11 de maio de 2021
Campo Grande 34º 18º

"TERREMOTO NO GOVERNO"

Leitura crítica sobre decisão do STF preocupa Moro e Bolsonaro

Jornalista do The Intercept prepara novas revelações sobre a Vaza-Jato

A- A+

À primeira vista, a rejeição do Supremo Tribunal Federal a dois recursos impetrados em favor do ex-presidente Lula deveriam agradar toda a base bolsonarista e os que têm no  ministro Sérgio Moro um símbolo de luta contra o que representam o PT e a esquerda. Entretanto, calibrando as comemorações e evitando o delirante entusiasmo de seus fãs, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o ex-juiz da Lava Jato foram alertados por assessores e o serviço de inteligência sobre os problemas que a manutenção de Lula na cadeia pode causar.

Na opinião dos experts em crises e estratégias, a rejeição do pedido de liminar para a soltura provisória do ex-presidente foi o pior resultado para os interesses imediatos do Planalto. A avaliação pode ser resumida com simplicidade: a liminar julgada ontem era para tirar Lula da prisão até agosto, quando o STF colocará em pauta o julgamento do mérito da sentença que o condenou, considerando as peças processuais já existentes e o fato novo gerado pelas publicações do site The Intercept.

Ora, mesmo fora da cadeia, o sistema de soltura solicitado para Lula contém regras comportamentais bastante rígidas. Uma delas o proíbe de exercer atividades externas e de manifestar-se publicamente sobre questões políticas ou sua própria situação. É com este silêncio que o Planalto neutralizaria Lula, até porque, entre a hipotética decisão do STF e a retomada da pauta de julgamentos após o recesso, o movimento “Lula Livre” perderia a força.

Jornalista fundador do jornal The Intercept, Glenn Greenwald em audiência pública na Câmara dos Deputados. Foto: Gustavo Bezerra. 

De acordo com o analista Leonardo Stoppa, o maior interessado na soltura provisória de Lula era Moro. “Se o Lula fosse solto agora o material da Intercep seria quase inútil, seria esquecido. A grande parcela da sociedade que vê Lula como preso político e acha injusta sua prisão está ansiosa para conhecer todo o teor dos vazamentos dos diálogos entre Moro e os procuradores do Ministério Publico e confirmar com isso que a prisão dele foi ilegal”, observa Stoppa.

Para ele, ao completar o raciocínio, o clamor dessa parte da sociedade diminuiria de intensidade se Lula fosse liberado, ainda que provisoriamente, em caráter de liminar, porque perderia o impacto esta sensação de injustiça que mobiliza os defensores do ex-presidente.  De acordo com Stoppa, a partir das publicações do site The Intercept não há como impedir que o imaginário coletivo tenha a convicção que o julgamento de Lula é agora também um julgamento das eleições de 2018. A suspensão dos direitos políticos do ex-presidente não só o impediu de candidatar-se, mas criou as condições básicas para favorecer a concorrência e beneficiar a candidatura de Bolsonaro.

MAIS BOMBAS

O Brasil e vários países acompanharam na terça-feira, 25, pela TV ou mídias sociais, a audiência na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara de Deputados, na qual o jornalista e advogado Glenn Greenwald, fundador do The Intercept Brasil, respondeu questões formuladas pelos parlamentares. Em síntese, ele afirmou estar consciente e seguro do que publica e da responsabilidade profissional de certificar-se da veracidade dos conteúdos que divulga.  

Greenwald criticou a conduta do ex-juiz érgio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol, da força tarefa da operação Lava Jato, na qual, segundo ele, o limite entre Justiça e procuradoria foi ultrapassado. “O material mostrou, e vai continuar mostrando, que Sérgio Moro quebrou o Código de Ética diversas vezes. Era o chefe da força- tarefa da Lava Jato, o chefe dos procuradores, e fingia ser um juiz neutro. Isso é um processo totalmente corrupto”, disparou.

“Nosso papel como jornalistas é informar o público, reportar material de interesse público e fortalecer a luta contra a corrupção. Mas, é impossível lutar contra a corrupção usando comportamento corrupto. É impossível, em uma democracia, ter Sérgio Moro ocupando um cargo público tão importante como o de ministro da Justiça”, emendou. O jornalista argumentou que Moro e Dallagnol utilizam de uma tática cínica para passar a ideia de que o material não é autêntico e seria produto de um crime cibernético. Greenwald enfatizou o direito ao sigilo da fonte jornalística e criticou que os servidores públicos não tenham preservado as conversas em seus históricos de mensagens.

VIGILÂNCIA

Glenn é um dos jornalistas mais respeitados do planeta. Vem conquistando na carreira as mais cobiçadas honrarias em reportagens investigativas, como o prêmio Pulitzer de Jornalismo. Ele explicou que antes de publicar as informações que recebeu de uma fonte anônima faz questão de conferir, reconferir e periciar os áudios, imagens, fotografias e documentos. “Temos um farto material, que está sendo publicado à medida que fazemos esta verificação criteriosa e responsável”, reforçou.

No caso Moro-Dalagnol, o The Intercep está seguindo os mesmos métodos jornalísticos usados no caso de Edward Snowden, o analista de sistemas que pôs em polvorosa todo o serviço secreto, a Nasa e o governo dos EUA ao fornecer a Glenn informações sobre a existência de um programa de vigilância em massa com o qual os norteamericanos teriam um sistema para monitorar e controlar o planeta.

“Eu e minha família estamos recebendo muitas ameaças graves, inclusive de morte. Mas, eu acho que a ameaça mais grave é a que está vindo do próprio ministro, que nos chama de aliados de hackers. Ele está mentindo. A única coisa que nós fizemos foi receber os documentos”, informou. Gleen é casado com o deputado federal Davi Miranda (PSOL/RJ). Advogado especialista em direito constitucional pela Universidade de Nova York, lamentou e rebateu a tentativa de desqualificar seu trabalho pela justificativa de ser estrangeiro. Radicado no Brasil há 15 anos, chamou o país de lar, onde, segundo ele, pretende morar para sempre, com marido e filhos.