19 de abril de 2021
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ENTREVISTA: RAUL FREIXES

"Aprendo as lições, não guardo rancor, mas continuo inimigo das injustiças", diz ex-prefeito

Em liberdade, ex-prefeito e ex-deputado quer retomar a emissora que era sua e foi tomada pela prefeitura nesta gestão

O semblante e a fala são tranquilas. Como há muito não acontecia, o sorriso agora é constante na expressão aliviada de quem se reencontrou com a família após quase dois anos na cela de um presídio em Campo Grande, a 140 km de sua Aquidauana. 5ª-feira passada, (6.nov.2020), na primeira semana de liberdade, o ex-prefeito, ex-deputado estadual e radialista Raul Martinez Freixes, de 59 anos, teve que dividir-se entre o aconchego familiar, visitas de amizades e admiradores aquidauanenses, além de várias entrevistas.

Não parecia a volta de alguém condenado com a acusação de desvio de recursos públicos quando administrou Aquidauana, entre 1997 e 2000. A sentença de 12 anos foi reduzida e depois de cumprir 20 meses de prisão ganhou a liberdade para retomar a atividade laboral. Ainda assim, seu olhar guarda tristezas e interrogações que o angustiam desde que fechou o seu mandato de prefeito, acompanhando-o ao ser eleito deputado estadual (2003-2006) e fustigando as emoções e a paciência durante os quase dois anos de privação da liberdade. 

DECISÃO INUSITADA

Um dos maiores motivos dessa tristeza foi perder a emissora de rádio que fundou com a família nos anos 1980. Foi um empreendimento pioneiro e histórico no interior do País, a Pantanal ou Pan FM, atualmente Rádio FM América. Na verdade, Freixes não perdeu a emissora - ela foi tomada dele, pela prefeitura, beneficiada por uma decisão inusitada da Justiça. O radialista não fornece muitos detalhes e nem dá os nomes dos responsáveis, instruído por seu advogado para não citar nomes de políticos ou candidatos durante o período eleitoral.

Raul Freixes não menciona, mas toda Aquidauana sabe que o maior interessado em tirar proveito da mudança de controle acionário da rádio era o prefeito Odilon Ribeiro (PSDB), candidato à reeleição. No dia 23 de agosto do ano passado a ordem judicial foi cumprida, inclusive com atos de rispidez contra funcionários da emissora e envolvimento de servidores da prefeitura. Naquele dia, de maneira inusitada, a Justiça entregava uma concessão do governo federal para um governo municipal, transferência de questionável base jurídica. A prefeitura era credora de débitos fiscais. Para garantir sua liquidação ajuizou uma ação de cobrança, cobrando 50% do controle acionário da emissora. 

Apesar disso, Freixes prefere não acusar ou envolver os responsáveis, observando que tudo tem seu tempo. Salienta que analisa com serenidade a questão e que vai fazer a sua parte, de acordo com os direitos que a lei lhe fornece. "Sou o mesmo de sempre, com uma diferença: estou mais maduro, curtido pelo sofrimento de passar mais de 15 anos com a liberdade ora interrompida, ora ameaçada, com a família atingida duramente, a saúde física e emocional muito machucada", afirma. 

"Mas não vou me vitimizar, eu não sou um pobre coitado. A cadeia ensina para quem quer aprender. E nesta vida eu sempre tirei lições de todas as horas, sobretudo nas mais adversas. Por isso, não guardei rancor, não cultivei ressentimento. Mas de minhas razões não abro mão. Não vou me conformar com as injustiças. Eu fui e serei sempre um combatente contra as injustiças. Elas foram o tempero cruel e inescrupuloso do enredo tramado pelos que me perseguiram e fizeram de tudo para destruir a mim e à minha família", acrescenta.

Raul Freixes foi prefeito de Aquidauana de 1997 a 2000 pelo PSDB. Foi eleito deputado estadual em 2002 pelo PST com 10.956 votos. Em 2006, filiado ao PTB tentou a reeleição e ficou apenas na suplência. Nas eleições seguintes inscreveu-se para disputar vaga na Assembleia Legislativa mas teve a candidatura impugnada. Agora, além de recuperar a sua emissora, volta aos microfones e tem convites para emissoras de rádio e TV em Mato Grosso do Sul e no Paraná.

PERGUNTA - Como estão sendo seus primeiros dias de liberdade?

RAUL FREIXES - Meus primeiros dias de liberdade são de correntes se rompendo. Correntes tecidas pelos grandes para acorrentar os pequenos. Porém, até os pequenos têm forças para derrotar os fortes quando lutam pela vida, uma dádiva imensurável, como a liberdade, o instrumento que nos aproxima de Deus quando plantamos sementes de bondade e ternura. Lamentavelmente, filosofamos, haja vista que fora do cárcere a criminalidade e a maldade são muito maiores. 

PERGUNTA - Sua prisão foi causada por erros que você assumiu. Aconteceu alguma coisa que precisa ser explicada em todo o processo?

RAUL FREIXES - Minha prisão foi o entendimento da Justiça, diante de um processo de 20 anos atrás, teoricamente prescrito, mas alimentado por  um grupo poderoso. É, na verdade, uma teia dos que surfam nas ondas do tráfico de influencia e do poder econômico, deletando do caminho os que ameaçam romper essa cadeia oligárquica. É preciso e eu vou ajudar a esclarecer muita coisa, dentre as quais o enriquecimento ilícito de políticos tradicionais, detentores de incalculável extensão de terras e milhares de cabeças de boi.  

PERGUNTA - Agora, nesse retorno à liberdade, existe algo que você pretende fazer em relação aos fatos e às pessoas que direta ou indiretamente foram responsáveis por sua condenação?

RAUL FREIXES - Os responsáveis por minha prisão foram tão cruéis de se adornaram de minha rádio. Invadiram-na sem escrúpulos, aproveitando-se da minha imobilidade atrás das grades. Minha família, que depende da radio para sobreviver, minha esposa e duas crianças chegaram às raias do flagelo, pois não tinha recursos ao menos para adquirir alimentos. Sou ainda um presidiário e não é demérito para ninguém. Muita gente passa anos a fio entre muros e ao sair da prisão crescem ou demonstram que são consequência das desigualdades, das injustiças. Eu lancei nesta arena de lobos famintos a minha esposa para concorrer a uma vaga na câmara. Vi nela a chance de resgatar alguns projetos meus que ficaram pra trás, sobretudo lutar pelos desvalidos pela sorte. Em relação às providencias que tomarei é fato publico e notório que a Radio América FM é minha. E esse País tem uma constituição. Pergunto: é licito invadirem sua casa, sua empresa e deixa-lo padecer de inanição? Em principio, ancoro meu raciocínio na Palavra de Deus. Na Lei da semeadura. O que plantamos colhemos. No mais, farei o que determina a lei. 

PERGUNTA - O que você aprendeu de mais importante nos dias em que ficou preso?

RAUL FREIXES - Que somos todos iguais diante de Deus e da sociedade. E que mesmo em uma cadeia existem pessoas honradas, como também a escória da sociedade, os que praticam crimes hediondos. Acima de tudo a humildade me deu uma grande lição. A cadeia não reintegra o cidadão à sociedade. Mas ensina aos que desejam trilhar novos caminhos a refletir quanto a si mesmo. Continuo sob a custódia do Judiciário, a minha liberdade é definitiva, desde que obedeça as condições impostas pela Justiça. Assim, vou vencendo etapas, até o ponto de me ver totalmente livre.