26 de julho de 2021
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COMUNIDADE EM PERIGO

Segundo Powell, Brasil não é seguro para LGBTs e violência tem patrocínio do Estado

Diretor de ONG de refugiados diz que falas do presidente contra comunidade LGBTQI+ "legitimam" preconceito

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"Em países ao redor do mundo, as pessoas LGBTQI+ enfrentam violência e opressão simplesmente por causa de quem amam ou de quem são. Nós ajudamos a colocá-los em segurança", é o que diz o slogan da organização "Rainbow Railroad", que tem como diretor-executivo Kimahli Powell. Em entrevista à Folha, esse canadense defensor de longa data da justiça social, classificou o Brasil como "não seguro o suficiente para pessoas LGBT".

Em palavras mais diretas, o Brasil é violento contra os LGBTs e esse comportamento é patrocinado pelo Estado. Significa que os ataques intolerantes são "legitimados" porque são defendidos e praticados pelo presidente do nosso país.

"Quando um agente estatal, seja a polícia, o governo ou o chefe de Estado, como é o caso do Brasil, fala contra os LGBTs, isso gera perseguição", disse o cientista político. E livrar indivíduos LGBTQI+ dessas situações sistêmicas e estatais é um dos focos da Rainbow Railroad.

Kimahli Powell participou recentemente do Fórum de Direitos LGBTQ2+, reunião virtual organizada pelo governo do Canadá para discutir a situação dessa população na América do Sul. Para o diretor-executivo, apesar de o Brasil aceitar refugiados, a falta de políticas voltadas para a segurança dessa comunidade, faz com que a organização pense duas vezes antes de enviar refugiados para o país.

"Nós sabemos que no Brasil principalmente as pessoas trans são alvos desproporcionais de violência. Você pode ter uma Parada Gay com um milhão de pessoas e ainda assim ter uma parte da comunidade que seja alvo de perseguição. Isso se reflete nos pedidos que temos por ajuda. E nós estamos muito preocupados com o Brasil, principalmente nos últimos anos, com a administração atual, que sinalizou políticas mais agressivas contra os LGBTs", apontou ele.

Para Kimahli, a situação da América do Sul e Central tem chamado atenção pela situação política, mas também pelas dificuldades trazidas pela pandemia. Como bem ressaltou a entrevista da Folha com Powell, no Brasil, boa parte da população trans está empregada em setores precários, com alta informalidade e baixos salários, além de boa parte das pessoas trans trabalharem no mercado sexual.

"Brasil é um país onde era esperado que as pessoas LGBT pudessem viver tranquilas, mas, dado o clima político, isso não é tão certo. Isso era uma preocupação para nós em países como o Brasil, em que o governo apoiou medidas que não visavam proteger a população contra o coronavírus. Porque, sem apoio do governo, essas pessoas não podem ficar em casa e não trabalhar".

RESPEITO POR MICHELLE

A vulnerabilidade que pessoas LGBTQI+ se encontram no Brasil coloca os indivíduos que assim se identificam em perigo. Essa violência é muito mais presente em comunidades, favelas e locais característicos pela fragilidade econômica latente, mas não são exclusivos.

Mais recente um caso tomou proporções de revolta, após a engenheira de sistemas Michelle Brea Soares, de 40 anos, ser alvo de comentários transfóbicos enquanto participava de uma transmissão. Segundo informações do portal Hugo Gloss, quem comandava a live era o autodenominado "cristão conservador" Samuel Zalton.

Também estavam presentes a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PSL), o vereador mineiro Nikolas Ferreira (PRTB), a influencer evangélica Ingred Silveira, entre outros.

Na ocasião, a analista de sistemas, Gamer, que é uma mulher trans, foi chamada para tratar de "identidade de gênero", enquanto era interrogada sobre questões científicas e confrontada pelos seis participantes. Tanto Samuel, quanto os demais participantes usaram apenas o pronome masculino quando se referiam à Michelle, ainda que ela pedisse para que seu nome e gênero fossem respeitados.

Samuel então escancarou seu preconceito e, mesmo diante de todas as explicações, continuou chamando preconceituosamente a participante da live de "O Michelle", enquanto ela, por sua vez, não se calou.

“Minha certidão de nascimento diz isso, minha identidade diz isso, então eu sou ‘A Michelle'". 

Durante cerca de cinco horas a transmissão seguiu. Após o ocorrido, Michelle usou o twitter para se manifestar e agradecer o apoio. "Aquela live não me abalou, apenas me deu a oportunidade de mostrar como nós somos tratadas no brasil. Só que dessa vez tinha uma câmera ligada e alguém que sabia se defender.