26 de fevereiro de 2021
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No meio da “Lama”, vereadores comemoram “absolvição” da Justiça

Para quem temia ser alvo de mandados de prisão, a festa é de quem acredita que agora ri “por último”

O pedido de prisão para as pessoas envolvidas no esquema político-empresarial que cassou o prefeito Alcides Bernal e que são também alvos das operações “Lama Asfáltica” e “Coffe Break”, ambas para apurar desvio de dinheiro publico e outros crimes, só foi dirigido até agora a dois de seus protagonistas: o empreiteiro João Alberto Krampe Amorim dos Santos e o vice-prefeito Gilmar Olarte. Igual providência, porém, não foi solicitada para outros destacados atores desse enredo desenvolvido nos subterrâneos do poder, como o empresário João Baird e os vereadores mencionados nas intervenções policiais e do Ministério Publico que apuram se houve compra de votos para a cassação de Bernal e a investidura de Olarte.

Segundo investigações conduzidas pelo Gaeco (Grupo de Apoio Especial de Combate ao Crime Organizado), João Amorim e João Baird, em combinação com dois terços dos vereadores e a participação de Olarte, montaram toda a engrenagem para degolar o mandato do prefeito Alcides Bernal. A suspeita sobre a existência de uma armação financiada para derrubar o prefeito com anuência da maioria da Câmara foi reforçada com a decisão da Justiça de devolver o cargo ao seu legítimo titular, eleito por mais de 270 mil campo-grandenses (62,6% dos votos válidos).

Na quarta-feira passada, o que a população esperava – prisão de uns e afastamento do cargo de outros - aconteceu pela metade, ou menos que isso, quando foram feitos os primeiros pedidos de prisão para investigados nas operações do Gaeco. O juiz Luiz Cláudio Bonassini, relator do processo, recebeu do MPE o pedido de prisão para Amorim, Olarte e 17 dos 23 vereadores que em março de 2014 votaram pela cassação de Bernal. Porém, só concedeu mandados para Amorim e Olarte, deixando de fora os vereadores Flávio César (presidente da Câmara), Eduardo Romero e Otávio Trad, do PTdoB; Paulo Siufi, Carla Stephanini, Vanderlei Cabeludo e Edil Albuquerque, do PMDB; Jamal Salem, do PR; Chiquinho Telles, Delei Pinheiro e Coringa, do PSD; João Rocha, do PSDB; Edson Shimabukuro, do PTB; Gilmar da Cruz, do PRTB; Aírton Saraiva, do DEM; Chocolate, do PP; e Carlão Borges, do PSB. Outro envolvido, o ex-presidente da casa, Mário César, do PMDB, está afastado do cargo por determinação judicial.

“VOU FESTEJAR” - A decisão de Bonassini para efetuar as primeiras prisões traz para a sociedade uma renovada e otimista expectativa de saneamento ético. Entretanto, fica no ar a inevitável pergunta sobre a situação dos demais envolvidos num caso, cujos indícios, de tão eloquentes em quantidade e qualidade, sugerem que tais deslizes são cometidos por gente (da vida publica ou não) que se fia na impunidade e na influência do poder político e econômico.

Não por acaso, e de forma justificada, 17 dos 29 parlamentares campo-grandenses exultaram na manhã desta quinta-feira ao certificarem que não haviam sido alcançados pela ordem de prisão e sequer seriam afastados do mandato. A comemoração foi intensa e compartilhada, evidentemente que - por compreensíveis precauções - entre quatro paredes. Alguns, porém, não seguraram a aliviada excitação. O vereador Flávio César, presidente em exercício da Casa, deu entrevista proclamando que a Câmara tem contribuído para esclarecer os fatos e elogiando a decisão do Judiciário: “Foi bastante coerente, não havia necessidade de afastamento, o caso está ainda em fase de investigação”.

Não terão sido suficientes – ao menos até aqui - as provas recolhidas em abundância pelo Gaeco (força conjunta de agentes policiais e do Ministério Publico, entre outros órgãos de repressão, controle e fiscalização), com escutas telefônicas revelando nos detalhes a desenvoltura e a falta de escrúpulos de pessoas maquinando formas diversas de improbidade, com o objetivo de auferir vantagens pessoais e políticas, desviando recursos públicos e interferindo criminosamente na estrutura legal e legítima de poder. Se ficar como está, a velha máxima que deve estar na parada de sucessos de quem se considera livre ou acima de qualquer suspeita é aquela mesma: ri melhor quem ri por último.