18 de abril de 2021
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Desgastado, Bernal ainda é “osso duro” diante de adversários desarticulados

A temporada sucessória está aberta em Campo Grande. O prefeito Alcides Bernal (PP), eventual pré-candidato à reeleição, por enquanto é adversário apenas de si mesmo. Os mais prováveis adversários não estão sabendo explorar os pontos negativos da sua administração, embaralham-se nos labirintos dos interesses partidários e políticos e confundem-se na complexa administração de projetos individuais e coletivos de potenciais aliados.

As poucas pesquisas publicadas com registro na Justiça Eleitoral e as contratadas para consumo reservado indicam o nome de Bernal entre os primeiros colocados. Há quem estranhe o fato de Bernal pontuar tão bem nessas consultas, tendo tantos desgastes acumulados num governo incapaz de dar respostas a problemas básicos da cidade, mesmo levando em conta o fato de ter ficado 17 meses afastado do cargo.

Alcides Bernal ainda tem força e fôlego para disputas. Entretanto, já não é o fenômeno que aconteceu nas urnas em 2012, quando derrotou Edson Giroto (PR), Reinaldo Azambuja (PSDB) e Vander Loubet (PT), à época três papões de votos, o primeiro oxigenado pelas máquinas governamentais do Estado e da Prefeitura e pelos caciques de maior influência política na Capital, como o governador André Puccinelli (PMDB) e o prefeito Nelsinho Trad (PTB).

Por sua vez, Vander vinha escoltado por dois dos mais expressivos nomes locais da legenda, o senador Delcídio Amaral e o ex-governador Zeca do PT, além da associação ao respaldo da ilustre e poderosa correligionária, a presidenta Dilma Roussef . A pulverização  de candidaturas levou a decisão para dois turnos e em ambos Bernal aplicou contundentes surras eleitorais nos concorrentes. Sua vitória nutriu na opinião pública a expectativa de que ele se afirmaria como a mais forte e promissora estrela da nova safra política sul-mato-grossense.

Essa expectativa aos poucos começou a perder intensidade. Quando foi deposto do cargo, em março de 2014, o prefeito havia tido um ano e dois meses para demonstrar minimamente sua capacidade para cumprir as promessas de campanha. Não aproveitou a oportunidade. Com a cassação, todavia, ganhou excelentes argumentos para justificar a falta de realizações fundamentais e a presença abundante de problemas novos e antigos: transferiu responsabilidade e caprichou no vitimismo.

OS CULPADOS - Na avaliação de Bernal sobre seu primeiro e caótico período de gestão, os antecessores seriam os culpados pelos desacertos gerenciais (greves de servidores, precarização de serviços públicos, inchaço da folha e a deterioração progressiva das estruturas urbanas de mobilidade, transporte e segurança). E os vereadores – a quem tratou como inimigos - receberiam dele a conta pelo restante do déficit administrativo, incluídas a ausência de articulação com a sociedade e a montagem do processo que resultou em seu afastamento, num cenário enlameado por denúncias, operações policiais, contendas judiciais e um clima de incertezas, perplexidade e desolação na que hoje é chamada pela mídia nacional de “capital dos buracos”.

No dia 25 de agosto do ano passado uma liminar da Justiça devolveu a Bernal o cargo de prefeito, 17 meses depois de sua cassação. Desde então, transcorridos cinco meses, o quadro administrativo se mantém como dantes e sequer delineia alguma esperança de melhoras substanciais. Os buracos tomam conta da cidade, as despesas engolem a receita e não há muito tempo – nem previsão de recursos – para captar investimentos milagrosos. O prefeito fia-se no imprevisível desempenho da arrecadação e na incógnita de recursos federais, em grande parte contingenciados.

SOBREVIDA - Com tudo isso a seu desfavor, o prefeito ainda se mantém vivíssimo e respirando. Suas reservas de oxigênio vêm de fonte própria – a caneta –, das recentes decisões da Justiça dando sobrevida à liminar que lhe restituiu o mandato e de matrizes inimigas. É isso mesmo. Partidos e políticos interessados em impedir a reeleição de Alcides Bernal não conseguem desvencilhar-se de seus próprios embaraços e patinam em complicações que poderiam estar resolvidas.

Exemplos emblemáticos dessa marcha travada são o PSDB, o PMDB e o PT. O partido do governador Reinaldo Azambuja não entrou em 2016 com um projeto ou uma opção bem delineada para dar à sucessão local o aceno vigoroso e investido da autoridade que se confere naturalmente a quem vence uma eleição estadual. O nome mais evidente seria o da vice-governadora Rose Modesto, mas as sombras a sua pré-candidatura estão alinhadas, especialmente após a filiação do deputado Beto Pereira, que deixou o PDT com o propósito de ser apadrinhado por Azambuja para ter a indicação partidária. O fogo amigo não tarda ou, segundo se especula, já começou, mas permanece abafado.

No PMDB, a insistência de Puccinelli de não brigar pela Prefeitura e a anunciada saída do deputado Marquinhos Trad puseram o partido numa ciranda perigosa. Nomes não faltam: o senador Waldemir Moka, a vereadora Carla Stephanini e o deputado federal Carlos Marun estão disponíveis, mas nenhum deles empolgou além dos limites partidários. No PT a prisão do senador Delcídio Amaral e a retirada de Zeca da cena sucessória deixaram o partido à própria sorte, apesar de possuir nomes de peso como o deputado Pedro Kemp e a ex-primeira-dama Gilda dos Santos.

Quem poderia estar faturando o maior lucro em todo esse “imbróglio” seria o ex-prefeito Nelsinho Trad, do PTB. Mas nem ele se impõe para consolidar sua pré-candidatura – talvez porque tema um confronto familiar de maiores proporções ou por prevenir-se do constrangimento de ser instado pelo irmão, Marquinhos Trad, a retirar-se da arena de embates e contentar-se com o papel de coadjuvante de luxo. Um enredo que dá a Bernal um motivo bastante justificado para sorrir. Ainda que seja o sorriso de um náufrago, mas não deixa de ter graça.