28 de junho de 2022
Campo Grande 28º 17º

INVESTIGAÇÕES OMISSAS

Bruno e Dom Phillips: PF indica 5 suspeitos, mas diz que 'não tem mandante'

Antes a PF vinha afirmando que haviam mandantes, mas após a visita do presidente à Amazônia, ocorrida na quinta (16.jun), na sexta (17.jun) o órgão de investigação federal mudou de opinião

A- A+

A Polícia Federal informou na manhã de sábado (18.jun.22) que Jefferson da Silva Lima, conhecido como “Pelado da Dinha”, se entregou na Delegacia de Atalaia do Norte, região do Vale do Javari, oeste do Amazonas. Ele foi o 3º suspeito de envolvimento nos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips.

Conforme a PF, mais cinco suspeitos estão ligados as execuções. Bruno e Dom desapareceram em 5 de junho e seus corpos foram achados 10 dias depois, numa área de mata do Vale do Javari, onde Dom escrevia um livro. 

Ao todo, 8 suspeitos estão sendo investigados por participação no assassinato. Foram presos, inicialmente, Amarildo da Costa de Oliveira, conhecido como “Pelado”, que confessou o crime em 15 de junho. Posteriormente foi preso o irmão de Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como “Dos Santos”. O primeiro indicou 'voluntariamente' onde estavam os corpos.  

De acordo com a PF, os suspeitos identificados mais recentemente seriam responsáveis por terem ajudado a enterrar os corpos na mata. Os nomes deles não foram divulgados.

Eles serão indiciados pelo crime de ocultação de cadáver, mas vão responder ao processo em liberdade. Isto porque a pena prevista para este tipo de delito é inferior a 4 anos.

Os três suspeitos seguem detidos na carceragem da 50ª Delegacia Interativa de Polícia (DIP) de Atalaia de Norte.

INVESTIGAÇÕES OMISSAS

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) diz que os irmãos e o 3º preso integram uma organização criminosa no Vale do Javari.  Apesar disso, a em nota enviada à imprensa, na manhã da sexta (17.jun.22), a PF/AM afirmou que as investigações não apontam "indicativos da participação de mais pessoas" no crime.

O texto também afirma os suspeitos agiram sozinhos. "Não havendo mandante nem organização criminosa por trás do delito", diz a nota.

Embora descarte a participação de um mandante, a PF destacou que "novas prisões poderão ocorrer".

A Univaja contestou as informações repassadas pela Polícia Federal e disse que o órgão desconsiderou denúncias feitas pela entidade desde o segundo semestre de 2021.

"Tais documentos apontam a existência de um grupo criminoso organizado atuando nas invasões constantes à Terra Indígena Vale do Javari, do qual 'Pelado' e 'Do Santo' fazem parte. Esse grupo de caçadores e pescadores profissionais, envolvido no assassinato de Pereira e Phillips, foi descrito pela EVU em ofícios enviados ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e à Fundação Nacional do Índio. Descrevemos nomes dos invasores, membros da organização criminosa, seus métodos de atuação, como entram e como saem da terra indígena, os ilícitos que levam, os tipos de embarcações que utilizam em suas atividades ilegais", afirma a nota (veja a íntegra no final do texto) da Univaja.

Ainda de acordo com a entidade, o Bruno Pereira era alvo do grupo criminoso. A Univaja também lembrou que indigenista vinha recebendo ameaças. "Foi em razão disso que Bruno Pereira se tornou um dos alvos centrais desse grupo criminoso, assim como outros integrantes da UNIVAJA que receberam ameaças de morte, inclusive, através de bilhetes anônimos", diz a nota.

RECUO 

Antes, a PF vinha afirmando que haviam mandantes, mas após a visita do presidente Jair Bolsonaro (PL) à Amazônia, ocorrida na quinta (16.jun), na sexta (17.jun) o órgão de investigação federal mudou de opinião, alegando que os 'irmãos' agiram sozinhos. Eis a íntegra.

 

A mudança saiu no mesmo dia em que Bolsonaro iniciou agenda que previa a participação em um evento religioso da Assembleia de Deus, em Belém, e uma motociata em Manaus, no sábado (18.jun).

Desde o desaparecimento da dupla, em 5 de junho, Bolsonaro (PL) vinha sendo criticado pela forma como tratou o caso. Primeiro, por demorar mais de 24 horas para permitir que as forças policiais atuassem. Depois, por tratar com desdém o trabalho dos desaparecidos, chamando de uma “aventura não recomendada” e, por último, até por dizer que Dom Phillips “era malvisto” por escrever reportagens contra garimpeiros.

Com isso, a PF quer fazer crer que os irmãos Amarildo, o “Pelado”, e Oseney, “Dos Santos”, decidiram deliberadamente matar com requinte de crueldade, Bruno Pereira e Dom Phillips. 

CONTRADIÇÃO 

Entrevista coletiva das Forças de Segurança, em Manaus, para falar dos assassinatos de Bruno e Dom (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)Entrevista coletiva das Forças de Segurança, em Manaus, para falar dos assassinatos de Bruno e Dom. Foto: Alberto César Araújo, Amazônia Real. 

O que surpreende no desfecho dado pela PF é que ele contradiz as próprias falas do superintendente da PF, delegado Eduardo Alexandre Fontes, ao longo dos últimos dias.

Em 8 de junho, ele levantou a hipótese de que o narcotráfico estaria relacionado ao desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips. “As investigações apuram o envolvimento de quadrilhas de tráfico de drogas na região. Estamos buscando saber se houve algum crime nesse desaparecimento”, disse na ocasião. 

E acrescentou: “Vamos apurar eventual homicídio caso tenha ocorrido. Não descartamos nenhuma linha investigativa. Nós estamos na busca das pessoas, não só crimes apurados, mas busca de embarcações, de desaparecidos”, afirmou o delegado Fontes.

A PF não informou, até agora, quais as informações que teve para recuar da linha de investigação. Tampouco respondeu questões que ainda pairam sobre o caso, como a presença de uma terceira pessoa que, inclusive, teria atirado contra Bruno e Dom. Na confissão de “Pelado”, ele e o irmão cuidaram de ocultar a prova do crime, enterrando os corpos em uma área de igapó da bacia do rio Itacoaí.

Poucos indígenas que testemunharam os minutos finais de Dom Phillips e Bruno Pereira foram ouvidos pelos investigadores. Alguns deles sequer prestaram depoimento à PF, embora tenham estado com o jornalista e o indigenista até pouco momentos antes de serem mortos. 

Na quarta-feira (15), em coletiva à imprensa transmitida por diversos canais de TV ao vivo, o delegado Eduardo Alexandre Fontes informou que a lancha utilizada por Dom e Bruno foi afundada propositalmente por “Pelado” e o irmão Oseney para impedir a investigação. Isso teria impedido a polícia de chegar rapidamente ao local do crime, já que a ocultação dos corpos ocorreu em uma região de difícil acesso, a 3,1 quilômetros de igapó, mata adentro. Segundo a PF, eles foram mortos a tiros, esfaqueados, queimados e enterrados. “Pelado” foi preso por porte de munição de uso restrito e drogas no dia 7 de junho.

Mostramos aqui no MS Notícias que o site Amazônia Real ouviu testemunhas que indicaram como mandante dos assassinatos um criminoso conhecido como “Colômbia”, o traficante peruano Rubens Villar Coelho. Ele seria uma espécie de “patrão” do comércio ilegal no Vale do Javari. 

“É ele que patrocina todos os pescadores dessa região. Já estavam se organizando para matar o Bruno. O mandante patrocina todos os pescadores dessa região, sobretudo em Benjamin Constant (município vizinho de Atalaia do Norte)”, informou uma dessas fontes. “Ele (Colômbia) não ia perder um monte de dinheiro. Com o Bruno sendo empecilho na vida dele, eles acharam que matando o Bruno, o movimento de fiscalização iria se acabar. Eles imaginavam dessa forma. Mas a tendência é ficar mais forte”, disse outra fonte.

Nesta sábado (18.jun), o Instituto Nacional de Criminalística (INC) anunciou que os restos mortais de Bruno Pereira foram confirmados com base no exame de Odontologia Legal (arcada dentária).

O exame médico-legal, realizado pelos peritos da PF, indica que a morte de Dom Phillips “foi causada por traumatismo toracoabdominal por disparo de arma de fogo com munição típica de caça, com múltiplos balins, ocasionando lesões principalmente sediadas na região abdominal e torácica (1 tiro)”.

Bruno Pereira sofreu traumatismo toracoabdominal e craniano “por disparos de arma de fogo com munição típica de caça, com múltiplos balins, que ocasionaram lesões sediadas no tórax/abdômen (2 tiros) e face/crânio (1tiro)”. A perícia continua analisando a distância em que os disparando aconteceram.

 

Leia a íntegra da nota da Univaja:

Em Nota à Imprensa, no dia 17 de junho de 2022, a Polícia Federal (PF) registrou que as buscas pela embarcação utilizada pelo indigenista Bruno Pereira e pelo jornalista Dominic Phillips no dia do desaparecimento (05/06/22) continuam com o auxílio dos indígenas da Equipe de Vigilância da UNIVAJA (EVU).

No entanto, a PF, através da “Operação Javari”, registrou que: “Informa, também, que as investigações prosseguem e há indicativos da participação de mais pessoas na prática criminosa. As investigações também apontam que os executores agiram sozinhos, não havendo mandante nem organização criminosa por trás do delito.”

Com esse posicionamento, a PF desconsidera as informações qualificadas, oferecidas pela UNIVAJA em inúmeros ofícios, desde o segundo semestre de 2021, período de implementação da EVU. Tais documentos apontam a existência de um grupo criminoso organizado atuando nas invasões constantes à Terra Indígena Vale do Javari, do qual Pelado e Do Santo fazem parte. Esse grupo de caçadores e pescadores profissionais, envolvido no assassinato de Pereira e Phillips, foi descrito pela EVU em ofícios enviados ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e à Fundação Nacional do Índio. Descrevemos nomes dos invasores, membros da organização criminosa, seus métodos de atuação, como entram e como saem da terra indígena, os ilícitos que levam, os tipos de embarcações que utilizam em suas atividades ilegais.

Foi em razão disso que Bruno Pereira se tornou um dos alvos centrais desse grupo criminoso, assim como outros integrantes da UNIVAJA que receberam ameaças de morte, inclusive, através de bilhetes anônimos.

A nota à imprensa, emitida pela PF hoje (17/06/22), corrobora com aquilo que já destacamos: as autoridades competentes, responsáveis pela proteção territorial e de nossas vidas, têm ignorado nossas denúncias, minimizando os danos, mesmo após os assassinatos de nossos parceiros, Pereira e Phillips.

O requinte de crueldade utilizados na prática do crime evidenciam que Pereira e Phillips estavam no caminho de uma poderosa organização criminosa que tentou à todo custo ocultar seus rastros durante a investigação.

Esse contexto evidencia que não se trata apenas de dois executores, mas sim de um grupo organizado que planejou minimamente os detalhes desse crime. Exigimos a continuidade e o aprofundamento das investigações. Exigimos que a PF considere as informações qualificadas que já repassamos à eles em nossos ofícios. Só assim teremos a oportunidade de viver em paz novamente em nosso território, o Vale do Javari.

*Com Amazônia Real.