30 de setembro de 2020
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PANDEMIA

Aquidauana foi avisada, mas não evitou colapso no sistema público de saúde

Prefeito teve quatro meses para se preparar, recebeu R$ 6,4 milhões e ainda foi surpreendido pelo surto

Na última 4ª-feira, 5, o Boletim da Pandemia da Covid-19 em Mato Grosso do Sul informava que até àquela data, dos 442 óbitos no Estado 17 eram de Aquidauana. Dos 28.315 casos confirmados, 508 eram de pacientes aquidauanenses. No mesmo dia, havia pelo menos 16 pacientes do SUS do município entubados em CTIs, 13 deles em Campo Grande e os demais em Aquidauana. 

Se forem incluídos os contaminados de toda a microrregião, o total de pacientes nas UTIs chega a 23. Nas 10 aldeias indígenas, aonde vivem mais de sete mil terenas, o drama é ainda mais agudo, com muitos mortes e notificações positivas afetando um povo que tem na vida em comunidade seu modo ancestral de viver. A disseminação do vírus em um ambiente totalmente desprotegido fez dessa cultura um risco potencial para organismos sensíveis à ação letal da doença.

O colapso no sistema publico de saúde em Aquidauana vem produzindo cenas das mais dolorosas e dramáticas, que poderiam ser evitadas caso as autoridades locais tomassem as providências adequadas logo que a pandemia foi anunciada e o estado de calamidade publica se instalou. Se a prefeitura – cujo titular é o prefeito Odilon Ribeiro (PSDB) - desse a devida atenção ao drama que já era vivido muito antes da pandemia, e se tivesse reestruturado a rede e serviços de atendimento, o impacto corrosivo na saúde e na vida dos aquidauanenses teria sido muito menor.

RETRATO ESCANDALOSO

Um dos retratos escandalosos da deficiência estrutural e gerencial da política publica de saúde no município é a situação do Hospital Regional. Para atender pacientes da pandemia, um dos aparelhos mais importantes é o respirador. Existem 10 no hospital, mas só três funcionam porque a usina de oxigênio só trabalha com esse limite. Assim, os sete respiradores que sobram ficam como estão, sem utilidade alguma. 

A Secretaria Estadual de Saúde anunciou o envio de mais respiradores. mas de nada adianta, se a usina não tem capacidade. Por isso, as internações por coronavírus não são possíveis no Regional e os pacientes mais graves acabam sendo transferidos para Campo Grande, mesmo sem a garantia de vagas.

Ainda em março, logo depois que as autoridades sanitárias, estados e municípios passaram a adotar o isolamento social e outras medidas para impedir aglomerações, circulação de pessoas e outros comportamentos favoráveis à rápida propagação dos contágios, o governo federal começou a liberar recursos às prefeituras para as ações emergenciais e reestruturação do sistema de atendimento. 

Aquidauana já recebeu R$ 6,4 milhões em quatro meses para, principalmente, criar uma estratégia de enfrentamento da doença e recompor o sistema de saúde e de emergências com foco na assistência aos infectados pelo coronavírus. Pelos números cada vez maiores de contaminações, óbitos e testes é fácil inferir que o repasse de verbas federais não atingiu seus objetivos. A prefeitura não presta contas sobre o que fez com esses recursos e até hoje não capacitou sua rede de enfrentamento. Entrou com atraso no combate ao coronavírus e está perdendo a batalha. 

INDIGNAÇÃO

Teólogo e filósofo, o pastor terena Jader Jorge, presidente da União das Igrejas Evangélicas (Uniedas), diz ser muito desolador o quadro de carências e de sofrimento de seu povo. “Nossas aldeias sofrem mais com a pandemia, porque nós sempre vivemos em comunidade, compartilhamos casas, terrenos, não temos cercas. A vida comunitária, que sempre foi a nossa força, agora é nossa fraqueza, porque não temos como resistir e enfrentar essa doença contagiosa”.

O vereador Agnaldo da Saúde (Podemos) foi demitido pelo prefeito do cargo do Hospital Regional Estácio Muniz, no qual trabalhava desde 2002. E não tem dúvida sobre os motivos. Um, é o fato de não ter ingressado na base governista da Câmara, além de não apoiar a candidatura de Odilon Ribeiro à reeleição e reforçar o bloco oposicionista. Outro motivo: há mais de um mês ele e outro colega, Edinho Grance (PSD), entraram com requerimento solicitando do prefeito a realização de teste rápido no município. “O prefeito não deu a mínima para nossa solicitação. Resultou no crescimento sem controle da doença”, afirma.

Segundo Agnaldo, o teste rápido é uma forma de mapeamento rápido do avanço da Covid-19. “É recomendado pela Anvisa e tem sido utilizado em vários municípios. É uma medida que pode ajudar na contenção da transmissão”, diz. Há mais solicitações semelhantes ignoradas pelo prefeito, revela Edinho Grance. “Eu e o vereador Aginaldo Silva encaminhamos um pedido ao poder Executivo, com cópia para a Secretaria de Saúde, para que fosse feita a testagem dos colaboradores dos órgãos públicos, hospitais, Frigorífico Buriti, Simasul (uma indústria e ferro-gusa) e da corporação do Exército em Aquidauana. Nem resposta”.

Agnaldo está in conformado com tantas mortes e contaminações. “O tempo e os milhões recebidos pelo Governo Federal que a rede de saúde teve para se estruturar e se equipar, os gestores de Aquidauana não aproveitaram em nada. Não fizeram o dever de casa”, protesta. E acrescenta; “O CTI do Hospital Regional não consegue funcionar com mais de quatro pacientes no ventilador, a usina de oxigênio não aguenta a pressão. Não estão admitindo mais pacientes no CTI e os médicos não tem mais o que fazer. O PS está lotado. Estão morrendo por falta de assistência adequada”.