05 de dezembro de 2021
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MERCADO DA FOME

Ensaio mostra carcaça de galeto à venda; "Viram na fome uma oportunidade de negócio", diz fotógrafo

19 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar

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O fotógrafo recifense Flávio Costa fez o ensaio "Mercado da Fome", onde registra a venda de carcaças de galeto, restos de alimentos e pedaços de frutas. A reportagem é do g1. 

O que há pouco tempo era somente lixo, hoje, com mais de 19 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar, virou realidade e motivou o ensaio de Costa. 

Segundo a reportagem, as fotos crítica social precisaram ser explicadas após pessoas acreditarem que era verdade ao vê-las na internet. "Eu queria que parecesse real, mas a situação é surreal. No Brasil de hoje, se você vê uma bandeja com um resto de comida sendo vendido, se não tiver legenda, você acredita que é verdade", disse o fotógrafo, impressionado com a repercussão.  

O MS Notícias mostrou que viralizou na segunda-feira (18.out.21) um vídeo em que moradores de Fortaleza coletam comida num caminhão de lixo. A venda de ossos bovinos, que antes eram doados, também virou realidade nas cidades brasileiras. Atualmente, a inflação brasileira tem previsão para fechar o ano maior que a de 83% dos países do mundo.

Em 2015 o Brasil estava em um outro cenário, havia conseguido reduzir pela metade o número populacional de pessoas submetidas a fome, cumprindo com um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) estabelecidos pelas Nações Unidas (ONU) para 2015. Veja AQUI.  

Nas imagens do ensaio de Flávio Costa neste ano de 2021, com o governo de Jair Bolsonaro em curso, o fotógrafo coloca os produtos em bandejas de isopor, com uma etiqueta com o preço afixada, como ocorre nos supermercados. No entanto, em vez de alimentos, o que é fotografado são os restos.

"Vi matérias falando sobre a venda de ossos e carcaças de peixe. Fui no açougue vizinho e ele tinha deixado de doar os ossos para vender. Viram na fome uma oportunidade de negócio, é desumano. Foi aí que surgiu a ideia do ensaio, que era a de vender o que sobra", disse o fotógrafo.

A primeira foto foi do resto de um hambúrguer. A imagem foi publicada no Twitter no dia 10 de outubro e acumula mais de 14 mil curtidas. A postagem foi vista por quase 1 milhão de pessoas e causou a indignação de muita gente. O fotógrafo precisou fazer posts explicando que era uma crítica.

Série de fotografias com restos de alimentos foi causada pela indignação de fotógrafo  Foto: Flávio CostaSérie de fotografias com restos de alimentos foi causada pela indignação de fotógrafo — Foto: Flávio Costa

"Depois que vi ossos e carcaças de peixe sendo vendidos ao invés de serem doados, resolvi criar uma série de fotografias sobre o assunto. Essa é a primeira delas. O absurdo é tanto que, sem legenda, a imagem é crível", diz um tweet publicado em seguida, repetido a cada foto que faz parte da série.

Flávio pretende fazer dez fotos para o "Mercado da Fome". Até agora, foram publicadas quatro delas. Além do hambúrguer, compõem a série imagens do resto de uma melancia, metade mordida de uma fatia de pizza e a carcaça de um galeto.

Melancia comida faz parte da série 'Mercado da Fome'  Foto: Flávio CostaMelancia comida faz parte da série 'Mercado da Fome' — Foto: Flávio Costa

As fotos são feitas com aquilo que o próprio fotógrafo consome. Flávio, que trabalha com fotografia e design desde 1996 com foco na questão social, viu de perto a volta da fome no Brasil. No livro "Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus, a escritora narra em um diário a miséria e desumanidade de viver na favela.

Um dos trechos do livro conta um momento em que, sem ter o que comer, Carolina Maria de Jesus vai ao açougue pedir ossos. A realidade dos anos 1950 na favela do Canindé, em São Paulo, hoje é vivenciada em outros locais do Brasil.

"Em 1996, eu via um sertão que passava fome. O brinquedo das crianças era osso de gado. O povo comia feijão e farinha cheios de água com calango. Depois, com políticas governamentais mais voltadas ao Nordeste, eu ia nos mesmos lugares, perguntava pelas pessoas e descobria que tinham ido para a faculdade, ou estudar nos Estados Unidos. Hoje, a fome está voltando. O sertão é a mesma coisa de 1996", disse Flávio Costa

Para o autor de "Mercado da Fome", inúmeros fatores fizeram com que a fome voltasse a assolar tantos milhões de brasileiros.

Foto de meia pizza faz parte da série 'Mercado da Fome'  Foto: Flávio CostaFoto de meia pizza faz parte da série 'Mercado da Fome' — Foto: Flávio Costa

"O que vivemos é um processo que resulta de um monte de coisa. Fake news; uma Justiça e imprensa que não são imparciais; o fascismo latente, que ficou escondido por muito tempo num certo grupo de pessoas; esse tipo de política em que você não quer dar assistência a ninguém, em que é cada um por si; a questão da meritocracia. É um conjunto de coisas que culminaram onde estamos e para sair disso vai demorar muito", declarou.