SAÚDE
Lesões osteomusculares: o alerta para quem ignora dor persistente em MS
Túnel do carpo, tendinites, artrose de quadril e dores articulares crônicas crescem entre trabalhadores do agronegócio, profissionais administrativos e idosos. O atraso na busca por especialista transforma quadros tratáveis em cirurgias de grande porte.
A dor começa quase sempre da mesma forma. Uma pontada na palma da mão ao segurar o volante. Um formigamento que acorda durante a madrugada. Um incômodo na virilha ao levantar da cadeira.
Para boa parte dos pacientes que chegam aos consultórios ortopédicos com queixas crônicas, esses sinais iniciais foram ignorados por meses, às vezes anos, antes de virar consulta médica. Em Mato Grosso do Sul, esse padrão tem nome, sobrenome e impacto previdenciário.
O estado figura entre os que mais registram afastamentos por lesões osteomusculares no país. Levantamento do Ministério da Saúde a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação apontou Mato Grosso do Sul, ao lado de São Paulo e Amazonas, como um dos estados com maiores coeficientes de incidência de Lesões por Esforços Repetitivos e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho.
Em paralelo, dados do Correio do Estado mostram que o estado lidera o ranking nacional de carga horária semanal acima de 40 horas, índice puxado pelo agronegócio e pela agroindústria, em proporção que supera com folga a média nacional.
A combinação não é casual. Movimento repetitivo, postura inadequada, jornadas longas e ausência de pausa adequada formam o cenário em que tendões se inflamam, nervos são comprimidos e cartilagens articulares se desgastam mais cedo do que o esperado. Quando o trabalhador procura ajuda, o quadro raramente está no início.
A síndrome do túnel do carpo deixou de ser problema de linha de produção
"A queixa que aparece com mais frequência nos consultórios de cirurgia da mão é o túnel do carpo. Trata-se da compressão do nervo mediano, que passa por um canal estreito no punho, entre o ligamento transverso e os tendões flexores. A inflamação dessa região aperta o nervo e gera dormência, formigamento e dor que costuma piorar durante a noite, com despertar frequente", explica Dr. Henrique Bufaiçal, médico ortopedista focado em mão em Goiânia.
Estudos publicados na Revista Brasileira de Ortopedia, ligada à Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, indicam que a prevalência da síndrome chega a 3% da população, com pico entre 40 e 60 anos e predominância marcante em mulheres.
Levantamentos com critérios mais amplos mostram prevalência de até 9,2% entre mulheres e 0,6% entre homens. Em 2023, segundo o Ministério da Previdência Social, mais de 24 mil trabalhadores foram afastados por causa do quadro, crescimento de 33% em relação ao ano anterior.
O perfil do paciente mudou nas últimas duas décadas. Antes restrito a operadores de linha de montagem, faxineiros, cozinheiros e profissionais de abate de carnes, o túnel do carpo passou a atingir também profissionais de escritório, motoristas, costureiras, agricultores familiares, atendentes de caixa e quem trabalha longas horas com mouse, celular ou volante.
Em Mato Grosso do Sul, a expansão dos frigoríficos, o trabalho de manejo no campo e o crescimento do setor administrativo em Campo Grande, Dourados e Três Lagoas ampliaram a base de risco.
O problema é que o sintoma evolui de forma sutil. A pessoa descansa, melhora, volta ao trabalho, piora de novo. Em muitos casos, só procura um médico especialista em mãos e pulso quando já existe perda de sensibilidade no polegar, no indicador e no dedo médio, ou quando a força para abrir uma garrafa, segurar uma xícara ou apertar um parafuso simplesmente não responde mais como antes.
Nessa fase, o tratamento conservador, com órtese noturna, fisioterapia e ajuste de carga, perde eficácia. A liberação cirúrgica do nervo passa a ser a alternativa indicada para evitar lesão permanente.
Tendinites, dedo em gatilho e fraturas do punho completam o quadro
O túnel do carpo é apenas parte do problema. Tenossinovite dos extensores, doença de De Quervain, dedo em gatilho, cisto sinovial e fratura de punho aparecem com frequência crescente, principalmente entre mulheres em idade produtiva e idosos com osteoporose.
Caem juntas: a primeira é causa, a segunda, consequência. Uma queda banal sobre a mão estendida pode resultar em fratura do rádio distal, lesão extremamente comum em pessoas acima dos 60 anos.
A demora no diagnóstico de problemas da mão tem custo concreto. Tendões inflamados que continuam sendo solicitados podem romper. Nervos comprimidos por tempo prolongado nem sempre recuperam toda a função após a cirurgia.
Fraturas mal consolidadas deixam o punho com angulação errada e força reduzida para o resto da vida. A consulta com cirurgião de mão, ao primeiro sinal de dor persistente, formigamento noturno ou perda de força, encurta drasticamente o caminho para a recuperação.
A dor no quadril que ninguém leva a sério
Se a mão é o membro que mais aciona o trabalho repetitivo, o quadril é a articulação que sofre primeiro com o sobrepeso, com o desgaste do tempo e com as fraturas por queda. Dados da Sociedade Brasileira do Quadril estimam que a artrose dessa articulação atinge cerca de 10 milhões de brasileiros.
Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que 80% das pessoas acima de 65 anos apresentam algum grau de osteoartrite, e o quadril está entre as articulações com maior crescimento proporcional de casos.
O sintoma inicial é discreto. Dor na virilha ao levantar da cadeira, rigidez nos primeiros passos da manhã, dificuldade para calçar o sapato ou cortar a unha do pé. A pessoa atribui ao cansaço, à idade, ao colchão ruim, ao excesso de peso.
Na análise de Dr. Tiago Bernardes, ortopedista especialista em quadril na cidade de Goiânia, quando a dor se torna constante e a marcha começa a ficar comprometida, a cartilagem da articulação coxofemoral já avançou em desgaste de forma irreversível.
Os números do sistema público mostram a dimensão do atraso. Levantamento publicado na base do DATASUS aponta que, entre 2012 e 2021, o Sistema Único de Saúde registrou 251.413 procedimentos de artroplastia do quadril em todo o país.
A região Sudeste concentrou 50,8% das cirurgias, enquanto Norte, Nordeste e Centro-Oeste apresentaram taxas inferiores em relação ao tamanho de suas populações. A desigualdade no acesso é parte do problema: muitos pacientes que precisam da cirurgia simplesmente não conseguem realizá-la pelo SUS e enfrentam filas longas até o procedimento.
Quando o tratamento conservador, com fisioterapia, perda de peso, fortalecimento muscular, infiltrações e medicamentos, deixa de controlar a dor, a substituição da articulação por uma prótese passa a ser a alternativa mais eficiente.
A revista científica The Lancet classificou a artroplastia total de quadril como uma das cirurgias ortopédicas mais bem-sucedidas da medicina moderna, em razão dos altos índices de satisfação dos pacientes e da durabilidade dos implantes.
Estudos de acompanhamento prolongado mostram que mais da metade das próteses de quadril ultrapassa 25 anos de uso, a depender do tipo de implante, da técnica empregada e do perfil do paciente. A taxa de satisfação pós-operatória varia entre 82% e 95%, conforme dados do registro sueco de artroplastias, um dos mais confiáveis do mundo.
A escolha do profissional, no entanto, faz diferença concreta no resultado. Procurar um ortopedista de quadril com formação específica nessa articulação, volume cirúrgico adequado e experiência em técnicas minimamente invasivas reduz tempo de internação, diminui risco de complicações e acelera a retomada das atividades cotidianas.
A artroplastia é cirurgia de grande porte, e o planejamento pré-operatório, com imagens em três dimensões e mensuração precisa do implante, define boa parte do sucesso a longo prazo.
Fraturas de fêmur em idosos exigem atenção redobrada
A artrose não é o único problema sério do quadril. As fraturas do fêmur proximal em idosos representam uma das emergências ortopédicas mais críticas do sistema de saúde brasileiro.
Conforme publicação na Revista Brasileira de Ortopedia, a taxa de mortalidade em um ano após fratura de quadril varia entre 23% e 35% nos estudos brasileiros, em razão das complicações pós-operatórias, da imobilidade prolongada e do agravamento de doenças crônicas preexistentes.
Em estados com população em processo acelerado de envelhecimento, como Mato Grosso do Sul, esse cenário ganha urgência. O IBGE projeta que o Brasil terá mais de 58 milhões de pessoas com 60 anos ou mais até 2043, e a articulação do quadril concentra parte expressiva da demanda cirúrgica nessa faixa etária.
Prevenção de quedas, controle da osteoporose, fortalecimento muscular e diagnóstico precoce de artrose são medidas que reduzem o risco de chegar à fratura, à internação e à perda de autonomia.
Por que Goiânia entrou no mapa do paciente sul-mato-grossense
Mato Grosso do Sul tem rede ortopédica em expansão, principalmente em Campo Grande, mas a proximidade geográfica com Goiás colocou a capital goiana no roteiro de muitos pacientes que buscam segunda opinião, cirurgia eletiva ou avaliação por subespecialista.
Goiânia se consolidou como polo de turismo médico no Centro-Oeste, com clínicas especializadas em joelho, coluna, ombro, mão e quadril concentradas em poucos quarteirões.
Como explicam os melhores ortopedistas no estado de Goiás, em reportagem publicada pelo Estado de Minas, a busca por profissional com formação específica na articulação que está sendo tratada faz diferença concreta no resultado clínico.
Um ortopedista geral acompanha problemas variados, mas o subespecialista em mão, em quadril, em coluna ou em joelho concentra anos de prática naquela articulação específica, conhece os detalhes anatômicos, domina as técnicas modernas e participa de discussões científicas restritas àquele campo.
Para o paciente que vem de Mato Grosso do Sul, a viagem rodoviária ou aérea até Goiânia costuma compensar quando o caso exige procedimento complexo, revisão cirúrgica de cirurgia anterior, segunda opinião ou tecnologia que ainda não está disponível na cidade de origem.
A consulta inicial, o exame de imagem, o planejamento e a cirurgia podem ser concentrados em poucos dias, com retorno para acompanhamento à distância e em consultas presenciais espaçadas.
O que o paciente precisa observar antes que a dor vire cirurgia
Não existe um limiar exato de dor que determine o momento certo de buscar avaliação ortopédica. Existem, no entanto, sinais que merecem atenção e não devem ser ignorados por semanas ou meses. Dormência ou formigamento nos dedos que acordam o paciente durante a noite. Perda de força para tarefas simples como abrir uma garrafa ou segurar uma sacola.
Dor persistente na virilha ou na coxa que não melhora com repouso. Rigidez ao levantar pela manhã que dura mais do que poucos minutos. Dificuldade para calçar sapatos ou cortar as unhas dos pés. Limitação para caminhar distâncias que antes eram confortáveis.
Quando esses sinais aparecem, a consulta com profissional de formação específica naquela região do corpo encurta o diagnóstico, reduz o tempo de tratamento e amplia as chances de evitar cirurgia ou, quando ela for necessária, de chegar ao centro cirúrgico em condições mais favoráveis.
Em um estado em que o trabalho exige o corpo inteiro de oito a dez horas por dia, dos seis aos sessenta anos, a saúde osteomuscular não é detalhe. É a engrenagem que mantém a economia funcionando.
