19 de abril de 2021
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FIDELIDADE

"Desfavelar": Luta de Carlão, comunitário que agora ocupa a presidência da Câmara de Vereadores

Conhecido pelo jargão "Comunitário mesmo", a promessa feita pelo novo presidente já é o carro que o conduz pela vida política

O novo presidente da Casa da Câmara dos Vereadores, Carlos Augusto Borges (Carlão PSB), destacou sua origem simples e os grandes desafios que enfrentou ao longo da vida. Desde sua trajetória como líder comunitário, vendedor de livros, até sua luta e superação contra um câncer. A fala do vereador ocorreu durante a sessão solene inaugural dos trabalhos da 11ª Legislatura da Câmara Municipal de Campo Grande, na quinta-feira (18.fev). 

Carlão, reforçou seu desejo de ajudar a tornar a Câmara cada vez mais popular e eficiente no atendimento das demandas da população.  — Agora meu novo desafio é presidir a Câmara de Campo Grande. A vida me ensinou muito, sofri muito para chegar até aqui. E a responsabilidade do Legislativo é muito grande! Vejo essa função de presidir a Câmara como a oportunidade de ajudar Campo Grande e melhorar a qualidade de vida da população. Das pessoas simples, que muitas vezes tem dificuldade em prover o alimento para sua família, que sofrem com os alagamentos e com a falta de estrutura. Uma das minhas grandes metas é fazer do Legislativo Municipal a cara do povo. Estaremos de portas abertas, seja para sugestões, críticas, o que for. Queremos verear com ações que cheguem a quem precisa. Ações que saiam do papel e cheguem nos bairros, ajudando a melhorar a vida das pessoas — disse o presidente, justificando que por causa da Pandemia as sessões ainda não podem ser abertas ao público.

Conhecido pelo jargão “Comunitário mesmo”, a promessa feita pelo novo presidente já é o carro que o conduz devido a sua experiência de 1991 a 1992, como Chefe do Núcleo de Urbanismo da Empresa Municipal de Habitação (Emha). Onde garantiu e defendeu a distribuição justa e igualitária de casas populares a famílias carentes na Capital.

O novo presidente conquistou seu primeiro mandato em 2008 com a expressiva votação de 8.473 votos. De lá até se tornar presidente da Câmara foram 4 mandatos. Nos 3 mandatos que passaram, Carlão apresentou mais de 300 Projetos de Lei/Resoluções/Decretos, mais de 170 sancionados, mais de oito mil indicações cobrando serviços de melhorias nos bairros da cidade.

Tendo também trabalhado de 1995 a 1999, como Secretário Adjunto de Habitação e Assuntos Fundiários, onde implantou mais de 120 loteamentos sociais, o vereador é um dos que não perde seu eleitorado, devido a missão simples, mas objetiva, possibilitar que aquele ou aquela que destinam votos à ele, possa ter o básico: um lar para chamar de seu.  

Ao MS Notícias, o novo presidente da Câmara explicou que uma força conjunta deve ser feita, envolvendo deputados e municípios para assim obter resultados e conseguir dar melhor qualidade de vida à população.— Temos que intensificar a questão do loteamento social.  Fazer com que os projetos de habitação da Emha saia do papel. Fazer com que os deputados federais busquem mais recursos em Brasília para moradia. Os loteamentos sociais que tinham antigamente tem que voltar. A prefeitura tem muitas áreas aí que tem condições de fazer assentamentos municipais. Regularizar as favelas já existentes e a Câmara colocar sempre no orçamento, recursos para a questão da moradia  —  disse Carlão.  

TRAJETÓRIA

Carlão e moradores em bairro da Capital.Carlão e moradores em bairro da Capital. Foto: Redes sociais

Carlão nasceu  em Pedro Gomes, município no interior de Mato Grosso do Sul, onde passou parte de sua infância e adolescência. Tendo se mudando no fim dos anos 70 para a Capital do estado, local onde iniciou os trabalhos no Jardim Campo Verde (antigo corredor do Bairro Nova Lima), a partir de levar demandas do setor comunitário e movimentos populares aos líderes políticos.

O vereador passou 30 anos no Campo Verde, onde constituiu família e tem grande força eleitoral.

Fazendo jus ao jargão de sua proposta, o político tem em sua conta a precursora luta em favor do desfavelamento da Capital e da pavimentação do Bairro Nova Lima e Região. Ele presidiu a Comissão de Representação de Favelas participando ativamente do Programa de Desfavelamento, regularizando mais de 50 favelas na Capital.

Com 1 milhão de assinaturas de famílias carentes do Brasil — sendo 20 mil do Estado de Mato Grosso do Sul — como Diretor da Região Centro Oeste da Confederação Nacional de Associações de Moradores (Conam), representou o Estado em Brasília para a construção de mais habitações populares. Participou ativamente de todos os Conselhos Municipais e Estaduais. Carlão atuou como Presidente da União Campo-grandense de Associações de Moradores em Favelas, Assentamentos e Núcleos Habitacionais (Ucaf), representando a Capital em vários Estados. Foi Diretor Financeiro da Federação das Associações de Moradores do Estado de Mato Grosso do Sul (Famems), no período de 2004 a 2007, elaborou a reorganização das Uniões Municipais, onde foram criadas e fundadas diversas Uniões Municipais no interior do Estado.

Esteve líder comunitário e foi presidente da Associação de Moradores do Jardim Campo Verde, onde, por meio de sua articulação, viabilizou para a comunidade: escola, Ceinf, Centro Comunitário, ampliação do Posto de Saúde, regularização fundiária de lotes e casas.

Membro do Conselho Municipal e Estadual do Conselho Nacional das Cidades, contribuiu para a pavimentação asfáltica dos bairros: Jardim Talismã, conseguiu linhas do transporte coletivo aos bairros: Jardim Colúmbia, Jardim Anache, Jardim Campo Belo, Jardim Campo Verde e Jardim Campo Novo. Também viabilizou a construção do Ceinf e da escola do Jardim Colúmbia, duas escolas e um Ceinf no Jardim Anache, um Ceinf e um Posto de Saúde da Família no Bairro Nova Lima.

Atualmente, Carlão reside no Bairro Coronel Antonino, ainda na Região Norte da Capital.

Durante a sua posse na quinta-feira, Carlão lembrou que cada poder (Câmara, Prefeitura), tem seu lugar a estar, que assim a população seria melhor atendida. — Nossa função é ajudar a cidade, trabalhar bastante ajudando a melhorar a qualidade de vida das pessoas. Não podemos ‘prefeitar’, e o prefeito não pode ‘verear’. Os poderes são independentes, mas harmônicos. Esse é o nosso papel. Quero sair daqui depois de dois anos como presidente e ter ajudado vocês, o prefeito, a cidade, o governador e o Estado. Temos que errar menos, com equipe técnica preparada. Os tempos são outros — disse. 

CRESCIMENTO DE FAVELAS

Favela "Só Por Deus" em Campo Grande Favela "Só Por Deus" em Campo Grande. Foto: Tero Queiroz | MS Notícias 

Há 54 favelas em Mato Grosso do Sul, segundo último censo de 19 de maio de 2020, são 6.766 domicílios distribuídos em sete municípios, dados do Departamento Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

A pesquisa: “Aglomerados Subnormais: Classificação preliminar e informações de saúde para o enfrentamento à Covid-19”, apontou que MS tem a menor proporção de favelas entre os estados do País, porém, também indicou havia em 2019 cerca de 13 favelas na Capital, em 2020 saltou para 38 favelas, sendo a da ocupação Homex, próximo ao Bairro Paulo Coelho Machado, na região sul da Capital, a maior em número de domicílios em aglomerados subnormais. São quase mil domicílios na área ocupada de forma irregular. 

Para Carlão, o crescimento de ocupações em 1 ano está refletido a nível nacional.  — A questão do desfavelamento, é a questão do país. O governo com essa política que tem aí, o pessoal ficando cada vez mais desempregado, com os salários achatados e sem condições de pagar aluguel, acaba o pessoal entrando nas favelas — opinou.  

Apesar do estar crescendo de forma acelerada as favelas na Capital, dentre os municípios com mais de 750 mil habitantes, Campo Grande figurou como o de menor percentual de domicílios ocupados em favelas: 1,45%. Goiânia (2,47%), Nova Iguaçu e São Gonçalo (3,46%) são as cidades que mais se aproximam. Belém (PA), Manaus (AM), Salvador (BA), São Luís (MA) e Fortaleza (CE) são aquelas com mais moradias em favelas.

Depois da Capital, Corumbá é a segunda em número de favelas. São seis domicílios em áreas irregulares. Dourados vem na sequência com cinco. A cidade de Aquidauana tem dois espaços de moradia irregular. Novo Horizonte do Sul, Ponta Porã e Sidrolândia possuem uma favela cada.

Carlão reforçou à reportagem que na presidência da Casa poderá fazer ainda mais pela sua missão: “desfavelar”. — Como presidente da Câmara eu vou pautar todos esses projetos que são de interesse da habitação, e de interesse de todos as áreas sociais, e principalmente na área de habitação. Nós temos que trabalhar nesse sentido de fazer com que a Emha realmente cumpra o seu papel de Empresa Municipal de Habitação, realmente faça casa popular, realmente abra loteamentos sociais, para atender a moradia. Porque aí depois as pessoas conseguem construir suas casinhas pouco a pouco né, aquele loteamento embrião, dá a casa com alicerce.