28 de novembro de 2020
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MUDANÇA

Uma área ocupada e livre da polícia em Seattle

Manifestantes fazem de bairro uma zona autônoma e ignoram ameaça de Trump de enviar força militar para retomar controle.

Seis quarteirões do bairro de Capitol Hill, em Seattle, foram ocupados há uma semana durante os protestos antirracistas desencadeados após a morte de George Floyd. Os manifestantes expulsaram policiais, cobriram a delegacia com tapumes e controlam a área, batizada como Zona Autônoma de Capitol Hill (CHAZ em inglês).

A faixa “Este espaço agora é propriedade do povo de Seattle”, disposta no prédio da polícia, explica o que aconteceu no bairro que é também o centro de arte e cultura da capital do estado de Washington. A saída dos agentes foi antecedida de confrontos violentos, até que o Departamento de Polícia da cidade concordasse em liberar a delegacia e a área, sob proteção da comunidade.

A zona autônoma virou alvo de outro confronto, já conhecido no estado de Washington. De um lado, o presidente republicano; de outro, o governador Jay Inslee e a prefeita de Seattle, Jenny Durkan, ambos democratas.

Trump, que já havia desafiado Inslee a reabrir a economia durante a pandemia do novo coronavírus, ameaçou usar a força militar para retomar o bairro, caso o governo regional não agisse. Começou um bate-boca entre os três pelas redes sociais.

“Terroristas ocuparam Seattle, liderados por democratas da esquerda radical. Lei e Ordem!”

“Não permitiremos ameaças de violência militar contra os cidadãos de Washington vindas da Casa Branca. As Forças Armadas dos EUA servem para proteger os americanos, não a fragilidade de um presidente inseguro”, retrucou o governador.

“Deixe todo mundo seguro. Volte para o seu bunker”, ironizou a prefeita.

Desde o início dos protestos, o presidente põe no mesmo bolo anarquistas e extremistas de esquerda e já ameaçou transformar o movimento Antifa (antifascista) em organização terrorista.

No fim de semana, a zona autônoma parecia um festival, com música, pintura, meditação e discursos, abastecido de água, refrigerantes, protetor solar, álcool gel e barras de cereais -- tudo de graça.

Manifestantes cercaram a área com barricadas e aumentam a listas de exigências. O que começou como um protesto antirracista enveredou em demandas como cortes no financiamento da polícia para direcioná-los à saúde ou a retirada de acusações contra os manifestantes.

Quanto tempo isso dura e como acaba? Provavelmente num novo confronto, analisou a correspondente Hannah Allan, no podcast da emissora NPR:

“A prefeitura e a polícia rejeitaram o ultimato de Trump para limpar a zona. Até agora, tudo está em compasso de espera, numa aposta de que os manifestantes não terão resistência ou organização para sustentar isso por muito tempo.”

Enquanto isso, a campanha de Trump explora a ocupação e tenta vinculá-la a Joe Biden, adversário do presidente na disputa pela Casa Branca. Vende a ideia de que, se o democrata for eleito, as cidades do país serão ocupadas e transformadas em zonas autônomas como as de Seattle. A área foi, inclusive, foi apelidada de “Zona Biden” por Jason Miller, conselheiro do presidente. Parece piada.