SAÚDE
Dor que desce pela perna pode indicar compressão nervosa na coluna
Lombalgia recorrente pode evoluir para compressão nervosa e aumentar riscos entre trabalhadores que adiam o tratamento em Mato Grosso do Sul
A trabalhadora rural que sente a perna formigar ao final do expediente, o operador de frigorífico que acorda com a lombar travada, o motorista de carga que dirige horas seguidas pelas BRs do estado: o ponto em comum entre esses três perfis é que todos convivem com sintomas de uma raiz nervosa pressionada na coluna e, na maioria dos casos, ignoram o sinal por meses ou anos.
Os números explicam por que o problema cresce sem freio. Pesquisa apresentada em congresso da Associação Brasileira de Fisioterapia Traumato-Ortopédica, com base na Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, indica que 19% da população adulta brasileira relata dor crônica na coluna vertebral, com prevalência maior entre mulheres (20,08%) do que entre homens (15,26%).
Levantamento mais recente realizado em São Paulo, publicado em revista científica indexada no SciELO, encontrou prevalência estimada de 22% para dor crônica na coluna em adultos com 15 anos ou mais.
Estimativas da Organização Mundial da Saúde apontam que a lombalgia atingiu 619 milhões de pessoas em 2020, com projeção de chegar a 843 milhões até 2050. Em paralelo, dados da Pesquisa Nacional de Saúde mostram que cerca de 70% a 85% da população terá pelo menos um episódio de dor nas costas ao longo da vida.
Quando a dor "comum" deixa de ser comum
A confusão começa pelo vocabulário. Boa parte dos pacientes chama de "dor nas costas" qualquer desconforto na região lombar ou cervical, sem perceber que existe uma diferença clínica importante entre dor muscular, dor articular e dor causada por compressão de raiz nervosa.
"A dor muscular costuma melhorar com repouso, calor local e alongamento. A dor articular, ligada a desgaste, aparece em horários previsíveis, principalmente ao acordar ou após longa permanência sentado. Já a dor por compressão nervosa tem assinatura própria: irradia para braços ou pernas, queima, formiga, vem acompanhada de dormência ou perda de força", aponta Dr. Aurélio Arantes, ortopedista de coluna pela Unimed em Goiânia.
A hérnia de disco lombar é a causa mais conhecida. O conteúdo do disco intervertebral, ao se romper, pressiona uma raiz que sai da coluna e desce pela perna. O resultado é a dor ciática clássica, que percorre o glúteo, a coxa e desce até o pé.
A estenose do canal vertebral, condição classificada pelo CID-10 como M48.0, é outra causa comum, principalmente em pessoas acima dos 50 anos. O canal por onde passa a medula vai estreitando com o tempo, e os nervos perdem espaço.
Em ambos os casos, o que muda o jogo é o tempo. Quanto mais o paciente convive com a compressão sem tratamento, mais fibras nervosas perdem função, e mais difícil fica reverter o quadro.
O perfil de risco em Mato Grosso do Sul
O Estado tem uma economia que castiga a coluna. Frigoríficos, lavouras, transporte de carga, construção civil, pecuária extensiva: todas atividades que envolvem postura forçada, esforço repetitivo, peso e jornadas longas.
Estudo da Universidade Federal de Mato Grosso, publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, aponta que o setor frigorífico mantém taxa de incidência de 41,2 a 46,5 acidentes de trabalho por mil trabalhadores na região, com concentração na faixa de 18 a 24 anos.
Não são apenas os acidentes traumáticos que pesam. A LER/DORT, sigla para lesões por esforço repetitivo e distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho, está entre os principais agravos notificados ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação do SUS.
Na análise da equipe de ortopedia do COE, clínica de referência em tratamentos ortopédicos em Goiânia, o dado é relevante porque essas lesões funcionam como porta de entrada para problemas estruturais na coluna, principalmente cervical e lombar.
O paciente típico chega ao consultório dizendo que "vive cansado das costas". Ao detalhar os sintomas, descreve formigamento na panturrilha, dificuldade para subir escada, perda de força na ponta do pé. Os exames de imagem mostram o que a história já indicava: uma raiz nervosa achatada por uma hérnia ou por estenose do canal.
O ponto sensível é que a maioria desses pacientes já passou por médicos generalistas, recebeu prescrição de anti-inflamatório, fez fisioterapia por algumas semanas e voltou ao trabalho com o problema apenas mascarado. O encaminhamento para o especialista certo costuma vir tarde.
O que o tratamento conservador pode e o que não pode
Antes de qualquer indicação cirúrgica, o tratamento conservador segue sendo a primeira linha de combate. Fisioterapia bem orientada, perda de peso, fortalecimento de musculatura paravertebral e abdominal, ajuste postural no trabalho, controle da dor com medicação adequada e infiltrações guiadas por imagem resolvem boa parte dos quadros leves e moderados.
A janela em que esse arsenal funciona, porém, é estreita. Em casos de hérnia volumosa que causa déficit motor, em estenoses graves com perda progressiva de sensibilidade, em quadros de síndrome da cauda equina, com alteração de controle urinário e intestinal, o tempo joga contra o paciente. Insistir no conservador nessas situações significa aceitar perda funcional permanente.
A literatura médica e as diretrizes internacionais convergem sobre o ponto: presença de déficit neurológico progressivo, dor refratária após seis a doze semanas de tratamento clínico bem conduzido e perda de qualidade de vida significativa são critérios que indicam avaliação cirúrgica.
Quando esse momento chega, a descompressão do nervo comprimido na coluna deixa de ser uma escolha entre alternativas equivalentes e passa a ser a opção tecnicamente justificada. As técnicas atuais, com destaque para a cirurgia endoscópica e os acessos minimamente invasivos, mudaram a percepção que muitos pacientes ainda têm sobre operar a coluna.
O procedimento envolve incisões de menos de um centímetro em boa parte dos casos, uso de câmera de alta resolução e neuromonitorização intraoperatória, que acompanha em tempo real a atividade elétrica das raízes nervosas durante o ato cirúrgico.
A recuperação reflete essa mudança. Em técnicas minimamente invasivas, o tempo médio de retorno às atividades varia de duas a seis semanas, contra seis a doze semanas das abordagens tradicionais. O paciente costuma deixar o hospital no mesmo dia ou no dia seguinte ao procedimento.
Como escolher o profissional certo
A decisão sobre quem operar uma coluna não pode ser tomada com pressa. Conforme analisado pelos ortopedistas mais bem avaliados em Goiânia, volume cirúrgico do médico, tempo de atuação na subespecialidade, vínculo com sociedades como a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e a Sociedade Brasileira de Coluna (SBC), formação em cirurgia minimamente invasiva e disponibilidade para segunda opinião são pontos básicos que o paciente precisa verificar antes de marcar a cirurgia.
Centros médicos com equipe multidisciplinar, que reúnem cirurgiões de coluna, fisiatras, fisioterapeutas, médicos da dor e acupunturistas no mesmo espaço, oferecem uma vantagem prática: o paciente percorre o caminho inteiro do diagnóstico ao pós-operatório sem precisar reconstruir a história clínica em cada etapa.
O papel do tratamento complementar
Mesmo nos quadros que evoluem bem com tratamento conservador, o paciente raramente sai ileso. Episódios recorrentes de dor, contratura muscular crônica e limitações de movimento permanecem por meses ou anos. É nesse intervalo que terapias complementares ganham espaço.
A acupuntura é o recurso com maior respaldo científico nesse campo. A Organização Mundial da Saúde reconhece a técnica como tratamento eficaz para lombalgia, e o American College of Physicians a inclui entre as opções não farmacológicas recomendadas para dor lombar aguda e crônica.
Revisões sistemáticas e meta-análises apontam efeito superior ao tratamento convencional isolado em parte significativa dos casos, com alívio de dor cervical que pode se sustentar por até três meses após o término do ciclo.
Para o paciente que vive em ciclos de dor intermitente, o efeito prático é importante. A acupuntura reduz a necessidade de anti-inflamatórios contínuos, com todos os efeitos colaterais que a medicação acumula no estômago, no fígado e nos rins ao longo do tempo. Também atua sobre a contratura muscular reflexa, que perpetua a dor mesmo depois que a causa original foi resolvida.
A escolha do profissional segue lógica parecida com a do cirurgião: formação médica reconhecida, vínculo com sociedades de acupuntura, experiência específica em dor de coluna e integração com a equipe que acompanha o caso.
Fazer uma busca pelos melhores acupunturistas da sua região, verificar registro no Conselho Regional de Medicina e cruzar avaliações em plataformas independentes são passos básicos antes da primeira sessão.
O que fazer com a dor que não passa
A regra prática para o trabalhador de Mato Grosso do Sul que convive com dor lombar ou cervical recorrente é simples e direta. Dor que dura mais de seis semanas, dor que irradia para braços ou pernas, dor associada a formigamento, dormência ou perda de força, dor que acorda o paciente à noite e dor que piora progressivamente apesar de medicação e fisioterapia: todos são sinais que pedem avaliação especializada.
Esperar o sintoma passar sozinho costuma custar caro. A perda funcional acumulada por anos de compressão nervosa nem sempre se recupera, mesmo após a cirurgia mais bem indicada. O nervo é um tecido com capacidade limitada de regeneração, e o tempo de compressão é uma das variáveis que mais pesa no prognóstico.
O cenário do estado, com economia que depende fortemente da força física do trabalhador, exige uma resposta de saúde pública e privada à altura. Encaminhar antes, diagnosticar com precisão, escolher o tratamento certo no momento certo: a sequência define a diferença entre um paciente que volta à rotina e um paciente que se aposenta por invalidez aos 45 anos.
A coluna não é um sintoma acessório do dia de trabalho. É a estrutura que sustenta a economia do estado, vértebra por vértebra.
