24 de novembro de 2020
Campo Grande 35º 21º

GOVERNO BOLSONARO

Covid-19 segue matando brasileiros e presidente pensando só no 'próprio umbigo'

Mandetta governadores e secretários reagem ao cancelamento da compra da tecnologia de vacina da China. Todos defendem Pazuello e condenam atitude extremista de Jair Bolsonaro

Menos de um dia após o Ministério da Saúde assinar um protocolo de intenções se comprometendo a adquirir 46 milhões de doses da vacina para Covid-19 que está sendo testada pelo Instituto Butantan, em São Paulo, o acordo foi desfeito. Por ordem direta do presidente Jair Bolsonaro. “O presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade”, ele afirmou. No Twitter, mais cedo, respondeu a um usuário. “Não compraremos a vacina da China”, determinou. Na interpretação do presidente, o governador paulista João Doria distorceu o que o ministro Eduardo Pazuello havia dito para fazer parecer que havia compromisso — mas o documento é claro.

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta falou à coluna da Bela Megale sobre a atitude do presidente de desautorizar publicamente Eduardo Pazuello e cancelar a compra da coronavac. A vacina está sendo desenvolvida pelo Instituto Butantan, em parceria com o laboratório chinês Sonivac, em São Paulo.

Sem mencionar nominalmente Bolsonaro, o ex-ministro citou “o vírus e a liderança tóxica” e disse que Pazzuello deve “ouvir sua consciência”.

– De um lado a morte e a doença. Do outro, o vírus e a liderança tóxica. O ministro deve escolher o lado certo e ouvir sua consciência do que é o melhor para o Brasil. É simples assim. – disse à coluna.

O colunista Lauro Jardim informou que o episódio da vacina chinesa fez com que Bolsonaro comparasse Pazuello a Mandetta. O presidente disse a aliados que o ministro está "querendo aparecer demais, está gostando dos holofotes, como o Mandetta".

 O presidente Jair Bolsonaro foi informado no último final de semana da intenção da compra, pelo Ministério da Saúde, de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac, em desenvolvimento pela empresa chinesa Sinovac com o Instituto Butantan.

Segundo assessores tanto do Palácio do Planalto como do Ministério da Saúde, Bolsonaro, inicialmente, não se opôs à iniciativa, mas mudou de posição no final da tarde da 3ª-feira (20.out), após repercussão negativa de seus apoiadores extremistas nas redes sociais.

Desde o anúncio feito pelo ministro Eduardo Pazuello, em reunião virtual com governadores, eleitores bolsonaristas iniciaram campanha nas redes contra o que chamam de "vacina chinesa". 

Os extremistas de direita demonstram total desconhecimento sobre a aquisição, visto que nem mesmo haviam sido adquiridas doses da vacina Coronavac e na verdade foram compradas as licenças da produção da vacina que seria feita no Brasil, pelo laboratório Sinovac. 

Bolsonaro reagiu como quem, desde o início da pandemia, põe ideologia no lugar do conhecimento. Soltou impropérios contra a vacinação obrigatória (defendida por Doria), chamou a CoronaVac de “vacina chinesa do Doria” e afirmou ter decidido “não adquirir a referida vacina”. Mais demagogia.

REPERCUSSÃO

Governadores e secretários de Saúde revoltaram-se com o recuo de Jair Bolsonaro em relação à compra da vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan, em São Paulo.

"Se Bolsonaro desautorizar o amplo acordo feito por Pazuello, ele mais uma vez estará sabotando o sistema de saúde e criando uma guerra federativa. Espero que bons conselheiros consigam debelar esse novo surto de Bolsonaro", diz Flávio Dino (PC do B), governador do Maranhão, que falou em recorrer à Justiça para ter acesso a vacinas validadas pela comunidade científica.

"Bolsonaro não pode dispor das vidas das pessoas para seus propósitos pessoais. E Bolsonaro vai perder de novo, se insistir com mais essa agressão insana aos estados", acrescentou.

"Temos que apelar ao presidente para que a gente tenha equilíbrio, racionalidade, empatia com quem pode pegar esse vírus. Um apelo mesmo para manter o que falamos ontem. É importante manter a decisão republicana de ontem e deixar de lado questões eleitorais, ideológicas. E torcer para que o que disse Bolsonaro não seja levado ao pé da letra", diz Renato Casagrande (PSB), governador do Espírito Santo.

"É para deixar todo mundo perplexo. Depois de uma reunião com quase todos os governadores do país, com Fiocruz, com Butantan, com representantes de municípios, o ministro afirma que vai fazer aquisição da vacina do Butantan e também da Fiocruz, oferecendo segurança e esperança para o país. E, então, o presidente da República, numa decisão impensada, anuncia que não vai fazer a compra da vacina chinesa", afirma João Azevêdo (PSB), governador da Paraíba.

"Vacina não é de direita ou de esquerda, o que interessa é que tenha eficácia. Se for isso [que Bolsonaro falou], vai ter consequência muito grave e o preço vai ser muito caro. Não dá para compreender que um processo que deveria ser científico vire político", completa.

"A decisão sobre a inclusão de uma vacina no programa nacional de imunização deve ser eminentemente técnica, e não política. Temos instituições renomadas trabalhando no assunto, como a Fiocruz e o Instituto Butantan, e o que deve ser observado é a condição de segurança, a viabilidade técnica e também a agilidade para disponibilizar a vacina para imunizar a população. Ou seja, sem análises políticas, o importante é que seja tecnicamente decidido e viabilizado para a população o que ela precisa, que é a garantia de uma vacina segura o mais rápido possível", defendeu Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul.

"O compromisso assumido ontem foi de comprar vacina produzida no Brasil, da Fiocruz-Manguinhos, e do Instituto Butantã, produção brasileira. A saúde do povo em primeiro lugar. E neste caso a saída da crise econômica que permite recuperar empregos e trabalhar solução para a calamidade social é a vacina. O compromisso do ministro Pazuello que selou entendimento com todos os estados e municípios foi claro, comprar da Fiocruz e Butantã", diz Wellington Dias (PT), do Piauí.

"Não podemos politizar a vacina, nem qualquer aspecto relacionado a essa pandemia. A postura do ministro Pazuello foi elogiada por todos, independente de posições partidárias. Espero que alguém possa conversar com calma e esclarecer o presidente sobre esse tema. Desejo ainda que essa não seja o anúncio de mais uma crise ministerial do governo atual", diz o secretário de saúde Fabio Vilas-Boas, do governo Rui Costa (PT), da Bahia.

"Que o governo federal guie suas decisões sobre a vacina da Covid por critérios unicamente técnicos. Não se pode jamais colocar posições ideológicas acima da preservação de vidas. Lutaremos para que uma vacina segura e eficaz chegue o mais rápido possível para todos os brasileiros", escreveu Camilo Santana (PT), governador do Ceará.

"Peço ao presidente Jair Bolsonaro que tenha grandeza. E lidere o Brasil para a saúde, a vida e a retomada de empregos. A nossa guerra não é eleitoral. É contra a pandemia. Não podemos ficar uns contra os outros. Vamos trabalhar unidos para vencer o vírus. E salvar os brasileiros", escreveu João Doria (PSDB), de São Paulo.

*Com: Folha Press | O Globo | Meio.