22 de junho de 2021
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Paralisação em Aeroporto

Paralização de funcionarios cancela e atrasa voos em aeroportos brasileiros

Aeroviários reivindicam novas contratações e piso para agentes de chek-in

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Pilotos, comissários de voo, agentes de aeroporto e outros funcionários do setor de aviação associados ao sindicatos dos Aeronautas e dos Aeroviários realizaram paralisação entre as 6h e as 7h desta quinta-feira (22) por melhores condições de trabalho.

Até as 11h, 74 voos tinham sido cancelados (8,3% do total) e 173 estavam atrasados (19,4%) em todo o país, segundo a Infraero, que administra a maioria dos aeroportos brasileiros.

O aeroporto de Congonhas (SP) foi um dos mais afetados pela paralisação, com 23 voos cancelados (26,4%) e 20 atrasados (23%). Aeroviários e aeronautas realizaram assembleia no saguão do aeroporto. No aeroporto de Guarulhos (SP), das 18 partidas programadas para o intervalo entre 6h e 7h, dez tiveram atraso maior de 30 minutos, mas nenhuma foi cancelada, segundo a empresa que administra o aeroporto. Um grupo realizou ato de protesto na entrada de serviço dos funcionários.

O Santos Dumont (RJ) registrou 13 voos cancelados (22%) e 15 atrasados (25,4%) até as 11h de hoje. A movimentação de passageiros não teve alterações por conta da presença de um grupo de aeroviários e aeronautas, que exibia cartazes e faixas com mensagens de protesto. As filas de check-in funcionavam normalmente.

Por volta das 7h30, os manifestantes começaram a recolher as faixas e cartazes. O protesto no saguão do aeroporto foi silencioso e não foi necessário mobilizar o esquema de segurança do aeroporto.

O passageiro Vicente Lima, 54, chegou ao Santos Dumont por volta das 7h. Ele e sua família embarcariam para Belo Horizonte, mas receberam a informação de que o voo, marcado para 9h30, havia sido cancelado. "Não explicaram o motivo do cancelamento e estou tentando resolver o problema. Vamos aguardar com paciência e tranquilidade para ver no que vai dar", disse.

No Galeão (RJ), houve registro de um cancelamento e atraso em 12 voos. Um grupo de manifestantes fez uma passeata até a entrada do terminal, "sem prejudicar o trabalho no aeroporto", segundo informou a administração do terminal. No entanto, o protesto provocou um longo congestionamento, que se estendeu até a Linha Vermelha.

Segundo a presidente do SNA (Sindicato Nacional dos Aeroviários), Selma Balbino, em todo o país, houve uma adesão de cerca de 70% da categoria. Somente no Rio, na versão da sindicalista, a adesão teria chegado a 90%.

Na quarta-feira (21), o TST (Tribunal Superior do Trabalho) determinou que os sindicatos envolvidos na paralisação mantivessem 80% dos profissionais trabalhando durante o protesto e, caso descumpram a determinação, serão multados em R$100 mil por dia. A presidente do SNA afirmou não temer a possível aplicação de uma multa.

Selma informou ainda que o sindicato foi chamado para uma audiência de conciliação na sede do TST, em Brasília, nesta sexta-feira (23), às 14h30. Até lá, as categorias devem realizar em seis aeroportos pelo país assembleias permanentes, começando hoje à tarde, de acordo com a sindicalista. Se não houver acordo na audiência de conciliação, os trabalhadores podem votar por uma greve por tempo indeterminado.

"A paralisação que fizemos nesta manhã foi uma paralisação de advertência. (...) A gente não quer negociar através da Justiça, e sim diretamente com os patrões. Mas se eles não cederem, a greve por tempo indeterminado não está descartada", explicou.

Em nota, a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) e o Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea) informam que a paralisação "teve, em consequência das ações gerenciais adotadas pelo setor, um impacto mínimo junto aos passageiros".

"No entanto, ainda assim o movimento impactou mais de 20% da operação prevista, não garantindo um efetivo mínimo de 80% dos colaboradores, estabelecido pelo judiciário", diz o texto.

Reivindicações

Entre as reivindicações dos aeroviários estão a criação de piso para agente de check-in, vale-refeição de R$ 16,65 para jornada de trabalho de até seis horas, de R$ 22,71 para os demais, seguro de vida no valor de R$ 20 mil, cesta básica de R$ 326,67, jornada de 36 horas semanais.

Os aeronautas pedem a definição de valores para as diárias internacionais, o fim do teto para o vale-alimentação. No caso dos pilotos e comissários de bordo, além de reivindicações salariais, eles reclamam da jornada de trabalho e a falta  de folgas. A fadiga de pilotos é um dos fatores que podem contribuir para um acidente aéreo.

Segundo dados da Agência de Investigação Americana (NTSB, sigla em inglês), aproximadamente 80% dos acidentes aéreos foram provocados por erro humano, sendo que a fadiga dos pilotos foi responsável por aproximadamente 20% desse total.

Pilotos ouvidos pelo UOL relataram que existem situações e escalas em que o profissional fica de 20h a 26h acordado e com 12h de descanso para o início da próxima jornada de trabalho --e que muitas vezes o deslocamento entre aeroporto e hotel de descanso pode consumir até 2h desse período.

Eles se queixaram também do número excessivo de dias em que trabalham durante a madrugada. Há relatos de que já houve tripulantes que saíram de ambulância do aeroporto por plena exaustão.

"O passageiro muitas vezes não tem ideia do que se passa na cabine de comando. Às vezes pequenos incidentes que ocorrem não são tornados públicos", relata aoUOL um piloto que preferiu não se identificar.

"Estamos muito aquém de folgas que proporcionem um bom descanso", diz Rodrigo Spader, secretário-geral do sindicato dos aeronautas.

A Abear informou que, nas negociações salariais, ofereceu uma contrapartida para algumas reivindicações salariais, mas que não houve acordo quanto aos percentuais exigidos pelos aeronautas.

Em relação à jornada de trabalho e folga dos profissionais, a entidade informou que as reivindicações devem ser debatidas em uma comissão para tratar da regulamentação da profissão. (Com Agência Brasil)