01 de dezembro de 2021
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ARTIGO

O desejo e a fantasia

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Dizem alguns teóricos da psicologia que o homem é um ser desejante. Segundo eles, os animais têm necessidades e impulsos, mas não desejos. Desejos apenas o ser humano tem. Muitas vezes é engraçado observar esse fato nas crianças: elas desejam uma bolacha, ou um sorvete, talvez uma bicicleta nova no Natal. Desejos de criança, coisas bem concretas, simples de compreender. À medida que as capacidades cognitivas da nossa mente aumentam com a idade, nossos desejos ficam mais abundantes, variados e complexos.

Algumas pessoas desejam casar, outras desejam um bom emprego, outras, talvez morar no exterior. E todos esses desejos são legítimos, não são? Eu acredito que sim. O problema é que em muitas ocasiões eles não são realmente desejos. São fantasias. Lembra daquele primo que vive falando que vai trabalhar nos Estados Unidos, mas nunca nem pisou numa escola de inglês? Ou da colega do escritório que sonha em casar, mas nunca teve um relacionamento de mais de três meses? Esses dois exemplos mostram pessoas fantasiosas, que provavelmente sentirão muita insatisfação na vida. Na fantasia, tudo é bonito, grandes feitos são conseguidos sem esforço e alguma força cósmica move os fios para que tudo dê certo. Só que na realidade, isso raramente acontece.

O filósofo Immanuel Kant disse algo assim: “quem deseja um fim, deve desejar também os meios necessários para atingir esse fim”. Pensando nesse assunto, lembrei agora de uma conhecida minha que achava que sabia inglês. Não que ela tivesse estudado a língua inglesa em nenhum momento da sua vida, mas acreditava piamente que era capaz de compreender razoavelmente bem a essência de qualquer texto em inglês.

O fato dela obter notas absurdamente baixas em qualquer teste de inglês que ela fizesse -e fez vários-, tornou-se um mistério inexplicável, uma conspiração dos deuses em contra sua. Na verdade, ninguém aprende bem uma língua estrangeira sem lhe dedicar vários anos de estudo e ninguém que gasta o salário inteiro fica rico. Quem deseja ficar rico, e esse é um desejo tão legítimo como qualquer outro, primeiro deve desejar os meios para chegar lá: guardar dinheiro todos os meses e aprender a investir esse dinheiro. Quem deseja entender bem textos em inglês deve desejar primeiro estudar bastante -bastante mesmo- até conseguir o objetivo marcado.

A cultura atual é descrita muitas vezes como imediatista: todo o mundo quer resultados rápidos. Contudo, a nossa cultura não consegue alterar leis físicas, biológicas, comportamentais, econômicas, etc., para fazer que as coisas aconteçam mais rápido do que podem acontecer. Reconhecer esse fato é importante para evitar uma das maiores fontes de sofrimento: a frustração.

É claro que fantasiar é próprio do ser humano também. Então, como isso é uma caraterística natural das pessoas, não pode ser algo intrinsecamente errado. É ruim apenas quando não somos capazes de distinguir com clareza o que é fantasia do que é desejo do que é a realidade. Aprender essas distinções, como tantas outras aprendizagens na vida, é um processo progressivo, às vezes vagaroso, de ir alcançando uma maior maturidade, em definitiva, chegar a uma compreensão de nós mesmos e do nosso contexto, que nos permita lidar de forma mais efetiva com a realidade.

AUTOR: Jaume Ferran ARAN CEBRIA, Mestre em Psicologia (UFSCar), Psicólogo Clínico, CRP: 14/00281-8 Atendimento presencial e online.

Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o posicionamento do jornal quanto ao tema abordado.