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MAIS UMA CONDENAÇÃO

Multicondenado: por que o extremista de direita Tio Trutis não está preso?

Casal desviou quase R$ 800 mil dos cofres públicos

Trutis e a esposa foram condenados por desviar R$ 776 mil do Fundão eleitoral. (Foto: Arquivo)

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) condenou Loester Carlos Gomes de Souza, o Tio Trutis, por unanimidade. Essa é mais uma de suas muitas condenações.

Por sete votos a zero, a corte máxima da Justiça Eleitoral manteve a decisão do TRE-MS, que comprovou lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos.

O ex-deputado, que se apresentava como paladino da moralidade e dos bons costumes — alinhado à extrema direita e aliado de Jair Bolsonaro — viu o discurso ruir diante das provas.

A decisão atinge também sua ex-esposa, Raquelle Lisboa Alves Souza, em um esquema que desviou quase R$ 800 mil dos cofres públicos.

O QUE TRUTIS E RAQUELLE FIZERAM

O casal usou recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e do Fundo Partidário nas eleições de 2022. O chamado fundão eleitoral.

Para os ministros, o que era apresentado como estratégia de campanha funcionava, na prática, como um mecanismo de desvio de dinheiro público. Trutis recebeu R$ 2,026 milhões.

Desse total, R$ 776 mil — cerca de 40% — foram considerados irregulares.

Trutis ficou conhecido por ser dono de lanchonete. Durante o governo Bolsonaro, dizia que sua missão era combater a corrupção.

GANÂNCIA NO FUNDÃO

A investigação da Procuradoria Regional Eleitoral em Mato Grosso do Sul apontou um cenário de ficção contábil para justificar repasses milionários.

Trutis e Raquelle passaram a ser monitorados após receberem R$ 2,026 milhões do PL — valor bem acima do destinado a outros candidatos do partido.

Enquanto nomes com mandato receberam cerca de R$ 300 mil, os dois ficaram com aproximadamente R$ 1 milhão cada.

A diferença chamou atenção e levou ao acompanhamento do destino dos recursos.

Segundo a apuração, houve pagamentos cruzados entre as campanhas, formando um circuito difícil de rastrear.

Serviços de comunicação eram contratados por valores elevados, mas sem prova de entrega.

A Justiça Eleitoral apontou que as empresas envolvidas não tinham estrutura mínima: sem sede funcional, sem funcionários, sem capacidade operacional.

Trutis alegou possuir “terabytes” de material para comprovar os serviços. O argumento não convenceu.

Segundo os autos, ele teria ficado com R$ 327 mil, enquanto Raquelle teria recebido R$ 449 mil.

Hoje, o ex-deputado aparece em fotos com carros de luxo. O dinheiro pode ter origem no bolso do contribuinte.

Para a Justiça, não se trata de erro formal, mas de apropriação deliberada de recursos públicos.

A condenação por improbidade eleitoral e lavagem de dinheiro agora pesa na ficha dos dois e impede novas candidaturas.

CNPJS DISSIMULADOS

O núcleo do esquema envolveu duas empresas classificadas como estruturas sem atividade real.

A primeira é a JC Hipólito Taques Comunicação LTDA (CNPJ 23.166.947/0001-72), ligada a Jean Carlos Hipólito Taques.

A Receita Federal indica situação “baixada”, ou seja, sem operação ativa.

A segunda é a empresa individual Cid Nogueira Fidelis - ME (CNPJ 35.392.479/0001-33).

As duas receberam valores altos por serviços que, segundo o TSE, não foram comprovados.

Faltavam funcionários, estrutura e capacidade técnica compatível com os contratos.

O relator, ministro Antônio Carlos Ferreira, apontou essas inconsistências como decisivas para a condenação.

No fim, o que se vendia como combate ao sistema acabou revelando outra coisa nos bastidores.

RECURSO NO TSE

Resta saber se ainda há saída jurídica para Trutis.

A decisão do TSE confirma o entendimento do TRE-MS.

A defesa apresentou embargos de declaração, recurso que não altera o mérito, apenas esclarece pontos da decisão.

Na prática, não muda o resultado.

Diante das provas, a reversão em instâncias superiores é considerada improvável.

A condenação enquadra o casal na Lei da Ficha Limpa, impedindo candidaturas por oito anos.

FALSO ATENTADO

Antes da condenação eleitoral, Trutis já aparecia em investigações.

Em 2020, disse ter sofrido um atentado a tiros na estrada entre Sidrolândia e Campo Grande.

A versão caiu após perícia da Polícia Federal.

Os disparos foram feitos com o carro parado, em uma estrada vicinal.

Fragmentos e cápsulas indicaram que a cena foi montada.

O STF aceitou a denúncia, tornando Trutis réu por comunicação falsa de crime e disparo de arma de fogo.

A investigação concluiu que o episódio foi encenado para gerar capital político.

OFENSAS AO DELEGADO

Durante a apuração, Trutis atacou o delegado da PF, Glauber Fonseca de Carvalho Araújo.

Em lives, chamou o policial de “vagabundo”, “corrupto” e “fruta podre”.

O caso foi parar na Justiça.

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul condenou o ex-deputado a pagar R$ 15 mil por danos morais.

A decisão reforçou que imunidade parlamentar não autoriza ataques pessoais.

A defesa alegou uso de “linguagem política”. Não convenceu.

E A ESPOSA, RAQUELLE LISBOA?

A condenação também atinge Raquelle Lisboa Alves Souza.

Ela disputou as eleições de 2022 e, segundo a Justiça, participou diretamente do esquema.

A alegação de desconhecimento das finanças foi rejeitada.

Com a crise, o casal se separou.

Raquelle denunciou Trutis por violência doméstica e obteve medidas protetivas.

O contraste entre discurso público e vida privada virou mais um elemento do caso.

MORALIDADE DE FACHADA

Trutis livre em Mato Grosso do Sul é o retrato fiel de um Judiciário que beneficia ricos. Já vi gente humilde, com crimes mais "leves", mofar nas grades.

O dono de lanchonetes construiu sua base sobre o ódio ao "sistema", mas operou dentro dele com as práticas mais arcaicas da corrupção eleitoral.

A condenação por lavagem de dinheiro é também a confirmação de que o discurso moralista da extrema direita no Brasil, sintetizado em Trutis, é uma ferramenta de marketing.