21 de outubro de 2021
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COVID-19 | SAÚDE MENTAL

Mais afetadas pela ansiedade na pandemia, mulheres da saúde não sentem segurança

Estudo da Fiocruz-MS traça perfil dos mais afetados por problema de saúde mental e ainda mapeia projetos e serviços psicológicos

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Para saber o impacto do transtorno mental no trabalho e nos trabalhadores da saúde na pandemia do coronavírus, um estudo vem sendo realizado pelo Fundação Oswaldo Cruz de Mato Grosso Do Sul, já que - desde a chegada da Covid-19 - profissionais da área da enfermagem, farmácia, fisioterapia, nos serviços de saúde em geral tem atuado de maneira quase ininterrupta. 

São buscados e observados sinais de depressão, ansiedade e estresse, na tentativa de entender as estratégias utilizadas para o enfrentamento do sofrimento mental na pandemia de COVID-19 e, consequentemente, pós-pandemia. Todo o processo começou com a abordagem de 518 profissionais, ainda em 2020, com um questionário online para que apontassem se alguns desses sintomas se fizeram presentes durante a pandemia. 

Todo o trabalho de pesquisa é realizado de forma conjunta, por pesquisadores da Fiocruz de MS e Fiocruz Brasília, em parceria com pesquisadores da Escola de Saúde Pública do estado de Mato Grosso do Sul (ESP-MS), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).  

Dentre os objetivos dessa iniciativa, saiu um catálogo que mapeia os projetos e serviços psicológicos públicos e privados de Mato Grosso do Sul. A cartilha "Cuidando-se" traz informações para os trabalhadores da saúde que necessitam encontrar atendimento e apoio para o cuidado mental durante esse período pandêmico. O lançamento do material acontece amanhã, 17 de setembro, às 10h, em ambiente virtual.

Pesquisadora em Saúde Pública, Debora Dupas é coordenadora da área de Educação da Fiocruz do Mato Grosso do Sul. É mestre em Enfermagem em Saúde Coletiva (2008) e doutora em Ciências (2015), ambas pela USP. Ela aponta que, através da pesquisa que, “é possível identificar e monitorar os grupos com maior probabilidade de desenvolver sofrimento mental, para que intervenções psicossociais sejam oportunizadas em tempo hábil”. 

Os dados indicam que os sintomas de depressão, ansiedade e ou estresse são mais presentes em profissionais do sexo feminino, com idade entre 30 e 39 anos, que trabalham no primeiro atendimento as pessoas da comunidade. A pesquisa aponta que elas não se sentem seguras com as ações que foram implementadas pelo poder público para o combate ao coronavírus na pandemia. 

"Os trabalhadores da saúde que estão na linha de frente, desde o início da pandemia, nos hospitais ou na atenção primária à saúde, necessitam de espaços institucionais de apoio, a fim de minimizar o sofrimento mental. Faz-se necessário a implementação de políticas públicas e a institucionalização de mecanismos assistenciais permanentes e longitudinais, voltados aos trabalhadores, além de adequadas condições de trabalho", comenta a coordenadora ao MS Notícias. 

Debora Dupas salienta que antes da pandemia, o sofrimento emocional já vinha ocupando espaço entre as maiores causas de afastamento do trabalho, cenário esse que só piorou com a chegada da Covid-19. 

"Os resultados do estudo reafirmam o que vínhamos ouvindo informalmente dos trabalhadores e reforça a necessidade de iniciativas de promoção, cuidados e atenção à saúde mental voltadas aos trabalhadores da saúde, nos diversos serviços da rede de atenção à saúde", acrescenta ela.

Para o Presidente do Conselho Regional de Enfermagem Sebastião Junior Henrique Duarte essa pesquisa é de suma importância já que os resultados podem subsidiar políticas que possam atender esse segmento. 

“O atendimento do profissional de enfermagem é na linha de frente e é um dos maiores contingentes em atividade na pandemia, a melhora das condições de trabalho bem como a segurança desse trabalhador reflete diretamente no atendimento à comunidade", acrescenta.

Ainda, a pesquisa traz a Ansiedade como o sentimento que mais acomete os profissionais, pela angústia constante do diagnóstico positivo para o coronavírus. Os números apontam que 71,2% dos participantes não tinham se contaminado com novo coronavírus, 28,8% contraíram e, desses que foram infectados, 91% estavam recuperados. 

Essa articulação que envolve sindicatos, conselhos de classe, gestores, traz visibilidade à saúde mental desses profissionais, o que pode refletir em ideias de cuidados que visem a saúde desses trabalhadores. 

Ainda, segundo a pesquisa, não apenas os profissionais do hospital sofrem com transtornos psicológicos, mas principalmente os que estão na rede de atenção primária, nas unidades básicas de saúde perto da sua casa. 

“Os trabalhadores da saúde têm uma sobrecarga de trabalho, pela falta de efetivo, pela exaustiva jornada de trabalho e pelas próprias condições de trabalho, que por si, podem gerar sofrimento. As instituições, na maioria das vezes, não garantem suporte à saúde mental dos trabalhadores e o poder público precisa se sensibilizar com essa questão”, finaliza Debora Dupas, coordenadora da Pesquisa.