15 de abril de 2021
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'HISTÓRIA DE FILME'

Paranaense morre 10 dias depois de realizar sonho de se casar

Casal começou a namorar em 12 de junho do ano passado, no Dia dos Namorados, e casaram no início desse ano

Vendedora em loja de vestido de noivas, Adarlele Ribas Andrade de Lara, de 26 anos, carinhosamente conhecida apenas como Ada, mesmo debilitada devido o câncer que enfrentava, realizou o sonho e casou-se com Ruan Pablo de Lara, de 27 anos, na Paróquia Nossa Senhora da Salette, em União da Vitória, no sul do Paraná em 6 de fevereiro de 2021.  No dia 16 de fevereiro, porém, a guerreira morreu no Hospital de Clínicas, em Curitiba. A reportagem é do G1.

A caçula de cinco irmãos estava ao lado da mãe, Lúcia Glaab de Andrade, de 60 anos.  "(sic) Rezou o Pai Nosso, a Ave Maria, cantou pra mãezinha do céu duas vezes. Na terceira não conseguiu e foi com Deus", recordou-se a mãe. "Está sendo muito difícil", desabafou.

Ruan descreveu ao G1 como foi desde que conheceu a esposa, há menos de 1 ano, após parabenizá-la em 22 de maio de 2020, pelo aniversário de 26 anos. "A gente se deu muito bem desde a primeira conversa [pela internet]. Um começava a escrever, o outro escrevia a mesma frase. Foi de primeira", contou o viúvo. "Vivemos muito em pouco tempo", declarou.  

Eles começaram a namorar em 12 de junho do ano passado, no Dia dos Namorados. "Ela falava que ele era o príncipe encantado dela. É uma história de filme, uma prova de que o amor verdadeiro existe", afirmou o irmão da jovem Adnilson de Andrade, de 32 anos.

Adarlele e Ruan em ensaio de fotos antes do casamento Adarlele e Ruan em ensaio de fotos antes do casamento. Foto: Arquivo pessoal 

Quando o casal se conheceu, Ada se considera curada de um tumor cancerígeno no braço esquerdo descoberto aos 23 anos — e que a deixou com dificuldades para movimentá-lo. Vencer a doença não era novidade para ela. Aos sete, já havia superado um tumor no rim.

Atenta, a jovem percebeu os sinais do corpo. Foi uma bolinha que surgiu na testa. Em agosto, os médicos diagnosticaram a metástase do tumor. A doença reapareceu na cabeça, na coluna e na bacia. "Desistir jamais. Nunca passou nem pela minha cabeça nem pela dela. Ela lutou até o fim. A gente sempre acreditou no milagre", disse Ruan.

No decorrer do tratamento, eles se uniram ainda mais. A decisão de casar foi bem recebida pelas famílias. Do mesmo jeito que as dores não a impediam de viver, a doença não barrou o sonho.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, a organização da cerimônia foi cercada de cuidados. Não houve festa, e na igreja um terço da capacidade. A primeira data era dezembro, embora Ada quisesse antes. Com o aumento de casos de Covid-19, ficou para fevereiro.

Ada gostava de organizar festas. Além dos aniversários, tinha ajudado no casamento de uma prima. Segundo a mãe, os cinco afilhados da jovem foram agraciados com a capacidade que ela tinha de deixar tudo no capricho.

Ao passo que em fevereiro se aproximava, o quadro da noiva se agrava. Às vésperas da cerimônia, ela encarou dez dias de internação por causa da forte anemia e das dores. Ada queria alta para provar o vestido, os médicos não liberaram.

A família não esconde a gratidão pela equipe do hospital. Uma ambulância com médico e enfermeiro levou a jovem, que estava internada na capital, para provar o vestido ao lado da mãe. Algumas pessoas que participaram do tratamento estavam na cerimônia.

"A hora que estavam saindo da igreja, o Ruan levando ela sentada na cadeira de rodas. Os dois chorando, todo mundo aplaudindo. Ela aplaudia junto com o sorriso mais lindo do mundo", contou o irmão.

OS ÚLTIMOS DIAS

O casamento não era o único sonho de Ada, que se dividia entre trabalho e faculdade de administração, interrompida pelo tratamento. O curso de radiologia ficou por terminar. Já a carteira de habilitação, não. Tirou mesmo sem o braço estar bom.

Sonhou em ser mãe, ela adorava crianças. Impedida pelos tratamentos agressivos, adotou o cãozinho Snow - um shih-tzu de um ano e meio que mora com Ruan na casa onde vivia com Ada desde dezembro.

Após o casamento, em um sábado, a jovem ficou bem até terça-feira, contou o marido. Sentia dores, mas a medicação controlava. No dia seguinte, ela foi de ambulância para uma consulta em Curitiba e ficou internada.

A mãe, mais uma vez, estava junto. Dessa vez, ela ficou no hospital o tempo todo. A filha, que comia doces como uma formiga, já não tinha tanto apetite.

O pai, marido e irmãos iriam para visitas, conciliando horários com os trabalhos. Na semana seguinte ao internamento, eles foram chamados às pressas do sul para a capital.

"Na metade do caminho o Ruan disse que não adiantava a gente correr, que a gente já estava atrasado", lembrou o irmão. "Eu estava sozinha com ela. Só eu e ela. E Deus comigo", disse a mãe.

FONTE: G1.