25 de junho de 2021
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Resistência de Dilma pode ser divisor de águas na história do PT

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O PT já não depende só do emblema pessoal e até com forte carga mística de Luiz Inácio Lula da Silva para prosseguir sua história e resgatar-se como partido de massas. Após três décadas e meia de vida, e mergulhado no mais profundo abismo de questionamentos éticos de sua existência, o Partido dos Trabalhadores inicia seu quarto ciclo consecutivo de poder acuado interna e externamente pela premente necessidade de provar-se no lado oposto dos estigmas que lhe ferem profundamente, sobretudo o de estar associado ao patrocínio de um dos mais nefastos esquemas de corrupção nos 192 anos de República.

Dois escândalos que explodiram em seguida – o do Mensalão e o da Petrobras – Petrobras – foram devastadores e poderiam, com seus desdobramentos, liquidar parcial ou totalmente, em pouco tempo, a história construída pelo PT. No entanto, o partido vem sobrevivendo, não só em função da representatividade consolidada por mandatos parlamentares e executivos, mas – sobretudo agora – pelo apelo pessoal de suas duas maiores lideranças, o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma Roussef.

Lula atravessou incólume dois mandatos presidenciais e por eles foi coroado como uma espécie de instituição sagrada e intocável do PT, até que o escândalo do Mensalão Petista explodisse. Sua imagem sofreu consideráveis arranhões, mas ainda se manteve reconhecida, especialmente junto as classes de mais baixo poder aquisitivo e nas regiões mais pobres do País. Esta condição, porém, não seria por si suficiente para garantir ao PT uma reserva de oxigênio para atravessar o mar revolto. E é neste trecho da trajetória partidária que emerge o protagonismo de Dilma Roussef.

DOIS TURNOS - A presidenta petista enfrentou a disputa sucessória de 2010 tendo como alicerce decisivo o principal cabo eleitoral da nação, o ex-presidente Lula, o “padrinho” de sua indicação. Ele enfrentou nervosa resistência de correntes petistas, que cobravam uma candidatura historicamente mais afinada com o partido. Embora tivesse em sua ficha a participação ativa na luta armada contra a ditadura militar - um item a caráter para o gosto dos esquerdistas -, Dilma era egressa do PDT e só havia ocupado funções técnicas no governo do Rio Grande do Sul e no governo do próprio Lula, como diretora da Petrobras e depois ministra.

Dilma venceu a primeira eleição, em segundo turno, mas colada na popularidade do “padrinho”. Na luta pela reeleição, aí já espremida pelas crises na economia e os escândalos envolvendo figuras do partido, a presidenta teve que mostrar o que podia e sabia fazer para superar esses desafios. Conseguiu levar o governo e a economia sem perder o controle de ambos, apesar de números e conjunturas desfavoráveis. Arriscou-se no segundo turno ao fixar-se em estratégias diferentes para atacar e defender-se.

Com a morte trágica de Eduardo Campos e o surgimento apoteótico de Marina Silva, o PSB entrou de verdade na disputa pela presidência, atropelando o tucano Aécio Neves e ombreando com Dilma, chegando inclusive a abrir pequena vantagem um mês antes do primeiro turno. Dilma viu-se obrigada a contra-atacar e a devolver as acusações e o processo demonizador que sofria de Marina e Aécio. Caprichou na pontaria. Tinha que responder aos ataques de ambos, mas sabia que no primeiro turno a principal ameaça era sua ex-ministra do Meio Ambiente.

Teve o reforço involuntário de Aécio. Ao ser ultrapassado por Marina e sentir-se praticamente excluído do segundo turno, o pretendente mineiro também incentivou, com apoio da grande mídia, a desqualificação da socialista. E com a mesma velocidade da subida, Marina despencou na preferência popular.

MASSACRE - No segundo turno quase tudo conspirou contra a candidata do PT. Foi um massacre midiático, moral e político. Os grandes veículos de comunicação juntavam a fome com a vontade de comer na editorialização anti-petista. Além da generosidade nos espaços concedidos à oposição, carregavam no material depreciador, juntando às denúncias artifícios de verbalização desqualificadores, que nas três semanas anteriores ao segundo turno criaram um ambiente anti-reeleição extremamente carregado por todo o País.

Dilma, ainda assim, tinha uma base de reconhecimento e apelo popular muito mais forte do que se imaginava. Era um atributo pessoal que se nivelava à influência e ao encanto que o poder, pelo exercício de um governo, inspira no imaginário das pessoas, especialmente das mais simples.

O modo xerife de Dilma, intercalado com as emocionadas intervenções de palanque, engrossou o caldo da aprovação ao governo que, bem ou mal, havia em 12 anos conquistado níveis de desempenho no combate à pobreza reconhecidos pelos principais fóruns e dirigentes do planeta. A reeleição veio, a duras penas, com a votação maciça e consagradora de um Nordeste reconhecido aos programas de inclusão, que para os oposicionista funcionou como instrumento eleitoral. Mas as crises continuam produzindo seus efeitos práticos na revelação das culpas, do envolvimento de petistas e do próprio governo. E mesmo nessa frigideira em fogaréu brabo a presidenta – ou seu governo – continua respirando o oxigênio da popularidade que ela acumulou.

RESISTÊNCIA - A aprovação ao governo de Dilma Roussef aumentou nos quesitos ótimo/bom de 38% para 40%, entre setembro e dezembro deste ano. Foi o que apurou a pesquisa CNI/Ibope, realizada com 2002 pessoas em 145 municípios brasileiros, de cinco a oito deste mês. No mesmo patamar de aprovação registrado por outros institutos, esta pesquisa confirma que a presidenta, mesmo no centro de um cenário de crise econômica e escândalos, como o da Petrobras, continua mantendo forte lastro de prestígio e credibilidade. A aprovação pessoal da presidente foi para 52%, contra 48% na amostragem apurada em setembro. A desaprovação ainda é alta, está em 41%, mas era de 46%.

E mais um dado que confirma a consistência e a força da capacidade da presidenta em resistir aos solavancos: o grupo de eleitores que confiam em Dilma, que era de 45% em setembro, chegou a 51%. São estes números que impõem ao PT, juntamente com as novas esperanças, a obrigatória necessidade de reoxigenar-se, depurar-se, assumir seus erros crassos e retomar o rumo que inspirou seu nascimento.

Edson Moraes