22 de junho de 2021
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Lembranças

“Suprema! Era cobre e hoje é diamante”, assim “Seo” João se refere a Campo Grande

Aos 118 anos, Campo Grande ainda mantém viva muitas lembranças de quem ajudou a construir o seu desenvolvimento ao longo dos anos.

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“Suprema! Era cobre e hoje é diamante, entendeu o que quero falar? Naquele tempo era cobre, virou ouro, e hoje é diamante. É a melhor cidade do mundo pra se viver”, assim “seo” João, o homem do carro de boi de MS, decifra Campo Grande nesses 55 anos que vive aqui.

O alagoano chegou ao Pantanal em 1958. Depois do casamento com dona Cida veio desbravar as terras campo-grandenses em meados de 1965. Ele, que não gosta muito de falar de idade, mas pelos cálculos, deve ter aproximadamente 80 anos de muita disposição, e recorda do passado nos mínimos detalhes.

Entre acenos ele conta, “I menina, quando cheguei aqui era matagal, ali em baixo era um matador... ali era uma plantação de arroz... pra pegar lenha a Cida tinha que ali pra baixo... não tinha uma árvore aqui nessa região (Santa Fé). Trabalhei carregando muito saco de cimento, pedra, areia, ferro, tijolo, o que precisava... sabe ali a maternidade? Os caminhões ficavam ali, num galpão, do lado da maternidade, e a gente vinha a pé... quando chegava a noite dava até caibra na língua de tão cansado e no outro dia já amanhecia bom e já sumia de novo. Naquela época não tinha trabalho pra mulher não, só homem que trabalhava, era fogo... (risos)”.

Ao lembrar-se das fortes lembranças, “Seo" João engasga com as palavras e sorri... Conta que ajudou a contruir a antiga rodoviária, o morenão e muitas outras obras, e explica como era a vida financeira de quem suava pra sustentar a família. “Eu ganhava naquela época 10 conto por semana, dava quarenta por mês. Aí pagava 25 de aluguel, e o restante era pra fazer compra pra comer no mês, chegava o final de semana, nóis pegava a bicicleta, eu e o irmão dela e ia lá no mercadão e fazia a feira, comprava arroz, feijão, carne, o que dava.... era assim, uma vida difícil e quando apertava ia pra alguma fazenda ganhar dinheiro pra pagar a prestação da casa, pra não perder. Naquele tempo você assinava um contrato e o dono falava é tanto por mês, se você atrasar 3 meses perde. Não tinha negócio de recorrer em nenhum lugar não, perdia mesmo. “Nego” comia pão e pedra, mas não deixava de pagar a prestação.

"Seo" João tem razão, “hoje vivemos no céu”, muita coisa mudou nesses 118 anos. Segundo dados do IBGE de 2016, entre as 27 capitais brasileiras, Campo Grande se destaca por ser a 4ª maior em área territorial, com 8.092,951 Km2 e a 16ª maior população, 863.982 habitantes, destes 47% não são daqui, ou seja, é o 4º maior percentual de pessoas residentes não naturais do município.

E um desses exemplos é o “Seo” João e a dona Cida, que nos recebe em sua humilde casa, num dos bairros mais nobres da cidade. Do lado de fora, se vê alguns tocos de madeira, e um muro baixo, com algumas latas pra tampar os buracos... Uma ramada  e várias plantas, atrás delas uma grande relíquia, parte o palacete da família construído em meados de 1962.

“A vida de casa era difícil, ali dentro só tinha 2 peças, a sala e o quarto onde dormia todo mundo junto. Era difícil a lida de casa, lavava e esfregava a roupa na mão, numa tauba... difícil né ? E ainda tinha que descer lá em baixo pra buscar lenha... até o meu fogão, eu que fazia... ele era feito de barro e pedra, ai barriava ele bem, tirava a cinza branquinha passava no fogão e ficava branquinho. Quando foi um belo dia, uns bois começaram a brigar e desmancharam meu fogão, que ficavam ali no quintal".

De personalidade forte e inconformada, dona Cida deu um jeitinho e começou a trabalhar. “Quem podia trabalhar era só ele. Mesmo assim eu me virava, ia na vizinha costurar, porque eu não tinha máquina de costura. Toda vida gostei de costurar. Minha mãe me ensinou a fazer crochê, bordados, tudo, eu fazia costura nas máquinas das vizinhas, elas me chamavam... fazia até vestido de noiva, mas tudo naquelas maquininha de pedal. Era assim, pra eu poder dizer, que tinha o dinheirinho meu.”

E como disse “seo” João, “naquela época a família era unida, não tinha malícia nenhuma. Os filhos obedeciam aos pais”. Carlos Aberto Coimbra sabe bem disso, filho de uma família tradicional da capital, e criado nos princípios e valores do povo antigo, percebe um detalhe especial no povo campo-grandense, a generosidade que acolhe todos os povos e culturas,  sem nenhuma distinção. “É uma cidade jovem e muito bonita... Extremamente acolhedora. Um povo generoso e sem preconceito com as pessoas que vem de outros lugares. Isso faz com que a cidade não tenha uma cor definida ou uma etnia, você anda na rua e vê pessoas de todo tipo, pele clara, escura, parda, índios, pessoas que vieram do sul, do nordeste, de todo canto.”

Para Carlos, além da educação, saúde e segurança, um detalhe que ainda passa despercebido pelas autoridades é a mobilidade urbana, “se você não tiver carro, não se anda na cidade. Não dá pra perder 2, 3, 4 horas do seu dia dentro do ônibus pra ir trabalhar. E o comerciante ter que fechar cedo a empresa porque é o último horário do ônibus. Não podemos continuar assim.”

Apesar de todos esses desafios, Campo Grande, segundo estimativa do IBGE de 2016, possui a   9ª maior expectativa de vida e é a 4º menor taxa de desocupação. Está no  12º  lugar, como maior índice de desenvolvimento humano e entre as capitais, tem o maior percentual(96,3%) de domicílios arborizados.

Só que quando se fala em patrimônio histórico cultural, basta olhar para os lados, e observar o que restou. Essa é uma das maiores indignações de quem fez parte do desenvolvimento de Campo Grande, como a família de Luiz Eduardo Baís, “ eu gostaria que Campo Grande fosse uma cidade que valorizasse a memória, a história dela. Respeitassem um pouco mais, como fizeram no passado onde, demoliram o relógio da 14 com a Afonso Pena, cujo a máquina dele foi o meu avô Bernardo Franco Baís que trouxe da Europa, o prefeito na época construiu, e a poucas décadas atrás outro prefeito destruiu. E assim você vai vendo que várias coisas foram sendo derrubadas, detonadas, desrespeitadas, e sem planejamento. A cidade cresce de forma  desordenada, a ocupação da área não está uniforme, enfim é difícil você dizer uma capital do futuro, eu gostaria de uma capital do presente. ”

E por falar em cultura, me lembrei de uma pergunta que o “Seo” João me fez:

- “Você sabe o que é cultura? A cultura é a mais bonita do mundo, é quando você lembra do seu pai, avô, bisavô... E vem na mente às lembranças deles... Você tem que preservar a cultura da sua família... Com o tempo passar assim como eu to contado pra você, para seu filho, neto, bisneto... E aí ela nunca acaba isso se chama cultura. A cultura é a lembrança do passado, quem não tem lembrança, não tem amor por ninguém”.

E após ouvir tantas lembranças que me fizeram viajar no tempo e vive-las com seus contos, atrevo a dizer que este humilde e brincalhão senhor, o “seo” João, se não fosse artesão em madeira, poderia fazer muito bem artesanato com as palavras e poesia com as próprias mãos, já que a maior saudade deste coração é do tempo que tinha forças para trabalhar... “sempre lutei nessa minha vida pra conquistar as coisas, e mesmo na dificuldade sempre fui muito feliz. Eu adoro essa cidade. Nossa Senhora, parece que eu nasci aqui. Parece que eu estou no céu. Todo mundo que vem aqui, gosta. Sabe por quê? É bom demais”.