26 de outubro de 2020
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Transferências de pacientes estrangeiros sobrecarregam Hospital de Corumbá

 A chegada de pacientes estrangeiros sem prévio contato, principalmente bolivianos, vem causando transtornos ao cotidiano do atendimento médico oferecido pela Santa Casa de Corumbá. O grande problema é que na maioria das vezes o paciente chega numa situação que requer transferência para Campo Grande, só que a pouca documentação apresentada – ou a inexistência dela – impede a transferência e complica o atendimento.

“Se eu pegar um paciente meu daqui de Corumbá, aqui não temos neurocirurgião, por exemplo, e chega um paciente com trauma craniano e preciso transferi-lo. Não posso colocar dentro da ambulância e mandar para Campo Grande. Se chegar lá, sem que faça o contato, o médico que mandou toma processo no Conselho Regional de Medicina (CRM) e pode ter seu registro cassado. Diferente do que acontece da Bolívia para cá”, explicou aoDiário Corumbaense o médico e presidente da Junta Interventora do Hospital, Cristiano Ribeiro Xavier, ao informar que as ambulâncias com pacientes bolivianos chegam sem qualquer aviso à entidade hospitalar corumbaense. “O que acontece é que pacientes estrangeiros são transferidos da Bolívia para Corumbá sem prévio aviso”, completou.

O médico explicou que não se trata de negar atendimento, mas que é necessário seguir normas.  “Às vezes chega paciente acidentado da Bolívia para Corumbá, e a gente tem que transferir porque não temos suporte. Ao entrarmos no sistema de regulação de vagas, não se consegue cadastrá-lo porque não tem o cartão do SUS, não tem identidade brasileira. Aí não conseguimos colocar no sistema. Complica o atendimento dele”, observou o presidente da Junta Interventora. O ideal, em casos que requeiram determinada especialidade, que os hospitais da Bolívia antes de encaminhar a ambulância com o paciente diretamente para Corumbá, que entrassem em contato com o hospital para saber se há condições que permitam o atendimento.

“Houve o caso de uma criança transferida para Corumbá que faleceu. A mãe ficou lá na Bolívia e a criança veio para cá e acabou falecendo, ficou sozinha. A gente não tem UTI neonatal aqui. Então, eles [hospitais bolivianos] precisam entrar em contato com a gente para ver se temos condições, ninguém vai negar atendimento, mas tem que ter esse prévio contato. Aqui não tem UTI neonatal, se o paciente de lá está grave, transfere para Santa Cruz de la Sierra, que lá tem”, esclareceu. No caso da criança, foi necessário que o Hospital de Corumbá buscasse ajuda junto ao Consulado Boliviano para localizar os familiares do outro lado da fronteira. “Não queremos negar, mas tem que ter aviso prévio. O SUS é bem claro, a gente não pode negar atendimento a nenhum paciente, é um direito de todos. Pelo nosso juramento, a gente não pode negligenciar atendimento”, enfatizou.

Todo o tratamento de estrangeiros atendidos no hospital de Corumbá é custeado pelos repasses do SUS e da própria instituição. Para mensurar, a quantidade de atendimentos a pacientes de outras nacionalidades, a direção da Santa casa local adotou uma medida  que permitirá ter estatísticas reais. “Não tínhamos números. Agora estamos fazendo o seguinte: na recepção, o estrangeiro que interna, carimbamos o prontuário para termos uma estatística. Quem banca é o SUS e a Santa Casa”, complementou. “Deveria ter custeio, hoje  a intervenção no hospital é financiada pelo Estado, Corumbá e verbas federais. Se a Bolívia quer que a gente atenda, podiam mandar recursos. Todo o gasto que temos hoje sai tudo daqui, não há custeio deles“, argumentou o presidente da Junta.

Intervenção

A intervenção pública no hospital corumbaense, que terminaria no dia 11 de maio deste ano, de acordo com o decreto municipal 1038/2012, prossegue, informou o presidente da Junta Interventora. “Temos uma reunião com o Ministério Público para essa semana para vermos a legalidade e manter. Por enquanto está mantida”, disse. Iniciado em 2010 e prorrogado em 2012, o processo interventor fez com que a Santa Casa corumbaense passasse a ser administrada por uma junta, da qual fazem parte, entre outros membros, a Prefeitura de Corumbá, o Governo do Estado e a Prefeitura de Ladário.