26 de outubro de 2020
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Kassab dá como certa candidatura de Meirelles

O ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles chegou com uma hora de atraso à sala vip de uma empresa de voos fretados. O jatinho e seu anfitrião, o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), estavam à disposição desde 9h da manhã.

"Saí do Egito, passei em Paris, fiquei um dia e voltei. Fiz a barba, troquei de camisa e estou aqui", disse, mais como quem exibe o itinerário do que quem justifica a demora. Kassab e ele se cumprimentaram de modo protocolar.

A relação dos dois começou quando Kassab ainda era prefeito e Meirelles presidia uma fundação de projetos pela revitalização do centro de São Paulo. Embora convivam há anos, não exibem intimidade. Conversando, mais parecem sócios do que colegas.

Quando Kassab fundou seu partido, o PSD, Meirelles foi apresentado como uma das filiações mais valorosas.

Goiano, o ex-presidente do BC já havia feito outras incursões no universo político. Em 2002 ele se elegeu deputado federal pelo PSDB, mas não chegou a assumir o cargo. Foi fisgado pelo ex-presidente Lula com a proposta de comandar o Banco Central.

Agora, Kassab, que se lançou como pré-candidato ao governo do Estado, apresenta Meirelles como o nome de seu partido para o Senado. "Minha primeira oferta foi para ele concorrer a governador. Taxativo, disse não. Sobre o Senado, aceitou conversar", disse, ao lado de Meirelles, já a bordo do jatinho.

O principal projeto de Kassab é garantir uma bancada grande para o PSD na Câmara. O partido nasceu com 51 deputados. A aliados, ele estima eleger entre 45 e 60 parlamentares este ano.

É o número de deputados que define a fatia do fundo partidário que uma sigla recebe e o tempo de TV que ela dispõe na propaganda eleitoral. Dois ativos valiosos.

Hoje, o PSD tem quase dois minutos no horário eleitoral. O tempo de propaganda e a filiação de Meirelles fizeram com que Kassab passasse a ser procurado pelos principais atores na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.

O prefeito, que deixou o cargo com a popularidade baixa e não elegeu seu sucessor, é assediado pelo PT, PSDB e PMDB.

Aliados do governador Geraldo Alckmin (PSDB) pregaram uma reaproximação com Kassab para que Meirelles pudesse ser vice na chapa tucana. O problema é que Alckmin e Kassab têm um passivo grande de desentendimentos. A desconfiança é mútua.

Paulo Skaf, do PMDB, é outro que tem conversado com o ex-prefeito. Existem diversas versões sobre o teor dessas negociações. A mais recente é de que Kassab poderia ser vice de Skaf –o que ele nega. Meirelles seria o candidato dos dois ao Senado.

O PT tem um candidato ao Senado, Eduardo Suplicy, com quem Lula teve algumas rusgas –Suplicy quis disputar uma prévia com o ex-presidente pela candidatura ao Planalto em 2002, o que foi considerado uma afronta.

"O que posso dizer é que o ex-presidente sempre me incentivou a atuar na política",desviou Meirelles.

Antes de se filiar ao PSD, Meirelles consultou o ex-presidente. Só após o aval, concluiu a negociação.

Enquanto não há definição, o ex-prefeito mantém Meirelles em evidência, negocia com os outros partidos, e infla no executivo a sensação de que ele pode tudo.

"No começo, muita gente no partido falava no Meirelles para candidato a presidente. Ele causa um impacto, inclusive na mídia. Se ele define por ser candidato, sairá com muita densidade política", disse o prefeito, já a bordo do jatinho.

A interlocutores, Kassab já disse que se Meirelles quisesse concorrer ao Bandeirantes, abriria mão da candidatura para ser apenas presidente do PSD.

Os dois falaram sobre suas expectativas e dúvidas para esta eleição durante uma viagem a Ribeirão Preto, acompanhada pela Folha. Eles têm dez visitas programadas às principais regiões do Estado.

Além do ex-prefeito e do ex-presidente do BC, estavam no avião o sindicalista Ricardo Patah, presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores), a ex-vice-prefeita de São Paulo, Alda Marco Antonio, e a mais nova aquisição do PSD de Kassab, o ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, Cesário Ramalho.

"Essa é a chapa dos meus sonhos", disse o ex-prefeito. Alda seria sua vice e, com Meirelles candidato ao Senado, Patah seria o suplente. "O Cesário seria um ótimo ministro da Agricultura", completou, contemplando o quinto passageiro de seu voo. "Sou um ótimo caça-talentos."

Assim que o ex-prefeito terminou de exibir seus quadros, Meirelles o interrompeu: "Eu ainda não sei se quero ser candidato. Tenho uma série de responsabilidades no setor privado, orientações junto a governos de outros países. Preciso ver em que função posso contribuir mais".

Ele atua em uma série de negócios. Integra o conselho do terceiro maior banco de investimentos do mundo, foi contratado como consultor econômico pelos governos do Egito e de Abu Dhabi para auxiliá-los na recuperação da última grande crise econômica, e é presidente do conselho da JBS, maior empresa de carnes do mundo.

Quando desembarcaram, fazia cerca de 32 graus. Meirelles, precavido, estava com a pele do rosto um pouco esbranquiçada por causa da aplicação de filtro solar. Subiu no palanque, aos gritos de "aceita, aceita!" e disse estar emocionado.

Deixou de lado o "economiquês" e se apresentou como responsável pelas políticas que permitiram a ascensão social. Sobre o trabalho para conter a inflação, disse que era para "fazer o salário do trabalhador durar o mês inteiro". Terminou o discurso mandando um "beijo no coração" da plateia.

"Não sabe se é candidato mas está com um discurso bem palanqueirinho, né?", brincou Kassab.

Folha de São Paulo