28 de novembro de 2020
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ARTIGO

Pandemia econômica

Desde 2014, o Brasil vive uma verdadeira pandemia econômica; entenda!

A essência do Plano Real foi a valorização de nossa moeda. No entanto, mesmo antes da Covid-19, a política econômica do atual governo vem permitindo sua desvalorização em nível bem superior ao das estrangeiras. A falta de bom senso na questão da preservação do Real acarretou em muito a perda de investimentos externos. Somente nos 17 primeiros meses do mandato de Jair Bolsonaro, os investidores estrangeiros foram forçados a sair do País com cerca de US$ 60 bilhões (mais de R$ 300 bilhões), indo para outras economias emergentes mais confiáveis, como o México, que tem sinalizado uma política econômica com crescimento bem maior que o nosso.

Desde 2014, o Brasil vive uma verdadeira pandemia econômica, da qual nenhum ministro da área foi capaz de resgatá-lo. Esse problema tem sido tão nocivo para a vida dos brasileiros quanto a Covid-19. O novo governo, com mais de um ano, já teve tempo suficiente para apresentar resultados que correspondessem às promessas do atual titular do Ministério da Economia. Entretanto, além da sua política salarial ser a pior de todas as medidas, a atual estratégia cambial está sacramentando a mais grave crise econômica das últimas décadas. Somente de julho de 2019 a maio de 2020, o Real desvalorizou-se acima de 40%, permitindo o encolhimento, nesse mesmo percentual, dos recursos em moeda nacional dos investidores estrangeiros que ainda permanecem no Brasil. Já os lucros do mercado financeiro especulativo (com o dólar), de modo oposto, elevaram-se no mesmo percentual (isso é grave e, no mínimo, suspeito).

Antes da pandemia, já havia neste governo alguns recordes negativos: dívida pública, déficit da Previdência, fuga de capitais estrangeiros, desvalorização do real, queda das reservas cambiais e preço dos combustíveis. Também já estamos perdendo algumas posições no ranking mundial das maiores economias para a Rússia, o Canadá e a Coreia do Sul, caindo do nono para o 12º lugar. É preciso considerar, ainda, os R$ 103 bilhões com as privatizações de 2019 e os mais de US$ 40 bilhões das nossas reservas cambiais usados apenas para tampar o buraco deixado pela desastrosa política econômica do Governo Bolsonaro.

A queda da inflação à custa de uma recessão econômica não representa nenhum mérito do ministro da Economia. Apenas retrata um péssimo sinal para o crescimento do PIB. Se a queda da inflação fosse por força da valorização do Real, seria plausível. Afinal, os preços de todos os insumos e produtos importados ou exportados variam em linha com a flutuação do câmbio, determinando de modo automático o nível da inflação. Porém, cabe frisar que nossa baixa inflação atual está exclusivamente sob o domínio de um processo recessivo.

A taxa básica de juros (Selic) deve ser considerada o segundo oxigênio para a economia, ficando atrás apenas dos salários das classes de baixa renda. Seu presente nível é o ideal, mas há um fator agravante: pouco está influenciando na queda dos juros reais para os tomadores de empréstimos e muito menos para os usuários dos cartões de crédito. Nada melhor para os bancos, pois captam recursos a 3% ao ano (conforme Selic atual) e cobram até 322% nos cartões de crédito, cujos juros estão 107 vezes superiores aos da taxa básica. Isso não é apenas abusivo, é um verdadeiro assalto às classes de baixa renda, que não têm alternativas a não ser cair nas presas venenosas dos bancos, que cobram juros em patamares superiores aos de agiotagem.

A gravidade fiscal do País já era prevista desde o primeiro momento da presente política salarial. A suspensão temporária do aumento real do salário mínimo foi a pior e mais retrógrada decisão do atual governo. Com o mísero valor vigente e os bancos, sem o menor escrúpulo, abocanhando boa parte dele, não teremos demanda de consumo suficiente para o crescimento econômico.

Como fundador de um grupo empresarial responsável pela geração de alguns milhares de empregos, defendo expressivos aumentos reais do salário mínimo, por entender que qualquer elevação do custo público e privado decorrente disso implicará um retorno bem superior. Para o setor produtivo, seria pelo menos duas vezes maior, movido pelo crescimento da demanda de consumo e a consequente redução dos custos pelo volume. Para estados e municípios, também seria bem superior, devido ao incremento das arrecadações do ICMS e do ISS, bem como dos repasses da União. Para o Governo Federal, seria ainda mais expressivo, em decorrência da expansão das arrecadações tributárias e previdenciárias. Somente as contribuições da previdência pública e da privada já cobririam os respectivos custos, seguidas de significativo aumento do recolhimento dos demais tributos, como IPI, PIS, Cofins e IR.

Mesmo sem os reflexos significativos da Covid-19, cuja influência se deu apenas após o dia 20 de março, deverá ser frustrante o crescimento projetado pelo ministro da Economia para os primeiros três meses de 2020. Acredito que a estratégia do Banco Central para valorizar o Real nestes últimos dias seja para diminuir o impacto cambial após a divulgação do desastroso resultado do PIB deste primeiro trimestre. Entendo que as previsões mirabolantes do ministro, de que o aumento seria por volta de 2,4%, gerarão grande desconfiança do mercado que ainda acredita na sua política. O fato deverá assustar ainda mais os investidores externos, provocando a desvalorização do Real, ou seja, depreciando muito a nossa moeda em relação às estrangeiras.

Números e fatos não deverão ser ignorados apenas em função de esdrúxulas desculpas.

AUTOR: *É empresário, é presidente do Grupo Aço Cearense.