SINOP (MT)
Juiz afasta 14 policiais e manda exumar corpo de detento morto em presídio
Presídio é comandado por policiais suspeitos de encomendar a morte de juiz e promotor
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT) determinou o afastamento de 14 policiais penais nesta 3ª feira (24.fev.26).
A decisão do desembargador Orlando Perri atinge servidores da Penitenciária Ferrugem, localizada em Sinop (MT).
O magistrado também ordenou a exumação do corpo de Walmir Paulo Brackmann, preso morto em 13 de maio de 2025, dentro do presídio “Ferrugem”.
“Pelos mesmos fundamentos expostos no item V desta decisão, determino que a POLITEC designe perito(s) para a realização da exumação e elaboração do laudo necroscópico, diversos dos lotados na cidade de Sinop, devendo o Ofício à POLITEC consignar expressamente essa restrição. Expeça-se, com caráter de urgência, Ofício à Diretoria-Geral da POLITEC requisitando o cumprimento imediato da presente determinação, devendo o local de sepultamento ser previamente apurado junto ao Cartório de Registro Civil competente e à família do reeducando, com os quais deverá ser mantido contato imediato pela Secretaria responsável”, isse o magistrado.
O detento morreu na unidade prisional após inalar spray de pimenta disparado por um carcereiro.
Na decisão, Perri enfatizou que um óbito sob suspeita de violência policial não pode ser registrado como "indeterminado".
Três presos identificaram o policial Rogério Paulo Pessoa, o "Rogerinho", como o responsável por aspergir spray de pimenta em Walmir.
Diante disso, o desembargador ressaltou que a omissão estatal viola o direito à verdade e o princípio da dignidade da pessoa humana.
Além de Rogerinho, o juiz ordenou o afastamento de 13 policiais penais até a conclusão de inquérito policial e procedimento administrativo disciplinar (PAD), sendo eles:
- Julio César Deluque;
- Arthur Balbuino;
- Gilmar Zavardiniack;
- Valdemir da Silva;
- Gladson Lima Rocha;
- Doriedson Alves Ferreira;
- Lindomar Braga;
- José Carlos de Campos Cavalcante;
- Maicon Carvalho Tinan;
- Tiago Amim;
- André Francisco;
- Paulo César de Souza; e,
- Leandro de Jesus Pereira.
Entre os citados, três sofreram afastamento imediato, nove estão suspensos provisoriamente e dois tiveram afastamento integral.
HISTÓRICO DO 'FERRUGEM' EM SINOP
Além da morte do detento, a penitenciária enfrenta denúncias de tortura institucionalizada e falhas de segurança. O local é conhecido como 'Guantánamo Pantaneira', devido ao seu histórico de violação de direitos humanos.
O preso Ismael da Costa dos Santos, apontado como líder do CV em Mato Grosso, revelou em depoimento que o assassinato do juiz Marcos Faleiros da Silva e o promotor de Justiça Luiz Gustavo Mendes de Maio, durante uma audiência dentro da prisão em 30 de outubro de 2025, foi “encomendada” pelo diretor do presídio, Adalberto Dias de Oliveira, e pelo subdiretor Antônio Carlos Negreiros dos Santos.
Ambos os gestores do "Ferrugem", foram afastados sob suspeita de arquitetar um atentado contra juízes.
O detento relatou que a direção prometeu regalias carcerárias caso ele atacasse o magistrado durante uma inspeção.
A intenção dos gestores seria deslegitimar as denúncias de violência relatadas por outros custodiados dentro do 'Ferrugem'.
Os guardas teriam quebrado o protocolo de segurança, deixando o preso sozinho na sala com a possibilidade de usar um estilete.
Sentindo-se intimidada, a equipe judicial deixou a cidade à noite e relatou ter sido perseguida por uma caminhonete na estrada.
DECISÃO DO TJ ACERCA DAS TORTURAS NO PRESÍDIO
O relatório de inspeção do TJ-MT documentou uma rotina de tratamentos cruéis e degradantes dentro da unidade prisional em Sinop.
Os presos relataram o uso abusivo de spray de pimenta, tiros de balas de borracha e humilhações constantes.
A comitiva judicial também flagrou um detento com lesões profundas nas nádegas causadas por mordidas de cães de ataque.
Em uma decisão paralela, o TJ-MT exigiu que o governo de Mato Grosso corrija problemas estruturais em sete prisões.
O Estado pode pagar uma multa diária de R$ 100 mil caso não solucione o racionamento de água e os maus-tratos.
A Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sejus) foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou até o momento.
