16 de maio de 2022
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NACIONAL | SÃO FÉLIX DO XINGU (PA)

Chacinados na 'encosta' da fazenda do prefeito, corpos de família ambientalista serão exumados

Amiga da família diz acreditar que "causa ambiental dada como pista" foi vazada para a imprensa para confundir a investigação.

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A Polícia Civil do Pará pediu à Justiça a exumação dos corpos do ambientalista José Gomes, conhecido como 'Zé do Lago', da sua esposa, Márcia Nunes Lisboa, e da filha dela, Joane Nunes Lisboa, de 19 anos, enteada de Zé. Eles foram chacinados por pistoleiros e achados mortos no dia 9 de janeiro, na zona rural de São Félix do Xingu (PA).

Um filho de outro casamento de Zé chegou de barco na zona rural e encontrou a família "inchada”, mortos com sinais de tiro.   

Mostramos o vídeo aqui no MS Notícias do momento em que o filho achou Zé e família em meio ao barro sob a chuva. Eles estavam em estágio de putrefação.

De acordo com o pedido da Polícia Civil a perícia deve indicar direção de entrada e saída de projéteis, entre outros detalhes técnicos que podem auxiliar a investigação do crime.  O caso é tratado como crime por motivação ambiental.

Apesar disso, uma amiga da família diz acreditar que “causa ambiental dada como pista" foi vazada para a imprensa para confundir a investigação.

Na quarta-feira (12.jan), a Polícia Civil disse que deveriam ser ouvidas testemunhas. O delegado responsável pelo caso não concedeu entrevista sobre a investigação. O caso está sendo investigado pela Divisão de Homicídios de Marabá e pelo Núcleo de Apoio à Investigação (NAI) de Redenção. O NAI e o DHM não atenderam as tentativas de contato da reportagem, para falar se já há suspeitos.

FAZENDA ILEGAL  

Helder Barbalho e o prefeito João Cleber. Foto: ReproduçãoHelder Barbalho e o prefeito João Cleber. Foto: Reprodução

O local onde Zé vivia com a família está em uma região conhecida como Ilha da Cachoeira da Mucura e está há uma hora e meia de barco com motor da Terra Indígena Kayapó. A chácara de Zé era próxima a fazenda Bom Jardim, que tem denúncias de desmatamento ilegal e grilagem de terras, de propriedade do prefeito de São Félix do Xingu, João Cleber (MDB). 

João Cleber Torres tem desmatado pelo menos desde 2008 as áreas. A propriedade, segundo dados cruzados pela ONG Greenpeace, encontra-se em uma floresta pública não destinada na Amazônia e não tinha autorização para desmate, fatores que indicam ilegalidade no processo e grilagem — como é conhecida a ocupação ilegal de terras.

A área tem multas e embargos pelo Ibama, por destruição de floresta. A propriedade, que é usada para criação de gado, faz parte indiretamente da cadeia de fornecedores da JBS — a empresa diz que cumpre compromissos e que vai averiguar situação.

São Félix do Xingu é o município com maior rebanho do Brasil, com cerca de 2,4 milhões de cabeças. Segundo o IBGE, a população na cidade é de 135.732. É também, historicamente, uma das cidades com mais desmatamento no país.

O enorme rebanho e a elevada destruição levam São Félix do Xingu ao posto de município que mais emite gases-estufa no Brasil, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg).

Procurado pela Folha, João Cleber negou haver desmates na fazenda e disse que a destruição poderia ser culpa de indígenas.

"Pode acontecer que, em razão da fazenda ser confrontante com uma aldeia indígena Kaiapó e os indígenas utilizam [sic] fogo para limpeza de uma roçada para o plantio de mandioca e este fogo algumas vezes alastra-se, atingindo áreas da propriedade", argumentou o prefeito, em nota.

A afirmação, porém, não condiz com as imagens de satélite. O Prodes registra, com satélites, o chamado corte raso de floresta, ou seja, a derrubada completa de áreas de mata em um curto espaço de tempo.

O prefeito também afirmou que a área é de sua família desde 1984 e que "estamos em processo de regularização da fazenda e suas atividades junto aos órgãos competentes", mas não enviou à reportagem documentação que comprove a posse da terra.

Nem o prefeito da cidade e nem o governador do estado Helder Barbalho (MDB) se manifestaram sobre a excução da família.  

Há poucos meses o governador do Estado do Pará, havia editado o decreto 1684/2021 que premia grileiros e invasores de terras públicas com a venda de terras a um preço no valor de 1,2% do valor de mercado, um subsídio de mais de R$ 6,7 bilhões para desmatadores no Estado que mais destrói a Floresta no país.

O tipo de política que só favorece os latifundiários e grandes empreendimentos é responsável por toda a perpetuação da violência contra trabalhadores rurais, lideranças indígenas, camponesas e ambientalistas que se reproduz no Pará e em toda a região amazônica.

O MPF PARÁ

Ministério Público Federal (MPF) do Pará quer acompanhar as investigações sobre os assassinatos do casal José Gomes, o Zé do Lago e Márcia Nunes Lisboa e Joane. Para tanto, abriu procedimento com o objetivo de cobrar providências das autoridades e celeridade na elucidação do crime.

A família de ambientalistas mantinha projeto de proteção a quelônios das espécies tracajá e tartaruga, morava na localidade Cachoeira da Mucura, em São Félix do Xingu. Terra que é de jurisdição do ITERPA e está inserida na APA Triunfo do Xingú, uma área de preservação com mais de 1,5 milhões de hectares.

“Para o MPF, os fatos são de extrema gravidade e se inserem em um contexto de reiterados ataques a ambientalistas e defensores de direitos humanos no país”, consta em comunicado oficial.

O crime é alvo de investigação de equipe da Divisão de Homicídios do município de Marabá e do Núcleo de Apoio à Investigação da Polícia Civil de Redenção. Órgãos de proteção aos direitos humanos, como a Anistia Internacional, a Comissão Pastoral da Terra e Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos também estão acompanhando as ações da polícia.

Em nota a CPT lembrou que nas últimas quatro décadas 62 trabalhadores rurais e lideranças em conflitos de terra foram mortos no município onde o casal morava, São Félix do Xingu. Até hoje, todos os casos seguem impunes.