20 de abril de 2021
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SÍNDROME DO EX

Miglioli mira Pasta milionária e aliados temem nova "virada de cocho"

Governo faz repatriação arriscada e intriga partidos e apoiadores que foram atacados pelo ex-secretário

É voz corrente e já saiu dos bastidores que o governador Reinaldo Azambuja (PSDB) não impôs óbices à hipótese de abrir espaços para Marcelo Miglioli no governo, dentro de um processo de aproximação que avança e vem intrigando os meios políticos. Para aliados do governador, militantes do PSDB e de partidos aliados, o engenheiro e ex-secretário de Obras está se articulando e trabalhando febrilmente na perspectiva de abrir caminho para retomar a Pasta, hoje uma das mais poderosas do governo.

O que preocupa os aliados não é especificamente essa reaproximação, mas o que ela pode implicar de desconstrutivo nos projetos políticos e administrativos de Azambuja. O parâmetro de tanto receio está na ficha pessoal e nas experiências recentes protagonizadas por Miglioli, principalmente depois do fracasso retumbante de suas candidaturas — a primeira ao Senado, em 2018, e a segunda a prefeito de Campo Grande, em 2020, ficando em ambas longe do triunfo.

Após as duas derrotas eleitorais  — as primeiras que travou em sua vida pública  — Miglioli fez de tudo para demonstrar que estava desgarrado e em linha oposta à das pessoas e forças políticas que apostaram em sua projeção, sobretudo o governador Reinaldo Azambuja e o PSDB. Mal terminou a eleição de 2018, rasgou a ficha de filiação ao partido, chutou sua curta história na gestão de Azambuja e mudou-se de Mato Grosso do Sul, atirando contra os ex-companheiros e responsabilizando-os pelo revés nas urnas.

O REGRESSO

Dois anos depois, Miglioli regressou ao Estado propagando mudanças e anunciando mudanças. Filiado a outro partido, o Cidadania, cujo comando passou a controlar, lançou-se candidato a prefeito. Apresentou-se como a grande alternativa renovadora em Campo Grande, desferindo violentos petardos contra o prefeito Marquinhos Trad (PSD) e não poupando nem mesmo os seus aliados, entre os quais o governador.

O objetivo de Marcelo Miglioli era mostrar que não tinha vínculos nem compromissos com os líderes e dirigentes atuais e que sua independência o credenciou a fazer profundas mudanças no modelo de gestão em Campo Grande. O discurso não colou  — e uma das razões era sua própria ficha corrida, já que não poderia impedir o surto de desconfiança e dos incômodos carimbos que recebia, entre os quais os de "traidor", "desleal" e ingrato. No governo e no PSDB era visto como alguém que "vira o cocho" ou "cospe no prato" em que comeu.

Hoje, há dúvidas sobre os desejos que movem Miglioli nesta ciranda que faz para conquistar graças renovadas do governo. Há certezas, de figuras esclarecidas e bem-informadas, que os olhos do ex-secretário estão focando a Pasta mais forte e mais abastecida financeiramente.

Miglioli não é juvenil. Sabe que a Secretaria de Obras está girando o eixo de um dos maiores e mais abrangentes programas de investimentos na história de Mato Grosso do Sul. Projeta-se na planilha de obras nos dois últimos anos do segundo mandato de Azambuja desembolsos que devem girar em torno dos R$ 5 bilhões a R$ 6 bilhões em verbas federais e estaduais.

ALTERNATIVAS

Depois que o vice-governador Murilo Zauith (DEM) pediu exoneração do cargo e o adjunto assumiu temporariamente, desencadeou-se a especulação sobre quem seria o próximo titular da secretaria. A lógica política e administrativa, tendo em vista a condução de um planejamento estratégico vitorioso, indicava como melhor opção ao governador a designação do titular da Secretaria de Governo e Gestão Estratégica, Eduardo Riedel. Se fosse ele o escolhido, não haveria objeção ou recortes negativos nem mesmo entre oposicionistas. Todavia, na dinâmica em curso paira a impressão de que Riedel não estaria disposto a deixar a Segov ou acumular cargos. E não se sabe qual o posicionamento do governador. Outros nomes já foram ventilados, como os do ex-secretário de Administração, Roberto Hashioka, e de um deputado estadual. Mas nenhuma dessas soluções havia avançado até o final desta semana, o que pode ser uma sinalização para Miglioli seguir avançando com suas articulações

 O ex-secretário e ex-candidato a senador e a prefeito havia saído de um governo que marca presença com muitos investimentos e movimenta cifras consideráveis nas obras. Mas Miglioli não ficou a ver navios. Continuou operando, inclusive no âmbito das possibilidades abertas pelo fundo partidário quando ingressou no Cidadania para disputar a prefeitura. Agora, com a eleição perdida, redescobre o caminho que já lhe foi íntimo no Parque dos Poderes. Resta saber se terá - entre os antigos amigos, parceiros e aliados que o conhecem de ontem e de hoje - quem se dispõe a acompanhá-lo.

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