01 de julho de 2022
Campo Grande 30º 19º

XADREZ POLÍTICO

Presidente da Cassems deve ficar fora do cenário eleitoral mais uma vez

Ações para levar PSB ao palanque de Riedel criam fissuras no partido e desconforto aos dirigentes

A- A+

Ricardo Ayache, presidente em três mandatos da Caixa de Assistência dos Servidores Públicos (Cassems) e tido como um dos mais festejados gestores corporativos de Mato Grosso do Sul, provavelmente não repetirá este ano a experiência eleitoral que protagonizou em 2014. Naquela ocasião, disputou uma vaga do Senado e, mesmo não sendo eleito, saiu vitorioso do embate, em segundo lugar, à frente de outros quatro concorrentes e perdendo apenas para a vitoriosa, a emedeista Simone Tebet.

Sua expressiva votação o lançou na galeria seleta das revelações políticas da nova geração. A opinião pública e os meios políticos apostavam que a partir daquele pleito o horizonte de Ayache já estaria aberto para novas incursões no ambiente eleitoral. Desde então, o seu nome passou a ser ventilado em todas as eleições seguintes, como sugestão para os diversos mandatos, de vereador a prefeito ou deputado, ou de senador a governador.

Entretanto, Ayache atravessou outras três eleições (2016, 2018 e 2020) fora da lista de candidatos, embora sabendo que detinha chances reais de ganhar um mandato. Agora, em 2022, com um cenário semelhante, o presidente da Cassems se redescobre também como presidente e maior liderança estadual do PSB. Procura ficar à disposição de chapas majoritárias ou proporcionais, no entanto, sem oferecer segurança aos correligionários do próprio partido quanto ao futuro que terão diante das urnas e do que sobrará depois que os votos forem contados em outubro.

FLUTUAÇÕES 

 

O PSB de Ayache vem flutuando no espaço de posições ambíguas que ocupa, sobretudo em função da demora da definição sobre o caminho eleitoral que percorrerá. Em nível local, agiganta-se a inclinação de Ayache por uma composição com o PSDB, para apoiar a candidatura de Eduardo Riedel ao governo. A ideia tem prós e contras dentro da legenda e a unidade total já está descartada. A situação é mais tensa e complexa à medida que a conjuntura tira Ayache de qualquer possibilidade eleitoral em composição de chapas majoritárias.

Ayache começou o ano eleitoral demonstrando fôlego e desenvoltura para dialogar com quase todas as pré-candidaturas: Riedel, Marquinhos Trad (PSD), André Puccinelli (MDB), Giselle Marques (PT) e Rose Modesto (União Brasil). Só não sentou-se à mesa de Renan Contar (PRTB). E foi numa dessas conversas que deixou ou fez escapar a versão de que tinha sido convidado por Trad para ser o vice da chapa. Esse fato foi noticiado com encaixes diferentes: Trad dando como favas contadas a escolha do vice e Ayache negando, mas deixando no ar a impressão de que estava se dando bem com tais especulações.

Enquanto descartava seu nome como vice numa chapa com o PSD, Ayache frequentava ambientes políticos de visibilidade diferenciada. Depois de ser anunciado como convidado ilustre no lançamento da candidatura de Trad, com a presença de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, esteve com lideranças do PSB em plenárias e eventos nacionais, como um congresso interno e o ato que sacramentou o apoio à candidatura presidencial de Lula (PT) e a indicação de Geraldo Alckmin para vice.

m Brasília para o ato de filiação do ex-governador de São Paulo, @geraldoalckmin_ , senador @dariobergersenador e o vice-governador do Maranhão, @carlosbrandaoma, ao @psbnacional40. Momento importante de fortalecimento do partido para a sua tarefa principal, que é colaborar com a transformação política, social e econômica do pais! Parabéns ao presidente, @carlossiqueira4040, pela brilhante condução do partido!! @molonrj @marciofrancasp @flaviodino @casagrande_es @marcelofreixo @psb.ms @fjmangabeira"Em Brasília para o ato de filiação do ex-governador de São Paulo, @geraldoalckmin_ , senador @dariobergersenador e o vice-governador do Maranhão, @carlosbrandaoma, ao @psbnacional40. Momento importante de fortalecimento do partido para a sua tarefa principal, que é colaborar com a transformação política, social e econômica do pais! Parabéns ao presidente, @carlossiqueira4040, pela brilhante condução do partido!! @molonrj @marciofrancasp @flaviodino @casagrande_es @marcelofreixo @psb.ms @fjmangabeira", escreveu Ayache, num post nas redes sociais em 23 de março de 2022.  

E em Mato Grosso do Sul apareceu nas imagens festivas divulgadas pelo PSDB, registrando a filiação do deputado estadual Paulo Duarte, uma adesão apadrinhada por Ayache e pelo presidente estadual dos tucanos, Sérgio de Paula.

Paulo Duarte e Ricardo Ayache. Foto: Redes Paulo Duarte e Ricardo Ayache. Foto: Redes 

Não era novidade alguma a alegre participação de Sérgio de Paula naquele ato. Antes mesmo de assinar a ficha, Paulo Duarte já vinha fazendo pré-campanha para Eduardo Riedel, atitude que gerou revolta de filiados e lideranças expressivas do PSB, entre os quais o vereador Carlão Borges, presidente da Câmara Municipal de Campo Grande.

"Noite de muita alegria para o @psb.ms, que recebe a filiação do deputado estadual, @pauloduartems. A vinda do Paulo fortalece muito a chapa de deputados estaduais do nosso partido. Seja bem-vindo!!!", escreveu Ayache nas redes em 1 de abril de 2022. "Noite de muita alegria para o @psb.ms, que recebe a filiação do deputado estadual, @pauloduartems. A vinda do Paulo fortalece muito a chapa de deputados estaduais do nosso partido. Seja bem-vindo!!!", escreveu Ayache nas redes em 1 de abril de 2022. 

Há alguns dias, de acordo com a imprensa, Duarte analisava um de seus primeiros encontros no partido sobre a questão das alianças. O site CG News publicou esta declaração do deputado: "Tivemos uma reunião com todos os pré-candidatos, organizada pelo presidente Ricardo Ayache, com os deputados federais e estaduais. Isso ainda vai ser oficializado pela direção do partido, mas consolida a tendência muito clara de o PSB apoiar o Eduardo Riedel".

Sergio de Paula, à esquerda, prestigiando ato de filiação de Paulo Duarte ao PSB. Foto: Redes Sergio de Paula, à esquerda, prestigiando ato de filiação de Paulo Duarte ao PSB. Foto: Redes 

Duarte ainda acrescentou: "O partido não impôs nenhuma condição aos tucanos, como a indicação de Ayache como vice, por exemplo. A decisão final de apoio ao PSDB deverá ser anunciada em breve pela sigla. Não condicionamos absolutamente nada, porque temos o entendimento de que o Riedel é o candidato mais preparado e que realmente significa a novidade desta eleição”. Por sua vez, Carlão Borges, detentor do mandato mais representativo da sigla no Estado, contra-atacou, frisando que se licenciará do PSB se o diretório regional optar pelo candidato do PSDB, e avisando que não muda de time, que é leal e não aceita traição.

FIDELIDADE E UNIÃO

Ayache discursa em congresso do PSB em MS. Foto: Reprodução Ayache discursa em congresso do PSB em MS. Foto: Reprodução 

Porém, o problema maior a ser solucionado por Ayache, em sua condição de dirigente máximo em Mato Grosso do Sul, é responder aos apelos que vêm sendo intensificados por seus dirigentes para promover e fortalecer a chapa Lula-Alckmin. Em Mato Grosso do Sul, Ayache subindo no palanque de Eduardo Riedel estará ajudando a vitaminar a candidatura do presidente Jair Bolsonaro (PL) à reeleição. Vai na contramão da estratégia e da resolução nacional do PSB, agora também partido de Alckmin.

Apurou-se que o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, reforça esta pregação e pode acionar política e estatutariamente os diretórios estaduais que ainda resistem à aliança, se necessário, para que não haja fissuras na aliança com o PT. Em dezembro do ano passado, 18 presidentes de diretórios estaduais - Ayache, entre eles - manifestaram-se favoravelmente à formação de uma federação com o PT. Votaram contra Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Mato Grosso e Tocantins.

Siqueira explica porque o PSB precisa estar unido com Lula e Alckmim. "O atual presidente da República é inimigo declarado da democracia. A chapa Lula-Alckmin é a única capaz de unir forças políticas, sociais e econômicas em torno da construção de um programa comum para o restabelecimento da estabilidade institucional e a retirada do país da crise. A união de Lula e Alckmin simboliza a coesão necessária para enfrentar esse momento. Essa unidade de Lula e Alckmin gera um simbolismo muito grande. Quando o país está em guerra, é preciso coesionar todas as forças políticas e sociais. Nós estamos numa guerra, porque Bolsonaro é contra a democracia”, esclareceu.