OFENSIVA DOS PODEROSOS
Agro faz lobby para parecer sustentável e influenciar COP30
Investigação da Fundação Changing Markets revela como o setor da carne, incluindo gigantes como JBS e Marfrig, intensificou lobby para se vender como 'solução climática' e buscar fundos públicos
Um novo relatório da Fundação Changing Markets revela uma ampla estratégia em curso do agronegócio brasileiro. O objetivo é moldar a opinião pública e controlar a narrativa às vésperas da COP30, a principal conferência climática da ONU, que ocorre no Brasil a partir de 10 de novembro.
A investigação, intitulada "A agenda da carne", acusa o setor de "greenwashing". Embora seja um dos maiores emissores de gases de efeito estufa, o agro estaria usando a conferência para se reposicionar como um "líder climático".
Segundo o levantamento, entidades do setor e gigantes como JBS e Marfrig intensificaram suas ações de lobby entre março e outubro. Nesse período, realizaram ou participaram de quase 20 eventos estratégicos para coordenar sua mensagem.
O relatório aponta que a indústria da carne tem trabalhado para controlar o debate através de patrocínios de mídia e campanhas em redes sociais, ajustando sua mensagem para a COP30.
O cerne do problema, segundo o Observatório do Clima, é que o agronegócio responde por até 75% das emissões de metano no Brasil. A maior fonte é o rebanho bovino, o segundo maior do mundo.
A investigação detalha quatro objetivos principais do agro para a COP30: consolidar uma imagem "sustentável", sabotar ações reais de redução de emissões, garantir financiamento público para sua "transição" e moldar o debate global a seu favor.
Para isso, o setor promove termos vagos como "agricultura regenerativa" e "agricultura climaticamente inteligente". Cientistas alertam que essas expressões são usadas para desviar o foco de mudanças reais nos métodos de produção.
A tática mais alarmante é a pressão para alterar a forma como o metano é medido e, principalmente, omiti-lo das metas climáticas.
Essa pressão já surtiu efeito. A análise da Changing Markets destaca que a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil, o plano climático do país, não faz "absolutamente nenhuma menção" às emissões de metano vindas da agricultura.
O poder político do setor é apontado como a causa dessa omissão. A "bancada ruralista" (Frente Parlamentar Agropecuária) tem obstruído ativamente regulamentações mais rígidas.
O relatório cita que o lobby do agro também enfraqueceu o Plano Clima, obteve privilégios fiscais na Reforma Tributária para agrotóxicos e commodities, e garantiu que o novo mercado de carbono regule apenas uma fração das emissões do país.
A conclusão da fundação é um alerta: sem uma regulamentação séria contra o greenwashing e sem enfrentar o poder político do setor, a COP30 corre o risco de legitimar a expansão da agricultura industrial, em vez de promover uma real transformação ecológica.
