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LUTO NA COMUNICAÇÃO

Morre jornalista Raimundo Pereira, referência contra ditadura

Profissional de 85 anos teve trajetória marcada pela defesa da democracia e atuação na imprensa alternativa

Memorial da Resistência/Divulgação

Morreu no último sábado (2.mai.26), no Rio de Janeiro, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, aos 85 anos. Ele foi reconhecido por sua atuação na imprensa durante o período da ditadura militar no Brasil e por sua defesa da democracia. O corpo foi cremado no bairro do Caju, na capital fluminense.

Natural de Exu, em Pernambuco, iniciou ainda jovem sua participação em movimentos críticos ao regime instaurado após o golpe de 1964. À época estudante do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, acabou afastado da instituição após se posicionar politicamente por meio de um jornal estudantil.

Em entrevista ao Núcleo Piratininga de Comunicação, relembrou o período. "À época do golpe de 64, eu estava quase me formando em engenharia e já estava muito envolvido no movimento contra a ditadura. Nesse período, eu participava do teatro e do principal jornal da escola. Quando houve o golpe, fui expulso. Na verdade, nos proibiram de voltar, então fui expulso por falta [do ITA]. O engraçado é que no fim do ano passado eu recebi o diploma do curso", afirmou.

Após deixar o ITA, foi detido no Departamento Estadual de Ordem Política e Social e, posteriormente, transferido para a Base Aérea de Guarujá, onde permaneceu por cerca de dois meses.

Anos depois, ingressou na Universidade de São Paulo, onde se formou em Física. Segundo ele próprio, a entrada no jornalismo ocorreu "por acidente". As primeiras experiências vieram com a redação de revistas técnicas.

Ao longo da carreira, participou da criação da revista Veja e atuou em veículos como Realidade, Ciência Ilustrada, IstoÉ e Folha da Tarde. Também dirigiu o jornal Opinião e, posteriormente, esteve à frente do jornal Movimento, considerado um dos principais veículos da imprensa alternativa durante a ditadura.

Sobre esse período, entidades da categoria destacam o papel do jornal. "Além de jornal, o Movimento foi um organizador coletivo. Assinar o Movimento, vender o Movimento, colaborar com o Movimento eram atos de ativismo político e rebeldia", destacou o sindicato dos jornalistas em nota.

A Associação Brasileira de Imprensa também ressaltou a importância do veículo. "Raimundo discordava da tentativa de aproximação com o governo Geisel, que prometia uma abertura “lenta, gradual e segura”. Para ele, aquela política não atendia aos interesses populares. Mais do que um jornal, Movimento foi também um espaço de articulação política e social, reunindo vozes silenciadas e contribuindo para a formação de uma consciência crítica no país", afirmou.

Para o sindicato da categoria, o jornalista deixa um legado ligado à defesa da democracia. "Nunca foi filiado a este ou aquele partido, mas esteve sempre presente no campo democrático e na sua intransigente defesa. Não fez parte da luta armada. Lutava com as palavras – um combatente sem igual da palavra e da reportagem", diz a nota.

A entidade ainda o descreveu como um "profissional de uma apuração exemplar e de um texto claro, objetivo e de fácil leitura, e o campo democrático, no qual deixa sua marca de um lutador incansável."