25 de fevereiro de 2021

Impeachment

Na expectativa por Temmer, PMDB-MS engrossa tom anti-Dilma

Do governador André Puccinelli aos escalões mais modestos de representação e liderança, o PMDB de Mato Grosso do Sul adota nos últimos dias linguagens cada vez mais agressivas em relação ao PT e ao governo de Dilma Roussef. Desde que o partido se descolou da base de sustentação do Planalto, a palavra-de-ordem para os peemedebistas guaicurus é atacar sem piedade tudo que se relacione ao PT, ao governo petista e a seus principais porta-vozes.

É evidente que existe um componente decisivo nesta postura: é a sobrevivência política e eleitoral, que para os peemedebistas de um Estado e de uma cidade nitidamente conservadores significa ser favorável ao impeachment da presidenta. Mas há outro fator igualmente estimulante aos membros da legenda que sucedeu ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro): é a expectativa de investidura de Michel Temmer, vice-presidente da Republica e presidente licenciado da Executiva Nacional do partido.

Se Dilma for afastada, é o vice-presidente Michel Temer quem assume. Com ele já estão acenadas algumas compensações para a acomodação de aliados nas vagas que se abrirão em diversas unidades regionais da União. Nesse mesmo processo outras perspectivas se abrem para os sulmatogrossenses do PMDB: a chance de avançar sua territorialidade nos cargos federais, vários deles bastante apetitosos, como o Incra e a Funasa.

Além de Michel Temmer, outra figura-chave para o fortalecimento político do PMDB de Mato Grosso do Sul é o deputado federal Eduardo Cunha, presidente da Câmara. Embora seja pivô de vários escândalos, com denúncias de desvio de verba publica e propinas, entre outros crimes, Cunha pode ser beneficiado com a destituição de Dilma e a unção de Temer. A esperança é que Temer repactue o governo e os demais poderes, abrandando, em nome da nova governabilidade, a intensidade da Operação Lava-Jato, tirando Cunha e outros envolvidos da alça de mira da Justiça e da própria Polícia Federal.

Se Cunha for mesmo salvo da guilhotina, quem ficará muito bem prestigiado em Mato Grosso do Sul é o deputado federal Carlos Marun. Ele é fiel escudeiro de Cunha e cumpre todas as manobras urdidas para desacelerar o rito regimental que enquadraria e praticamente condenaria o presidente da Casa à cassação ou o exporia até a uma ordem de prisão.

Marun pode ganhar de seu “padrinho” a benção para firmar-se como candidato do PMDB à Prefeitura. Não tem capilaridade para disputar, mas com a escolta de Cunha supõe que poderá melhorar seu espaço político e crescer em importância na obra de resistência do PMDB ao comentado desejo do governador tucano Reinaldo Azambuja de liquidar o peemedebismo, intento iniciado quando ganhou a sucessão estadual em 2014. Hoje, o PSDB avança com fome insaciável cooptando lideranças de diversos partidos, entre os quais o PMDB, como foi o caso do deputado federal Geraldo Resende, que aninhou-se com os tucanos para disputar a Prefeitura de Dourados.

Só falta, porém, combinar tudo isso com a população e o eleitorado. Hoje, no caso de Mato Grosso do Sul, onde o PT de Dilma Roussef e do senador Delcídio Amaral sofreram revezes acachapantes, o ambiente é de empolgação pela certeza plantada pela grande mídia de que Dilma está com os dias contados.

Porém, passada a euforia, e na eventualidade de um novo governo, é difícil prever o que pode acontecer. Se a Lava Jato, o Ministério Publico e os tribunais não perderem seu foco e sua intensidade; e se a mobilização moralizadora das ruas conservar seu fôlego e provar que não se trata de movimento direcionado contra o PT, aí o PMDB local estará em palpos de aranha. E isso porque os dois maiores e presumivelmente principais figuras do impeachment, Michel Temmer e Eduardo Cunha, também podem estar agonizando e não sabem.

Não por acaso soam irônicas e desdenhosas as declarações de Marun, o escudeiro-mor de Cunha, sobre os objetivos e as consequências do impeachment de Dilma Roussef. Segundo o deputado, afastar a presidente é mais que uma exigência da ética e da seriedade administrativa, é dar a volta por cima. Com Cunha e Temmer, ambos citados na Lava Jato? E Marun disse mais: “Vamos, sim, dar um golpe na corrupção e apear o PT do poder para salvar o País”. Resta saber como é que Marun vai fazer para dar um golpe na corrupção sem derrubar o amigo e aliado Eduardo Cunha.