13 de agosto de 2020
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NOVA POLÍTICA

Sem caixa em lanchonete, clientes calculam e pagam conta

Funciona em um box de crossfit e em um cursinho pré-vestibular, entenda

A corrupção está presente no nosso dia a dia nas mais variadas formas e o combate a essa prática começa com pequenas ações. Pensando nisso, a administradora e proprietária do Boneco Restaurante, Renata Lara de Oliveira, 28 anos, resolveu apostar na honestidade e dar um voto de confiança aos seus clientes.

Ela e seu marido, Guilherme Barnabé Lima, 29, tiveram a ideia de inovar o sistema de cobrança da conta em dois dos quatro estabelecimentos que ela administra no Distrito Federal.

As lanchonetes funcionam em um box de crossfit e em um cursinho pré-vestibular, ambos na Asa Sul. Nos negócios, os próprios compradores pegam a mercadoria, calculam o quanto gastaram e pagam a conta sozinhos, sem ajuda de funcionários.

“No KOR Crossfit atuamos integralmente com o autosserviço. Já no cursinho pré-vestibular Apoio Singular, parcialmente. Durante um período do dia, há uma funcionária, mas como a lanchonete fica aberta o tempo todo, nos horários sem atendente os consumidores podem se servir”, explica Renata.

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A dinâmica é simples: o cliente vai até o espaço, escolhe o que deseja, faz a conta e deixa o valor cobrado pelos produtos em uma caixinha. O pagamento pode ser feito pela máquina de cartões de débito e crédito, dinheiro ou por transferência bancária.

Mensagens que foram afixadas nas portas dos dois estabelecimentos trazem o aviso: “Nosso desempenho é o reflexo das nossas atitudes. Então escolha, pague você mesmo de acordo com as orientações e saboreie essa experiência.”

Ainda há informações sobre como usar. “Estamos em autosserviço? Escolha seu consumo, anote no ‘caderno de saídas’ conforme especificações e efetue o pagamento”, esclarece o anúncio.

Ao explicar como funciona o esquema, a proprietária conta que tudo aconteceu por acaso.

CONTRAMÃO

Segundo Guilherme, a iniciativa vai na contramão da desconfiança. “Para a gente, ainda vale a pena confiar na boa-fé das pessoas. Não há ninguém vigiando. Nem funcionários e nem câmeras. Contamos somente com a consciência dos próprios consumidores.”

Ele diz ainda que, em cerca de seis meses de atendimento nesse modelo, a média de honestidade tem superado as expectativas do casal. “No início, havia uma margem de esquecimento que também veio melhorando com o passar dos dias. As pessoas ainda estão entendendo como funciona o esquema.”

Para os frequentadores dos lugares, o diferencial é o clima de confiança recíproca. “Além de ser uma tendência do mundo atual e moderno, é uma prática que ajuda a fidelizar o cliente. Isso dá mais autonomia para as pessoas e otimiza o tempo”, opina a recepcionista do pré-vestibular Apoio Singular, Camila Queiroz, 26.

O proprietário do KOR Crossfit, Alysson Tomizawa, 42, confirmou que os alunos aprovam a parceria. “Estabelecer essa relação criou um diferencial. Mesmo se o restaurante registrar um percentual de pessoas que não façam direito, ele ainda sai ganhando na quantidade e na visibilidade do local”, assegura.

PICOLÉ 

Também na capital federal, apostando no mesmo formato, um grupo criou o projeto Picolé para todos. A ideia é: os sorvetes no palito são deixados em um freezer e o interessado pode se servir e deixar o pagamento em uma caixinha. Não há câmeras, funcionários ou qualquer outro mecanismo de controle nos locais onde a campanha está disponível.

De acordo com um dos idealizadores da iniciativa e professor, Thiago Gonçalves Silvério da Costa, 32, em economias desenvolvidas, como nos EUA e na Alemanha, e mesmo em países da Europa, já vigora há um bom tempo o modelo de autosserviço em supermercados, conveniências, postos de gasolina e outros estabelecimentos. Em algumas cidades europeias não há cobradores e nem mesmo catracas nos coletivos. O passageiro, ao entrar na estação, deve fazer seu pagamento voluntariamente.

“Após uma viagem para fora em 2007, eu e outro idealizador do projeto resolvemos implementar a proposta em uma escola particular da cidade. Não apenas com o objetivo de testar, mas também para disseminar a cultura da honestidade.”

Atualmente, o projeto já conta com mais de 200 locais que são parceiros em todas as regiões administrativas, desde condomínios residenciais, igrejas e empresas privadas a órgãos públicos no DF, em Goiás e Minas Gerais.

Ainda segundo o professor, vale ressaltar que em regiões onde o poder aquisitivo é menor, a taxa de honestidade é maior. “As pessoas acabam entendendo que ser honesto muda a própria realidade e a dos demais participantes do projeto, já que a reposição dos picolés depende da arrecadação financeira anterior”, conclui.