25 de novembro de 2020
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CURIOSIDADE

Por que a Ucrânia fascina tanto os bolsonaristas?

Presa na manhã desta segunda-feira (15/06), a militante bolsonarista Sara Winter já disse, com orgulho, ter sido "treinada na Ucrânia".

Presa na manhã desta segunda-feira (15/06), a militante bolsonarista Sara Winter já disse, com orgulho, ter sido "treinada na Ucrânia".

Apesar de nunca ter deixado claro quando este treinamento teria ocorrido, ou por quem teria sido instruída, a ativista estava ecoando um tema que aparece frequentemente em discursos e postagens de rede social da militância favorável ao presidente Jair Bolsonaro: o fascínio pela Ucrânia e até por grupos extremistas do país do leste europeu.

Em redes sociais e discursos feitos durante protestos, Winter e outros ativistas da direita brasileira falavam em "ucranizar o Brasil" e a bandeira ucraniana foi adotada como "adereço" ao lado dos nomes de usuários em plataformas como o Twitter.

Mas, afinal, como a Ucrânia se tornou esse objeto de fascínio para o bolsonarismo?

Parte da explicação, segundo especialistas, tem relação com o histórico recente de radicalização e rupturas políticas na Ucrânia.

A Ucrânia é um vasto país do leste europeu, com uma grande fronteira com a Rússia e uma relação histórica conturbada com o vizinho. Russos e ucranianos eram um povo só até o século 9, explica o professor de história da USP Angelo Segrillo, especialista em história da Rússia. Ao longo dos séculos, a região da Ucrânia ficou retalhada entre diversos impérios: foi dominado inclusive pelo Império Russo, e no século 20 fez parte da União Soviética.

"A Ucrânia se tornou um Estado independente nos anos 1992, com o fim da URSS", explica Segrilo.

Na história recente, o país foi palco de violentos confrontos em 2014, primeiro entre nacionalistas e o governo pró-Rússia, e depois entre separatistas e um novo governo nacionalista.

As desavenças internas começaram em dezembro de 2013, com intensas manifestações pelo país quando o então presidente, Viktor Yanukovych, sob pressão do presidente russo, Vladmir Putin, anunciou que não assinaria um acordo com a União Europeia, que poderia, no futuro, levar à entrada do país no bloco.

Os manifestantes pró-Europa chegaram a ocupar prédios do governo e entrar em confrontos com forças de segurança, com um saldo de dezenas de mortos e milhares de feridos. Em meio ao clima de insurgência popular pelo país, presidente pró-Rússia foi derrubado. O Parlamento votou por uma eleição adiantada, e o candidato pró-europa Petro Poroshenko venceu em primeiro turno.

"Houve um processo de ruptura com o sistema político nacional", explica Odilon Caldeira Neto, professor de história contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora. "Esse momento de insurgência e instabilidade do país potencializou a organização e o fortalecimento de grupos de extrema-direita nacionalista", explica Caldeira.

"Isso não quer dizer que o processo que ocorreu na Ucrânia tenha sido um processo neofascista, mas que o momento de radicalização da agenda política do país permitiu que grupos mais radicais se aproximassem do mainstream."

Após o colapso do governo pró-Rússia, a Crimeia, que tem uma grande população de origem russa, declarou formalmente "independência" e desejo de se juntar à Federação Russa (nome oficial da Rússia). Após um referendo não reconhecido pelo governo ucraniano, o país vizinho enviou tropas e rapidamente assumiu o controle da Crimeia, anexando a região à Rússia.

Conflitos separatistas surgiram em outras regiões, com milícias de homens armados apoiando os separatistas pró-Rússia ocupando prédios do governo ucraniano. Militares russos assumiram envolvimento com as milícias, mas o país nunca admitiu formalmente a interferência no vizinho. "Houve uma mistura de tropas ucranianas pró-Rússia e uma infiltração de soldados russos", explica Segrillo.

Em 2015 o governo conseguiu negociar um cessar-fogo, com condições como a saída de combatentes estrangeiros do território ucraniano, mas as regiões insurgentes não foram retomadas. E a Criméia continuou anexada à Rússia.

Mas o que isso tudo tem a ver com o Brasil? E porque falar da Ucrânia, quando grupos nacionalistas estão ganhando força em diversos lugares do mundo?

"Há dois entendimentos possíveis, um mais amplo, que faz referência à esse momento de ruptura com o status quo político", diz Caldeira Neto. "Há outras leituras mais particulares, mais associadas aos grupos neofacistas, cuja referência não está necessariamente nessa ruptura, mas em um desejo de reprodução de ideias, táticas e estratégias usadas no país europeu."

"É uma dinâmica de buscar experiências que deram certo para a direita fora do Brasil, e caso da Ucrânia teve um impacto midiático muito forte", diz ele.

Além dos ativistas, o discurso também chegou a bolsonaristas no Congresso, como o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ).

Embora figuras como Silveira falem de forma enigmática quando fazem referência ao assunto em redes sociais, a ligação da frase com os episódios de 2014 na Ucrânia é abertamente explicado em blogs, podcasts e grupos bolsonaristas.

Quando fala em "ucranizar o Brasil", a direita brasileira está fazendo referência direta aos episódios em que grupos armados invadiram prédios do governo no país europeu.

"Há vários exemplos de ações de desobediência civil nos últimos cem anos, mas talvez o mais interessante de comparar com nossa situação seja o protesto do povo ucraniano nos 93 dias do inverno entre 2013 e 2014 que ficou conhecido como Euromaidan e levou à renúncia do presidente Viktor Yanukovych", diz um texto com o título "O Dever de Ucranizar", no site de direita Vida Destra, do advogado Fábio Talhari.

Leia a matéria completa no site da BBC Brasil.