19 de abril de 2021
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PANORAMA | PANDEMIA

Anvisa libera estudo clínico de nova vacina, enquanto Estados sofrem sem oxigênio

Agência deu aval para testes com vacina da farmacêutica GSK, ao passo que 1.068 municípios citam preocupação com falta de oxigênio

Diante da informação de que ao menos 1.068 municípios relataram, em um levantamento, a preocupação sobre o estoque de cilindros de oxigênio e até mesmo risco de desabastecimento nos próximos dias, se a curva de casos de Covid-19 se mantiver em alta e houver novos entraves junto a fornecedores. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta quinta-feira (08.abr.2021) a realização de um novo estudo clínico de uma candidata a vacina contra a Covid-19 no Brasil.

Segundo informações da Folhapress esse teste (o 5º estudo autorizado no país nos últimos meses) é patrocinado pela biofarmacêutica Medicago R&D Inc, baseada no Canadá, e pela farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK), que fica na Inglaterra.

Até agora testes de AstraZeneca/Universidade de Oxford, da Coronavac (da Sinovac com o Butantan), da Pfizer e da Janssen foram realizados, todas com aval para uso emergencial ou ou registro definitivo para uso no Brasil.

De acordo com informações prévias, os testes serão divididos em três etapas, previstos para ocorrer no Canadá e nos Estados Unidos, além da América Latina, do Reino Unido e da Europa, sendo que, No Brasil, os estudos devem incluir até três mil e quinhentas pessoas acima de 18 anos. 

O veículo de imprensa aponta ainda que o Brasil está incluso nas fases 2/3 de testes clínicos, quando são avaliadas a segurança e eficácia da vacina.

Com ensaio randomizado, cego e controlado por placebo (modelo considerado "padrão-ouro" para estudos, porque divide os pacientes de forma aleatória em grupos, sem que cientistas ou voluntários saibam se receberam vacina ou placebo, para reduzir o viés de avaliação), as fases 1 e 2 do estudo da GSK estão em desenvolvimento no Canadá e Estados Unidos. 

Para a Anvisa "a vacina candidata usa uma tecnologia de partícula semelhante ao coronavírus. Ela é composta da proteína S expressa em forma de partículas parecidas com vírus, coadministradas com um adjuvante [que será desenvolvido pela GSK], em duas doses com intervalo de 21 dias", informa a agência em nota. 

Segundo esse documento, a Agência apontou que avaliou dados de etapas anteriores do desenvolvimento, "incluindo estudos não clínicos in vitro e em animais, bem como dados preliminares de estudos clínicos em andamento" para poder autorizar o estudo no Brasil. "Os resultados obtidos até o momento demonstraram um perfil de segurança aceitável das vacinas candidatas", finaliza. 

SITUAÇÃO PARALELA

Ainda ontem (07.abr) o Instituto Butantan sinalizou que está com o envase da Coronavac paralisado enquanto espera por mais IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), a matéria-prima da vacina contra a Covid. Informações apontam que a entrega da matéria-prima era esperada para a semana atual, mas houve um atraso e o Butantan conta com a chegada para a próxima semana.

O tema foi citado por Dimas Covas, presidente do Butantan, e por João Doria (PSDB), governador de São Paulo, na coletiva de imprensa desta quarta-feira (7).

Em ritmo desenfreado os números de Covid-19 tem batido recordes diários quanto ao número de mortes, taxas de internação e avisos de superlotação pelo Brasil a fora. 

Segundo informações da Folhapress, obtidas com o conselho que reúne secretários municipais de Saúde (Conasems), o total de municípios com dificuldades (1068 registrados) pode ser maior, tendo em vista que somente uma parte respondeu ao questionário.

Ao todo, os dados mostram que gestores –como secretários, representantes de hospitais e de outras unidades de saúde que atendem pacientes de Covid– 2.411 municípios enviaram dados. Esse levantamento terminou no início da semana, 3ª feira (06.abr.2021) e havia sendo observado desde as duas últimas semanas de março. 

- O maior impasse é a dependência de cilindros de oxigênio, modelo visto como de maior dificuldade de fornecimento –e apontado por 87% dos municípios como principal estrutura de armazenamento.

- Os 1.068 municípios informaram haver risco de desabastecimento em ao menos uma unidade em até dez dias.

Blenda Pereira é assessora técnica do Conasems e, por sua análise ela explica que isso sinalizaria a possibilidade, em parte das cidades, de falta já nos próximos dias, já que algumas respostas vieram ainda no início do balanço. Em outras, o alerta persiste. "Vemos que é um problema nacional", afirmou.

Vale ressaltar que, do período de ínicio da análise até então, parte dos estados e o Ministério da Saúde adotaram medidas emergenciais para diminuir o risco de uma possível falta, como a distribuição de cilindros extras, o que amenizou a situação.

"Mas, como o número de pacientes ainda cresce, há risco", diz Mauro Junqueira, secretário-executivo do Conasems. Segundo ele, ações recentes parecem ter ajudado a evitar um problema mais grave. "Ainda é um cenário preocupante, que temos de monitorar", pontua Blenda.

De acordo com o secretário de Saúde de São Bernardo do Campo,  o último balanço feito pela entidade junto aos municípios apontava déficit de 2.578 cilindros, e que o problema de São Paulo é a logística. "O Estado tem uma grande capacidade de produção. Com aumento dos casos, as empresas precisam trocar os cilindros várias vezes. Imagina fazer isso a uma cidade a mais de 50 km [de distância]", diz ele. 

MATO GROSSO DO SUL 

Na manhã desta 5ª feira (08.abr.2021), um novo lote, com 53,6 mil doses da vacina contra Covid-19, chegou às 09h no Aeroporto Internacional de Campo Grande, segundo informações da assessoria da SES.

Geraldo Resende, secretário Estadual de Saúde disse que essa quantidade garante que os municípios concluam a vacinação contra a Covid-19 de grupos prioritários que faltam.

“Mato Grosso do Sul é exemplo para o país na distribuição dos lotes e aplicação das vacinas. Vamos seguir firme para avançar cada vez mais na imunização da população”, argumentou Geraldo. 

Até hoje, o Estado vacinou cerca de 478.880 pessoas, 372.458 com a primeira dose e 106.422 com a segunda. O levantamento nacional, coloca MS como o primeiro estado brasileiro com melhor desempenho na vacinação. Aqui, 13,47% da população adulta receberam a 1ª dose do imunizante.

DEMAIS ESTADOS

"Consumimos 300% a mais do que o normal. O ministério trouxe um carregamento de 340 cilindros, que distribuímos para as cidades em situação mais delicada. Mas a preocupação persiste, porque Mato Grosso tem território grande, e os municípios não conseguem ter estoque. Tem cidades a quase 800 km da distribuidora", afirma Marco Antônio Felipe, presidente do Cosems-MT.

Secretário de Saúde de Guarantã do Norte (MT), ele diz também sofrer com a distância –e com o impacto do aumento de casos. "Temos um hospital municipal com demanda, e estamos a 230 km do primeiro posto de abastecimento", relata.

No momento do balanço, a maior parte dos representantes disse ao Conasems que o município ainda conseguia fazer as compras, mas relatava aumento na demanda e dificuldades com fornecedores como pontos de preocupação.

No geral, frases como "tem dias que não há cilindros suficientes para serem abastecidos, e tem dias que o fornecedor não tem estoque de entrega" ou "há dificuldade de manter o estoque" foram enviadas junto às respostas.

O balanço teve adesão sobretudo de cidades de pequeno e médio porte. Entre as capitais que responderam, Macapá (AP) reportou dificuldades.

Segundo Ferreira, do Conasems, o levantamento foi enviado a todos os gestores para investigar a situação também em municípios sem leitos para Covid, mas que têm feito atendimentos por meio de unidades de saúde ou intermediárias.

As dificuldades foram relatadas em todos os estados, incluindo em cidades menores com atendimento apenas nestes locais. Como justificativa, diferentes cidades informaram alta demanda e necessidade de atender pacientes graves em salas adaptadas até que haja transferência para hospitais da região.

"Tivemos que montar alguns leitos em unidades básicas de saúde. E, do dia para a noite, nos vimos tendo que ter 10 a 20 cilindros à disposição", relata Felipe, do Cosems-MT, sobre a situação em cidades da região.

Em Capistrano (CE), com 17 mil habitantes, por exemplo, não há UTI e antes da pandemia havia cilindros de oxigênio para manter seus dois leitos de internação. Atualmente, são 15 internados, todos com necessidade de oxigênio.

Erika Medeiros, responsável por um hospital de pequeno porte na cidade cearense, disse à pesquisa que há o risco de o município "colapsar a qualquer momento". Sem cilindros, a prefeitura não tem estoque e diariamente busca oxigênio em Mossoró (RN), a 260 km, e Fortaleza, a 90 km.

Grazielle Resende, diretora do Hospital Municipal de Bom Jesus de Goiás, disse na pesquisa que o gasto de oxigênio aumentou de "forma extrapolada". "De fato não estamos conseguindo atender de forma eficaz e estamos amedrontados com o possível colapso do atendimento." A cidade tem 25 mil habitantes.

Segundo Resende, o hospital tem hoje cinco leitos com pacientes com Covid-19 e gasta mensalmente a quantidade utilizada durante todo o ano no período anterior à pandemia.

Apesar disso, para Junqueira, do Conasems, cidades menores estariam mais vulneráveis. Ele diz, contudo, ver sinais de melhora, que ainda precisam ser confirmados.

O balanço do conselho questionou também a falta de outros insumos. Os mais frequentes em baixo estoque foram luvas, máscaras e aventais. "Isso nos preocupou. Além da escassez de oxigênio, o abastecimento de EPIs [equipamentos de proteção individual] também pode estar prejudicado [em alguns locais]", diz Pereira, do Conasems. O conselho pretende aplicar nova fase de pesquisa para atualizar a situação.

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que tem ajudado no transporte de cilindros de oxigênio para estados como Acre e Amapá. Mil cilindros também foram distribuídos a Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Rondônia e Acre. A pasta diz ainda ter requisitado mais 500 cilindros de oxigênio para atender outros estados monitorados com baixo nível do insumo. O ministério não informou quais seriam esses locais.

Ainda, a pasta diz que se prepara para receber 5.133 concentradores de oxigênio, equipamento usado na assistência a pacientes, que serão doados por empresas privadas e devem chegar até 14 de abril.

Sobre os baixos estoques de EPIs, como luvas e máscaras, afirmou que a aquisição desse material cabe aos estados e municípios, mas que fez uma compra de 345 milhões para distribuição "em razão da escassez".