19 de junho de 2021
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A dois meses da eleição, consenso na Assembléia começa a tropeçar

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A dois meses da eleição, consenso na Assembléia começa a tropeçar Em fevereiro vindouro acontecerá a eleição para a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa. Os únicos eleitores são os 24 deputados estaduais eleitos este ano. A rigor, todos têm direito ao propósito de substituir o atual presidente, Jerson Domingos (PMDB), que não buscou a reeleição e preferiu outro caminho, talvez mais confortável: uma vaga no Conselho Deliberativo do Tribunal de Contas.

Além de Jerson, com cinco mandatos, outro importante político deste singular e restrito processo eleitoral é Londres Machado (PR). Ele também não quis ampliar sua escala de recordes como o maior detentor de mandatos consecutivos do país: são 12, o primeiro deles como vereador em 1968 e depois deputado estadual desde 1970. Londres, em seis vezes, e Jerson em três, acumulam nove investiduras como presidentes da AL, todas sem a necessidade de disputar o cargo.

E agora, quando Jerson e Londres, seguramente dois dos mais influentes políticos ainda em atividade, saem de cena, a tradição de consenso para o corpo dirigente da AL começa a ser ameaçada. A rigor, duas pré-candidaturas estariam postas desde que se tornaram conhecidos os resultados das eleições passadas: as de Júnior Mochi (PMDB) e Zé Teixeira (DEM). A primeira, com apoio declarado do governador André Puccinelli; a outra, com a lógica de um aval tácito do eleito para comandar o estado a partir de 1º de janeiro, o tucano Reinaldo Azambuja.

HOJE E AMANHÃ – As conversas que antecedem a formação das chapas e a disputa em si – que será em fevereiro – não se resumem à negociação de cargos na Mesa. Outros dois processos determinantes de poder na engrenagem político-partidária também são pontuados: a construção da governabilidade político-administrativa para o governador que assumirá em janeiro e as eleições de 2016. Os 24 eleitos não despregam os olhos de suas necessidades conjunturais, que incluem expectativas de curto e médio prazos, como a mais-valia do apoio a Azambuja e a montagem do tabuleiro da sucessão municipal. Alguns parlamentares têm declarado interesse nas prefeituras de suas bases eleitorais, como o peemedebista Marquinhos Trad, em Campo Grande,e o peessebista José Carlos Barbosinha, em Dourados.

Para ser presidente deste colegiado de 24 pessoas, é fundamental obter a maioria simples, metade mais um: 13 votos. Pelo regimento interno, se houver disputa e empate entre os concorrentes, ganha o mais idoso. Mochi é mais moço que Teixeira e eles ainda não propagam maioria, só admitem estar conversando com todos os colegas. Nas contas de peemedebistas, Mochi já havia conseguido até o meio da semana um compromisso de apoio com nove deputados. Seriam ele e mais cinco do PMDB, um do PTdoB (Márcio Fernandes), um do PDT (George Takimoto), um do PR (Grazielle Machado) e um do PSB (Barbosinha).

Mas há problemas para chegar ao mínimo de 13 ou a uma zona de conforto com ao menos 16 votos fechados. No PDT, Mochi conta com o voto de Takimoto, mas a bancada possui outros dois deputados (Felipe Orro e Beto Pereira), que sonham criar um bloco com os quatro petistas (Amarildo Cruz, Pedro Kemp, João Grandão e Cabo Almi). Na soma total de bancadas, PDT e PT seriam sete votos, quase um terço da casa, uma força expressiva e de peso decisivo, tanto que nos últimos dias passaram a merecer atenção diferenciada dos próximos governistas.

É improvável que o PT ceda a eventuais assédios do governo de Azambuja, mas o PDT não teria dificuldades em continuar com sua filosofia de, quando pouco, não atrapalhar e, de preferência, contribuir com a sustentação do Governo na Assembleia. Para complicar o cenário de conversações, outras quatro manifestações de candidaturas fluem nos corredores: Onevan de Matos e Flávio Kayatt, do PSDB; Mara Caseiro, do PTdoB; e Paulo Corrêa, do PR. Nenhum, a exemplo de Mochi, teria hoje condições e fatos para gargantear apoio da maioria para suas pretensões. Mas querem entrar no páreo. O deputado Eduardo Rocha, do PMDB, já avisou que não quer candidatar-se a prefeito de Três Lagoas e acalenta o sonho de disputar uma vaga na Câmara dos Deputados em 2018. Por isso, evita sequer comentar a hipótese de entrar na briga pela presidência da Casa.

Onevan, um dos mais experientes parlamentares estaduais, vai brigar no mesmo terreno onde os demais concorrentes depositam suas esperanças: o da necessidade estratégica de Reinaldo Azambuja em buscar sustentação política para seu governo, ainda que neste processo estejam embutidas algumas complicações que, como bombas de efeito retardado, podem explodir nas eleições municipais de 2016.

CAUTELA - Com todos esses ingredientes, a previsão inicial de consenso, a mesma e benéfica solução digerida e saboreada por Londres e Jerson passa a ser questionada. “Aqui, até deputado que tem um único voto, só o seu, tem o direito de querer e de tentar ser o presidente. Mas o que manda é a prudência. É difícil e arriscado demais para qualquer um de nós cantar vitória antes do tempo ou contar com votos que só serão dados em fevereiro”, confidenciou um dos parlamentares reeleitos em outubro. Para esse deputado, tanto Azambuja quanto Puccinelli e até o PT – forças que estão de olho em 2016 – não podem subestimar a importância e os entendimentos que envolvem a eleição da Mesa: “Devem pisar com cuidado um terreno onde todos nós, deputados, mesmo os que dependem dos seus líderes ou do próprio governo, precisamos estar seguros da autonomia para decidir como queremos montar nosso próprio mosaico dirigente no parlamento”.

Na atual composição da AL-MS 15 deputados foram reeleitos: Marquinhos Trad (PMDB), Paulo Corrêa (PR), Junior Mochi (PMDB), Zé Teixeira (DEM), Eduardo Rocha (PMDB), Felipe Orro (PDT), Onevan de Matos (PSDB), Lídio Lopes (PEN), Mara Caseiro (PTdoB), Márcio Fernandes (PTdoB), Maurício Picarelli (PMDB), Cabo Almi (PT).

Redação