16 de abril de 2021
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ESPÓLIO DE UMA PÁTRIA

No Dia Mundial da Saúde e Dia do Jornalista, vacinação e liberdade não vão bem no Brasil

País tem, aproximadamente, uma morte a cada 20 segundos provocada pelo vírus, ao passo que aumentam os ataques à imprensa estimulados pelo presidente

Hoje, 7 de abril, é comemorado o Dia Mundial da Saúde, data que tem como objetivo conscientizar as pessoas sobre a importância da preservação da saúde para ter uma melhor qualidade de vida. O tema escolhido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2021 é "promovendo um mundo mais justo e saudável".

Até ontem, apenas os Estados Unidos haviam registrado mais que quatro mil mortes por Covid-19 num único dia. Agora há mais um, o Brasil. Segundo dados levantados junto aos estados pelo consórcio de veículos de comunicação, foram computados ontem 4.211 óbitos, aproximadamente uma morte a cada 20 segundos. O total de vítimas fatais no país chegou a 337.364, com média móvel de 2.775 em sete dias – alta de 22% em relação ao período anterior. 

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Enquanto as pessoas morrem na fila por uma vaga em UTI, os hospitais das Forças Armadas mantêm até 85% de seus leitos ociosos, reservados para militares e suas famílias. Os dados foram repassados, após muita protelação, pelo Ministério da Defesa ao Tribunal de Contas da União (TCU). Os hospitais militares consumiram pelo menos R$ 2 bilhões do Orçamento da União em 2020, mas, mesmo diante da pandemia, os únicos civis com acesso a seus serviços são servidores do Ministério da Defesa.

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E mesmo diante de novos recordes de casos e mortes, o presidente Jair Bolsonaro ironizou, em fala a apoiadores registrada em vídeo, as medidas de isolamento social e debochou da alcunha de “genocida”. Ao ser indagado sobre os mais de 4 mil mortos, ele ignorou a pergunta e disse que “resolveria o problema do vírus em poucos minutos” dando dinheiro à imprensa. 

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Líder da força-tarefa contra a pandemia nos Estados Unidos, o médico Anthony Fauci diz que a situação no Brasil é “muito grave” e que o país deveria “considerar seriamente fazer um lockdown”. Fauci, que enfrentou durante um ano o negacionismo de Donald Trump, reconhece que a situação do Brasil está se espalhando pela América do Sul. 

E a pandemia vem cobrando um preço particularmente alto de quem se arrisca a combatê-la. As mortes de profissionais de saúde por causas naturais cresceram 25,9% entre março de 2020 e fevereiro deste ano. Além da própria Covid, muitos foram vítimas de doenças relacionadas ao estresse e ao esgotamento físico. Rio de Janeiro e São Paulo foram os estados com mais mortes nessa área.

Neste momento de pandemia, Vera Salvo, Nutricionista e conselheira do CRN-3, destaca que a saúde, pela OMS, não é apenas a ausência de doença, mas o bem-estar que vai além do físico, social e psicológico.

Em cada três pacientes que se recuperam da Covid-19, um manifesta distúrbios neurológicos ou mentais.

A Câmara aprovou na noite de ontem o projeto de lei que afrouxa a regra para compra de vacinas por empresas. Elas não precisariam mais de aval da Anvisa, e a doação obrigatória de doses ao SUS seria de 50% no máximo.

DIA DO JORNALISTA 

Hoje também é celebrado o dia do jornalista, criado em 7 de abril de 1931, pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI). A pandemia da Covid-19 colocou o Brasil entre os primeiros do mundo em números de mortes e também foi usada como pretexto para violações sistemáticas de direitos humanos. Aumento da violência de gênero, do racismo, das perseguições por quem defende direitos, de jornalistas, da desigualdade social, da pobreza, da fome...a lista é longa.  

Ontem o projeto de lei que libera a compra de vacinas para empresas sem considerar os requisitos legais de destinação da vacinação para o SUS ser aprovado é um marco significativo do retrocesso, visto que permitirá acesso à vacina apenas àqueles que podem pagar, desse modo, não somente desmoralizado, humilhando, mas também tirando o direito das pessoas pobres. 

A agenda negacionista do presidente Jair Bolsonaro agravou as consequências da pandemia da Covid-19 sobre a população brasileira, sobretudo nas comunidades mais empobrecidas e historicamente discriminadas. 

ATAQUES

Cinegrafista da TV Morena foi atacado por extremistas de direita em frente a prefeitura de Campo Grande Cinegrafista da TV Morena foi atacado por extremistas de direita em frente a prefeitura de Campo Grande. Foto: Reprodução - Sindjor 

Segundo o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil – 2020, elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e lançado em 26 de janeiro desse ano, dentro das atividades do Fórum Social Mundial, o ano que passou foi o mais violento, desde o começo da década de 1990, quando a entidade sindical iniciou a série histórica. Foram 428 casos de ataques – incluindo dois assassinatos – o que representa um aumento de 105,77% em relação a 2019, ano em que também houve crescimento das violações à liberdade de imprensa no país.

Para a FENAJ, o aumento da violência está associado à ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República e ao crescimento do bolsonarismo.

“Na avaliação da Federação Nacional dos Jornalistas esse crescimento está diretamente ligado ao bolsonarismo, movimento político de extrema-direita, capitaneado pelo presidente Jair Bolsonaro, que repercute na sociedade por meio dos seus seguidores. Houve um acréscimo não só de ataques gerais, mas de ataques por parte desse grupo que, naturalmente, agride como forma de controle da informação. Eles ocorrem para descredibilizar a imprensa para que parte da população continue se informando nas bolhas bolsonaristas, lugares de propagação de informações falsas e ou fraudulentas”, afirma Maria José Braga, presidenta da FENAJ, membra do Comitê Executivo da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ) e responsável pela análise dos dados.

Também foi registrado aumento nos casos de Agressões verbais/ataques virtuais, com o crescimento de 280% em 2020 em comparação com o ano anterior, quando foram registrados 76 casos.

Para que o número geral de casos de violência contra jornalistas e ataques à liberdade de imprensa mais que dobrasse em 2020, destaca a presidenta, “houve crescimento em quase todos os tipos de violência”.

O aumento foi bastante expressivo ainda nas categorias de censuras (750% a mais) e agressões verbais/ataques virtuais (280% a mais).

Os jornalistas passaram a ser agredidos por populares e houve aumento nos casos de agressões físicas e de cerceamento à liberdade de imprensa por ações judiciais, o que também é muito preocupante na avaliação da Federação, afirma a presidenta.

Segundo o relatório, as agressões físicas eram a violência mais comum até 2018, depois diminuíram em 2019 e, em 2020, cresceram 113,33%.

Já os episódios de cerceamento à liberdade de imprensa por meio de ações judiciais subiram 220%: de cinco em 2019, para 16 casos, em 2020. Para a presidente, ano passado foram registrados dois casos preocupantes dessas duas formas de ataques – verbais e pelas vias judiciais – que agravam a preocupação da entidade com o futuro do jornalismo no Brasil. São os casos do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, condenado à prisão pelo livro-reportagem A Privataria Tucana, e do professor de jornalismo do Rio Grande do Sul, Felipe Boff, agredido verbalmente durante discurso em uma colação de grau.

A presidenta também destaca que o registro, pelo segundo ano consecutivo, de duas mortes de jornalistas, “é evidência concreta de que há insegurança para o exercício da profissão no Brasil”.

Como no ano anterior, a descredibilização da imprensa foi uma das violências mais frequentes: 152 casos, o que representa 35,51% do total de 428 registros ao longo de 2020. Bolsonaro, mais uma vez, foi o principal agressor. Dos 152 casos de descredibilização do trabalho dos jornalistas, o presidente da República foi responsável por 142 episódios.

Sozinho, Jair Bolsonaro respondeu por 175 registros de violência contra a categoria (40,89% do total de 428 casos): 145 ataques genéricos e generalizados a veículos de comunicação e a jornalistas, 26 casos de agressões verbais, um de ameaça direta a jornalistas, uma ameaça à Globo e dois ataques à FENAJ.

Para a presidenta, a postura do presidente da República serve de incentivo para que seus auxiliares e apoiadores também adotem a violência contra jornalistas como prática recorrente.

MORTES DE JORNALISTA E PROFISIONAIS DE SAÚDE

No Hospital Albert Einsten No Hospital Albert Einsten. Reprodução 

O MS Notícias é estende aos amigos, colegas de trabalhos e seus familiares às perdas de profissionais da comunicação e da saúde à doença, não apenas no Mato Grosso do Sul. 

COLEGAJornalista Denílson Pinto morre aos 53 anos, vítima da Covid-19

Brasil é o país com maior número de jornalistas mortos por Covid-19.  Foram 169 mortes registradas de abril de 2020 a março de 2021, superando o Peru, que registra pouco menos de 140 mortes.

AMIGO Fotojornalista Valdenir Rezende, morre aos 55 anos, vítima da Covid-19

O dado faz parte do dossiê “Jornalistas vitimados por covid-19” elaborado pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e divulgado ontem 3ª feira (6.abr.2021).

REFERÊNCIAMestre do jornalismo em MS, Guilherme Filho morre aos 64 anos devido a Covid-19

#LUTO - 4º jornalista em 3 meses, radialista Armando Amorim Anache, morre aos 60 anos

MORTES DE PROFISSIONAIS DA SAÚDE

O Brasil já passa de mil profissionais de saúde mortos pela Covid-19. Em 1 ano de Coronavírus pelo menos 990 médicos, enfermeiros e técnicos, de acordo com dados oficiais, morreram vítimas da doença. A média é de três por dia desde o primeiro registro de óbito, ocorrido em 12 de março, segundo o Ministério da Saúde.

PROFISSIONAL - Sesau registra a morte do primeiro médico em decorrência da covid-19 na Capital

No mundo, ao menos 17.000 profissionais de saúde morreram de COVID-19 apenas em 2020, disse a Anistia Internacional, em conjunto com a Public Services International e a UNI Global Union, em uma nova análise, dada ao mesmo tempo em que as organizações apelaram por uma ação urgente para acelerar a vacinação de milhares de profissionais da linha de frente em todo o mundo. 

O grave alerta veio à medida que as desigualdades globais de acesso às vacinas continuam a aumentar.

Embora os profissionais de saúde altamente expostos tenham sido priorizados na vacinação nos planos nacionais da maioria dos países, as desigualdades globais no acesso à vacina significam que, em mais de 100 países, nenhum profissional de saúde recebeu sequer uma vacina. 

Em países como Brasil e Peru, onde a vacinação de profissionais de saúde começou em janeiro e fevereiro, respectivamente, organizações de profissionais de saúde relataram que alguns responsáveis por limpeza nos hospitais não estão recebendo vacinas, apesar de estarem expostos ao vírus. Além disso, em alguns locais, as equipes administrativas e as gerências foram vacinadas antes dos profissionais da linha de frente.

MATO GROSSO DO SUL 

Os jornalistas devem ser incluídos no grupo prioritário de pessoas a serem vacinadas contra o coronavírus em Mato Grosso do Sul. A medida foi anunciada pela Secretaria de Estado de Saúde (SES) e uma resolução deve ser publicada na quinta-feira (8.abril). De acordo com o secretário Geraldo Resende, serão cerca de mil profissionais da imprensa imunizados em MS. 

O senador Nelsinho Trad (PSD/MS) pediu a inclusão dos jornalistas no grupo de prioridade para vacina contra Covid-19, no Plano Nacional de Vacinação do Ministério da Saúde. O parlamentar citou dado da Fenaj (acima), que aponta o Brasil com o maior número de jornalistas mortos pela doença no mundo.

Nelsinho apontou os profissionais radialistas, jornalistas que trabalham em veículos de TV, rádio, sites, repórteres de campo, produtores, editores de texto, de imagem, de som, fotógrafos, cenagrafistas, diretores, chefes de redação, operadores de imagem e som. "Todos aqueles que têm contato diário e contínuo com a cobertura de toda esta face triste que nós estamos vivenciando".

Segundo o relatório da Fenaj, que monitorou casos até março, MS teria perdido 4 jornalistas pela doença. De lá até este 7 de abril os casos e mortes aumentaram consideravelmente.