26 de outubro de 2021
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ARTIGO | POLÍTICA

Golpistas em defesa de interesses inconfessáveis

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A Bolívia, mais uma vez, é cenário de uma tentativa de golpe pelas mesmas hordas parasitárias de sempre: traficantes, contrabandistas e sonegadores. Eles defendem a manutenção da impunidade, seus privilégios e a ilegalidade que sempre os beneficiou ao longo da história, sobretudo no período colonial e no cinicamente chamado de "republicano" (à exceção de 1952-1958, 1970-1971 e 1982-1985).

Em defesa da ilegalidade, dos privilégios e da impunidade. Essa é a tríade da ‘mobilização’ (na verdade, tentativa de blecaute) dos chamados ‘cívicos’ (pero no mucho) de Santa Cruz de la Sierra, Puerto Suárez, Trinidad, Cochabamba, Sucre etc. Perdedores há mais de 20 anos em sucessivas eleições presidenciais (porque não têm agenda nacional, só a defesa de interesses corporativos e quadrilheiros), sem apoio popular, eles recorrem a uma pauta golpista e trambiqueira. 

Afinal, quem já conhece Luis Fernando Camacho (famigerado “¡Qué macho!”) e os vínculos de seu pai com as narcoditaduras de Hugo Banzer Suárez e Luis García Meza (apoiadas por Klaus Barbie, o Carniceiro de Lion) não põe a mão no fogo por ele e seus croatas, a começar por Branko Marinkovic e assemelhados, ocupantes do primeiro escalão do desgoverno da genocida Jeanine Áñez Chávez, hoje atrás das grades.

Pude testemunhar, durante o período em que o desgoverno golpista de Jeanine Áñez (com o apoio declarado de Carlos D. Mesa Gisbert, Arturo Murillo, Branko Marinkovic, Fernando López, Luis Larrea e as velhas raposas da oligarquia boliviana, como Jorge Tuto Quiroga e Manfred Bombón Reyes Villa, herdeiros do espólio do sanguinário Hugo Banzer Suárez e aliados), a RKC (https://radios.com.bo/rkc-shinahota/) se revelou uma incansável rede de Jornalistas e Radialistas (com letras maiúsculas) que mantiveram uma resistência digna e valente, informando e combatendo as mentiras do desgoverno entreguista dos fantoches de Trump, Bolsonaro, Macri e Piñera.

Nove meses depois da posse do governo democrático do Presidente Luis Arce Catacora, quando a Bolívia recupera suas finanças saqueadas pelos criminosos que tomaram de assalto os cofres do Estado Plurinacional, os golpistas voltam a tentar paralisar as atividades econômicas para inviabilizar a democracia, como ontem (dia 11) e hoje (dia 12) vem ocorrendo na fronteira entre Corumbá (MS) e Puerto Quijarro (SC), na fronteira Brasil-Bolívia, onde foram vistos na véspera apoiadores de Bolsonaro circulando para dar (sic) ‘apoio logístico’ aos baderneiros, traficantes, contrabandistas e sonegadores que nunca trabalharam e, pelo contrário, submeteram as amplas maiorias da população a um estado de saque e de exploração que vigeu por décadas, senão quase dois séculos de existência do Estado boliviano, desde 1825.

E é bom que se esclareça que não há ‘comitê cívico’ que não tenha as mãos manchadas de sangue de 2019: todos esses ‘cívicos’ não passam de cínicos fantoches de interesses inconfessáveis, de olho no lítio, nas jazidas de gás natural e petróleo e nas terras férteis da Bolívia (https://www.brasildefato.com.br/2021/08/18/novo-relatorio-confirma-que-houve-massacres-e-abuso-policial-durante-golpe-na-bolivia-em-2019). A mobilização, como em 2019, é para garantir as ilegalidades por meio das quais sempre saquearam o Estado e o Povo Boliviano, que mostrou nas urnas sua altivez e dignidade e apeou contundentemente todo(a)s o(a)s envolvido(a)s na trama para saquear a Bolívia, tendo emissários de Trump (https://theintercept.com/2021/06/18/ex-ministro-bolivia-golpe-eua/) e de Bolsonaro (https://www.poder360.com.br/internacional/bolivia-investiga-se-houve-participacao-de-brasil-e-chile-na-queda-de-morales/), de Macri e de Piñera, como de hábito, nos bastidores.

Para os que não tiveram oportunidade de acompanhar a renhida resistência popular ao golpe de 2019 e à golpista Jeanine Áñez durante seu desgoverno em 2020, nesse nefasto período, esta fronteira (Corumbá, MS) e a de Cáceres (MT) puderam registrar o aumento significativo do tráfico de cocaína, além das toneladas apreendidas em território paraguaio nesse ínterim. É essa a verdadeira razão da tentativa de golpe nestes dias protagonizada pelos cívicos de Santa Cruz, porta-vozes de traficantes, contrabandistas, sonegadores e parasitas das oligarquias bolivianas, que desde a ditadura de Hugo Banzer Suárez fizeram do narcotráfico fonte de financiamento enquanto a população boliviana era submetida à fome e à tortura dessa ditadura sanguinária.

À exceção de diários e semanários bolivianos dignos de respeito, a maioria dos jornais da Bolívia controlada pela oligarquia midiática que por décadas manipulou a informação em todo o seu território escondeu de seus leitores a censura sofrida pela então ‘primeira-dama’ Yolanda Prada de Banzer no Brasil. No início dos anos 1970, quando a chancelaria brasileira enviou um telegrama ao então ditador Banzer com a decisão do governo de então de retirar o status diplomático da primeira-dama, de cuja comitiva havia sido apreendida uma valise com cinco quilos de cocaína num voo oficial. Na época, a censura à imprensa havia proibido jornais como a Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil dar o furo, mas o aguerrido O Pasquim havia furado o bloqueio e deu a nota, que foi traduzida e publicada pelo memorável Presencia, de La Paz. O saudoso Jornalista René Bascopé Aspiazu, sucessor do Padre Luis Espinal no semanário Aquí, denunciou esse episódio em seu emblemático livro La veta blanca (“O veio branco”), de 1983, em que prova, com farta documentação, os vínculos de Hugo Banzer Suárez com o narcotráfico.

Como não compreender como legítima a vitória retumbante de um presidente eleito a despeito de uma conjunção de fatores adversos em toda a campanha eleitoral, além das hoje provadas tentativas de eliminação (inclusive física) dele e de seus principais candidatos a cargos majoritários e proporcionais numa eleição realizada sob total controle das forças golpistas? Como não enxergar a capacidade de gestão financeira e institucional de Luis Arce Catacora, que em menos de seis meses de mandato já recolocou as finanças bolivianas nos trilhos do desenvolvimento com soberania, sem entregar as jazidas de lítio e de petróleo e gás natural aos abutres do império, ávidos para controlá-las, como no período chamado republicano, mas que nunca deixou de ser colonial, pelo servilismo das elites ‘brancas’ (na verdade, entreguistas) às potências coloniais?

Finalmente, compartilho com o(a)s Jornalistas independentes e comprometidos este link (https://radios.com.bo/rkc-shinahota/), uma das confiáveis fontes para cobrir os fatos que neste momento ocorrem na Bolívia. Não permitam a proliferação de fake news dos cínicos (coadjuvantes do desgoverno de Jeanine Áñez). Não é demais lembrar que quando se faz uma cobertura isenta, há de se cobrir todos os lados da questão, não só a desbotada narrativa dos mafiosos endinheirados ligados ao establishment do vizinho país, cujo Povo deu demonstração eloquente de dignidade e lealdade a sua soberania, tanto popular quanto plurinacional.

AUTOR: *Ahmad Schabib Hany é jornalista, historiador e ativista de movimentos sociais e democráticos

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