28 de setembro de 2020
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Cabeça de cavalo

O Ministério Público denuncia o Sr Milton Marques. Deve ser por ameaça aos direitos humanos ou inexplicada coleta de recursos para manutenção de suas atividades. Louvável iniciativa do MP em cumprir o papel de defender direitos humanos de pessoas escravizadas pelo vício das drogas e do álcool. Muito simples, então, o promotor, com decisão e elegância, sem macular o paletó e sequer quebrar o vinco da calça, senta-se diante de um computador e cerca-se de leis e compêndios de jurisprudência para, à guisa de salvaguardar princípios éticos, de segurança da pessoa e de proteção humana, remeter Milton Marques ao banco dos réus. Ou, pior, ao paredão dos violadores da lei. O crime, segundo a visão privilegiada do MP: Milton Marques é ameaça à sociedade porque expõe seres fragilizados a alguns riscos e ainda por uma “misteriosidades”, a de não explicitar onde e como consegue recursos para realizar o que realiza, ou seja, reunir homens e mulheres, a maioria deserdada da família e vagando pelas ruas, para enfiá-los em chácaras onde, no mínimo, estariam tentando enfrentar o vício e afastar-se das drogas. Muito bem, digno e respeitável Ministério Público. Encontrou uma grande causa neste Estado onde parece não existir outros problemas, onde políticos e agentes públicos de diferentes escalões dormem devendo o padeiro e acordam à frente de empreendimentos espetaculares; um Estado onde todas as suspeitas são esclarecidas, as investigações concluídas e as denúncias apuradas doa a quem doer. O MP, como qualquer outra corporação, possui joio e trigo em sua estrutura. Creio que a grande maioria de seus membros é que forma e implementa a regra da responsabilidade e do exercício exemplar da função. Mas há exceções. Estas existem em todos os ambientes. Não creio que o citado promotor faça parte das exceções. Seria leviano de minha parte erigir tal julgamento. Nem estofo jurídico para julgar possuo. Mas tenho conhecimento presencial dessa causa, sobre quem e sobre o que estou tratando. E neste caso, a causa do promotor é semelhante à do justiceiro atávico que, bem intencionado, procura chifre em cabeça de cavalo. Não a encontrando, a desenhará. Milton Marques é advogado, pastor, um ex-usuário de drogas pesadas que foi ao fundo do poço na juventude e descobriu, ao sair dessas funduras, que seu remédio miraculoso esteve e está o tempo todo ao alcance de qualquer um. Um remédio que se chama Deus. Nome curto, pequeno, simplesinho que só. Mas é o nome do poder, do poder máximo, total, absoluto, sem outro igual. Deus entrou na vida do pastor Milton Marques e dessa relação restauradora nasceu o Ministério Pentecostal Tabernáculo da Glória (MPTG). Acompanho desde os primeiros tempos o Tabernáculo, quando um dos meus filhos procurou sair daquela escuridão abismal de onde se livrara o pastor Milton. Vivi dia a dia a luta pela sobrevivência das pessoas que o procuravam. E essa procura vem crescendo ano a ano. Sem suporte, sem socorro, sem u´a mãozinha sequer do poder público. O MPTG era uma salinha acanhada e hoje, graças à teimosia do Milton Marques, cresceu para acompanhar a demanda. Mesmo em imóvel alugado, ocupa um grande salão que serve de templo para os cultos e, ao mesmo tempo, de abrigo aos que o vício lançou nas ruas e na promiscuidade. Milton Marques aceita e acolhe órfãos da sorte sem nada cobrar, além da reverência a Deus. Ele sai às ruas para recolher os deserdados, muitos enlameados, sujos de fezes e urina, feridos, famintos, desumanizados, párias de uma sociedade hipócrita e vendilhã. Várias vezes perambulei com o Milton á procura do meu filho em favelas, esgotos, construção inacabadas e em nenhuma dessas vezes encontrei um promotor ou um membro do MP. Políticos, então, nem pensar. Pois é, respeitável, ilustre e essencial Ministério Público: a sobrevivência de um pastorado se dá aos mesmos moldes da fé e das escrituras, institutos que regulam o custeio de todas as igrejas. O sacerdócio não é mantido por salários, não se alimenta do dízimo e das ofertas. A comida que abastece os mais de 150 homens e mulheres acolhidos pelo MPTG vem de várias fontes doadoras. Supermercados, por exemplo, que fornecem caixas de frutas, verduras e legumes já sem serventia comercial para o estabelecimento, mas efetivamente aproveitáveis e saudáveis para a saciedade humana. Muitas pessoas doam, sistematicamente, alimento, roupas, colchões e camas para esta obra. Cansei de contar as ocasiões em que eu, minha esposa e filhos provamos das iguarias feitas pelos “filhos” do MPTG tendo como matéria-prima produtos doados. Melhor que muito restaurante de grife e muito melhor que os restos de comida misturada com cocô de rato que nossos jovens degustavam na miséria humana dos labirintos podres em que se desabrigavam. Assim, sem o intuito de ofender, mas tão-somente o de expor minha despretensiosa e desvalorizada indignação, torço para que o douto promotor das boas causas e o insigne Ministério Público atreva-se a conhecer um pouco mais ou um pouco melhor a obra do MPTG. Sem a necessidade de acompanhar as incertas do Milton Marques pelas madrugadas na rodoviária velha ou nos becos. Sem, inclusive, a obrigação de entender que aqui não se faz um apelo pela inocência do pastor. Nada disso. Se quiserem podem taxar Milton marques de louco. Ele saltará de felicidade.,Acusem-no então de imitador de Davi. Mas procurem conhecer o cavalo para saber se nele cabe um chifre. Edson Mores, especial para MS Notícias