14 de junho de 2021
Campo Grande 27º 13º

Ele perdeu a perna ao comer um doce envenenado. Hoje, luta MMA de joelhos

A- A+

Quando tinha apenas seis anos de idade, Matt Betzold encontrou um doce em sua casa e o levou à boca. Poderia ser um gesto como qualquer outro, mas tinha enredo digno de histórias infantis – ou, para ele, filme de terror. O doce, como a maçã de Branca de Neve, estava envenenado e o levou a um período de seis meses em coma. Os pais sequer acharam que o garotinho sobreviveria. Mas ele acordou, e em choque, já que não tinha mais uma parte da perna esquerda.

25 anos depois, Matt fala disso com tranquilidade, afinal, já deu inúmeras entrevistas a jornalistas curiosos com o fato de um homem com “três pernas” estar crescendo no MMA profissional. Na última semana, o peso mosca assinou seu maior contrato. Vai competir pelo Legacy e tentar mais uma vez provar seu valor, o que tem feito desde que passou dez anos tentando tirar sua licença para ser um lutador. Subindo ao ringue e perseguindo seus rivais de joelhos, ele tem seis vitórias e três derrotas, e sonha abrir os olhos do UFC quanto ao seu talento.

Em um papo com o blog, Matt relembrou as dificuldades da infância, falou de como enfim encontrou um jeito de lutar, apesar da deficiência física, e analisou a comparação que se faz de seu caso com o de Nick Newell, lutador do World Series of Fighting que não tem parte do braço.

O incidente que mudou a vida de Matt se deu por que seus pais não tinham condições de cuidar dos filhos em tempo integral. Assim, sempre havia outros indivíduos tomando conta de Matt e seus irmãos, já que a família era muito aberta e permitia a amigos e conhecidos que estivessem em dificuldades morar por lá. Um desses convidados, supostamente, tinha problemas mentais.

O que não se imaginava é até onde isso levaria, por conta de uma briga do pai de Matt com uma gangue de motoqueiros. “Esse cara achou que meu pai fez algo para ele. Então, ele colocou esporos de um cogumelo tóxico em um saco de doces. Eu comi um destes doces, que liberaram toxinas no meu corpo. Elas causaram uma infecção no meu sangue, que levaram à formação de coágulos na minha perna. Por causa disso, fiquei seis meses em coma, tive um coágulo na perna e, quando acordei, já não tinha um pedaço dela”, relembra o norte-americano.

O caso era tão grave, que ele conta que médicos e familiares não acreditaram que ele viveria. Os cuidados não foram adequados e causaram a necessidade de amputar parte de seu membro. “Eu me lembro que as pessoas ficaram chocadas de me ver acordar. Foi muito intenso, complicado. Eu acordei sem saber o que tinha acontecido. Depois, na primeira vez que coloquei a prótese, fiquei chorando… Queria levantar, andar no hospital… Foi uma nova experiência que eu nunca imaginava que poderia passar.”

Muito antes de pensar em esportes, Matt precisava simplesmente viver. Voltar à escola, se adaptar e retomar o convívio social. As outras crianças, cruéis, apelidaram o menino de “garoto robô”, e o bullying dificultou esse processo. “Quando estava andando em cadeiras de rodas, todo mundo ainda era legal, mas depois comecei a ser zoado pelo modo como andava todos os dias. Isso me fez aprender a me defender, mas da terceira à quinta série eu brigava o tempo todo, fui mudando de escola para escola… Mas essas coisas me prepararam para o futuro, me mostraram que seria duro conquistar minhas coisas, então foram batalhas que eu tinha de vencer”, explica ele.

O começo como lutador

Algo que retardou o início de Matt no esporte foi sua vergonha em relação à prótese. Além das confusões na escola, ele tinha vergonha de tirar a perna mecânica para treinar e lutar. Foi só com 17 anos que ele descobriu o MMA, passou a ver o UFC “o tempo todo” e se apaixonou de vez quando o irmão o levou assistir a um combate. Lá ele achou uma academia para se inscrever, começou a praticar jiu-jítsu e logo estava finalizando seus companheiros, inspirado em seus ídolos do octógono, como Royce Gracie, Vitor Belfort e Ken Shamrock.

Casado e com dois filhos, Matt Betzold leva a família para seus combates e agora o fará em um evento de médio porte, o Legacy, onde espera despontar e chamar a atenção das grandes organizações

“Um evento queria bancar minha estreia, mas passei a ter dificuldades com comissões, que me negavam a licença. Fiquei de 2001 a 2006 para conseguir a licença amadora. Enquanto isso, fazia todos os torneios de luta agarrada que podia, e venci 80% das minhas lutas. Em 2009, finalmente consegui a licença profissional”, relata.

Uma curiosidade é: “mas como Matt luta com três pernas”. Nos vídeos dá para se ter uma ideia. O norte-americano ajoelha-se e parte à caça de seus rivais. Ele explica que é o jeito que encontrou para anular toda a desvantagem que teria em pé e ainda dificulta as ações dos rivais.

“Para mim não é estranho. Eu não posso ficar pulando com um pé só, seria estúpido, então eu escolhi ajoelhar, porque é mais eficiente e seguro. Eu consigo me aproximar e tentar a queda. Eu diminuo as chances de levar golpes e amplio as chances de partir para a queda, para tentar o ground and pound e a finalização”, analisa o peso mosca.

Agora Matt traça objetivos de curto, médio e longo prazo. A primeira luta no Legacy é importante para se firmar como um lutador viável. Depois, quer “dominar e destruir” os rivais por lá. E a meta é chegar ao UFC. “Espero conseguir abrir os olhos deles e do mundo, para fazê-los terem que me contratar

Uol