16 de setembro de 2021
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ARTIGO

Nossas perguntas e nossas claras e ausentes respostas

Será que estas pessoas não percebem que fariam muito melhor ao país se estivessem protestando pela compra de mais vacinas?

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Enquanto escrevo este texto, pelo menos 1 milhão de brasileiros choram seus 270 000 mortos. São pais, mães, filhos, irmãos, sobrinhos, netos, cujas vidas foram ceifadas pela Covid19.

Outros tantos vivem a angustia de ver seus parentes e amigos agonizando, lutando por oxigênio, por um leito, por um respirador...E, mesmo assim, dezenas de pessoas se aglomeram em carreatas e manifestações contra o lockdown decretado por governadores e prefeitos, desesperados com o eminente colapso do sistema de saúde, gritando "Bolsonaro tem razão"!

E eu pergunto: razão de dizer que a Covid19 não passava de uma gripezinha? Ou que a vacina chinesa podia nos transformar em jacarés? Ou ainda que a população tem que parar de mimimi, enfiar as máscaras no traseiro, que bastava tomar cloroquina e ivermectina que não pegaria? Ou quando se indispôs com o governo chinês atrasando o envio dos insumos da Coronavc ao Butantã (problema que só foi resolvido pela interveniência do governador de SP e do ex-presidente Michel Temer)?

Ou ainda ao incentivar aglomerações, publicar foto do Zé Gotinha empunhando uma arma ao invés de uma seringa? É nisso que o Bolsonaro tem razão? Ou seria na escolha de um militar sem nenhum conhecimento na área da saúde para ser Ministro em plena pandemia? Ou em ter ignorado os alertas e deixado Manaus sem oxigênio e depois, atabalhoadamente, promover a transferência de pacientes para outros estados, espalhando a variante P1 do Corona vírus? Ou em ter gasto milhões na produção de cloroquina comprovadamente ineficaz na prevenção e combate à Covid? Ou ao ter deixado mais de 06 milhões de testes vencerem enquanto o país penava com a falta de testes? 

Será que estas pessoas não percebem que fariam muito melhor ao país se estivessem protestando pela compra de mais vacinas, pela imediata liberação de um auxilio emergencial digno, pela renovação do crédito do Pronampe para as pequenas e micro empresas tão sacrificadas pela pandemia?  Será que não percebem que seriam patriotas de fato se apoiassem as medidas de isolamento, compreendendo que estas não são maldades com os comerciantes, mas visam a diminuir drasticamente a superlotação do transporte público utilizado pelos funcionários e clientes do comércio, dos bares, dos restaurantes e a concentração de pessoas nas ruas?

Será que não conseguem compreender que a pandemia é um inimigo a ser vencido, não com bravatas, ignorância, negacionismo, mas com cuidado, isolamento, higiene, mascaras e vacinas?

Bastaria se despir do fanatismo para perceber que todos os países do mundo estão vencendo a pandemia exatamente com isolamento, períodos longos de lockdown, máscaras e vacinação!

Miriam Dualibi Seria tão bom para o Brasil se essas pessoas acordassem para a realidade dos fatos e ajudassem os governadores e prefeitos a diminuir as internações e mortes diárias, ao invés de pressioná-los a ser irresponsáveis como o governo federal tem sido.  Se a dor das famílias enlutadas não os sensibilizam, tenham ao menos compaixão dos profissionais de saúde, que mesmo exaustos continuam a tentar salvar vidas.

O Brasil não vai se recuperar se o comercio abrir, mas apenas quando o contágio estiver sob controle. Infelizmente, a cada manifestação como a de ontem, pessoas que buscam soluções simplistas se sentem reforçadas e passam a descumprir as normas. E até mesmo governantes, com medo de perder popularidade, cedem e afrouxam medidas.

E assim a tragédia brasileira continua sem rumo, transformando nosso país em celeiro de novas mutações do vírus, cada vez mais contagiantes e letais. E o mundo nos olha com assombro, medo e desprezo.

Que pena!

                                               *A campograndense Míriam Duailibi, autora deste artigo, é jornalista, ativista ambiental, palestrante, fundadora e presidente do Instituto Ecoar pela Cidadania, com sede em São Paulo (SP).

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