ARTIGO
Profissionais de saúde arriscam suas vidas por salários medíocres
Injustiças salariais que os profissionais da saúde sofrem em comparação com as altas benesses que alguns deputados recebem
Em temos de pandemia, sempre vêm à mente aqueles que lutam a favor da vida, fazendo o seu melhor para salvar as pessoas infectadas. Estamos falando dos médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem e todos os demais profissionais anônimos que viram noites, fins de semana e feriados para impedir a vitória do vírus. Não é exagero chamá-los de heróis, pois fazem o possível e, às vezes, até mesmo o impossível, para salvar vidas, mesmo que isso signifique arriscar suas próprias vidas. Segundo o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), foram mais de 500 vidas perdidas somente entre profissionais de enfermagem. O Conselho Federal de Medicina (CFM) contabiliza quase o mesmo número de óbitos de médicos.
Todos concordamos que é mais do que justo que os heróis da saúde sejam reconhecidos e recebam salários dignos, certo? Infelizmente, isso está longe da realidade. Em muitos casos, a remuneração é péssima para esse serviço essencial.
Levantamento da revista Piauí feito no ano passado mostrou que um médico clínico ganha em média R$ 9 mil mensais. De acordo com o portal salario.com, enfermeiros e técnicos de enfermagem ganham, respectivamente, R$ 4 mil e R$ 3 mil cada. Não é necessária muita reflexão para concluir que esse não é salário justo para quem se arrisca em plantões e só tem uma folga por semana.
Enquanto isso, a outra face da moeda. Os deputados federais, com jornadas reduzidas, no aconchego do home-office ou nos seus escritórios com vários assessores, recebem o triplo de um médico e 8 a 10 vezes mais que enfermeiros e técnicos de enfermagem.
Não vou entrar na discussão se o salário dos nobres deputados é injusto. O ponto central é a discrepância entre os heróis da saúde e a classe política.
O que é, sim, injusto são os R$ 200 mil mensais somados aos salários que os parlamentares recebem como penduricalho. Somando todos os 513 deputados federais, essa “ajuda de custo” sobe para R$ 91 milhões por mês. Dá R$ 1 bilhão por ano! O que médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem não fariam com esses recursos!
Isso sem dizer que muitas categorias essenciais, como da saúde, educação e segurança, não veem aumento digno há anos. Bonificações, nada. E, mesmo assim, ainda é possível que não haja reajuste dos salários por anos se o governo conseguir aprovar seu plano de contingência de gastos.
Renovo aqui meu respeito aos profissionais de saúde por tudo o que estão fazendo. São servidores que, mesmo sem condições ideais, seja em Unidades Básicas de Saúde das periferias ou em cidades pequenas do interior, não deixam de cumprir o que juraram fazer. É triste e revoltante pensar que esses profissionais recebem muito pouco. Se comparamos com os salários e as mordomias de deputados aí o sentimento muda para revolta.
O Brasil é um país de grandes injustiças. Essa é uma de muitas.
AUTOR: Presidente da Confederação Nacional dos Servidores Públicos (CNSP).
