17 de janeiro de 2021
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Sarney deixa marca da ambivalência na política

Nenhum brasileiro, ou brasileira, teve uma carreira política tão longa quanto a que o senador José Sarney começa a encerrar agora. E não houve outro ou outra que tenha experimentado, tanto quanto ele, o gosto da glória e da indignação populares. Em 1985, o apoio da população ao congelamento de preços imposto pelo Plano Cruzado tornou praticamente a todos em 'fiscal do Sarney'. Era o apogeu do então presidente que assumira o cargo com a morte do eleito, pelo Colégio Eleitoral, Tancredo Neves. Mas em 2009, no exercício da presidência do Senado, a hashtag 'fora, Sarney' chegou ao topo da difusão global pelo twitter, em razão de denúncias sobre nepotismo e corrupção em sua gestão no cargo. images-cms-image-000378383 A ambivalência impressa pela idolatria passageira e a oposição cerrada é, sem dúvida, uma característica de toda a carreira de Sarney. Dos sete partidos políticos aos quais foi filiado, começou nos anos de 1950 pelo PSD que reunia a oposição mais moderna da época, mas rumou para a UDN de forte pregação moral para fazer parte da chamada 'banda de música' do partido. Integrante da oposição parlamentar ao regime militar que se instalaria no País em abril de 1964, também foi um dos primeiros a se filiar à Arena, o partido do regime, pelo qual governou o Maranhão e do qual seria presidente. Eleito com a promessa de modernizar o Estado, não conseguiu, durante seu mandato, inverter os principais indicadores de pobreza e miséria. No entanto, consolidou um clã político do qual continuará sendo o grande chefe mesmo ao cumprir sua decisão de não mais concorrer a eleições. Ao final de seu mandato de senador, em dezembro deste ano, Sarney, aos 84 anos, deixará a política. Pretende se dividir entre a família e as reuniões de 'imortais' da Academia Brasileira de Letras, mas é provável que ainda venha a ser um conselheiro político para horas difíceis. Afinal, ninguém tem a bagagem política que ele carrega. Em Brasília, Sarney tem sido visto desde a transição da ditadura militar para o regime democrático, em 1985, como um fiador da estabilidade política. Mesmo em meio a uma grave crise econômica, que não conseguiu superar em sua gestão, Sarney manteve o compromisso de garantir eleições diretas para presidente, governadores e prefeitos. Ele não rompeu com os militares, mas tirou deles o espaço em decisões institucionais. Isolado politicamente no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), Sarney viu seus filhos Fernando e Roseana serem alvos, em 2006, já na gestão de Lula no Palácio do Planalto, da operação da Polícia Federal chamada Boi Barrica. A ação procurou provas de lavagem dinheiro na campanha de Roseana ao governo do Maranhão, mas as investigações foram consideradas ilegais pela Justiça, em 2011. Apesar do desgaste político sofrido pela ação da PF, Sarney tornou-se, durante o segundo mandato de Lula, um dos principais aliados do presidente no Congresso. A aproximação com Lula foi duradoura e prevaleceu em relação à presidente Dilma Rousseff. No final de semana, em Macapá, Dilma estava ao lado de Sarney em uma cerimônia de entregas do programa Minha Casa, Minha Vida. O ex-presidente foi vaiado, emitiu nota dizendo que já esperava a reação da plateia que, segundo ele, fora arregimentada para apupá-lo, e tornou pública sua decisão de não mais disputar campanhas eleitorais. "É hora de parar", resumiu. Brasil 247