da forma mais moderna possível, enfrenta 'monstros' que estão enraizados nas estruturas da sociedade e cotidianamente precisam ser 'destruídos'. Eles finalizam contando à reportagem que vender o salgado foi um meio de complementar a renda em casa. 

Emili relatou também que a experiência na cozinha surgiu no encalço da necessidade. Veja abaixo: